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Físicos e arqueólogos disputam antigos artefatos romanos

Chumbo processado na antiguidade é útil para física de partículas mas tem importante valor histórico

Shutterstock
 Físicos preferem lingotes de chumbo da era Romana a metais recém-minerados para proteger experimentos de partículas, mas arqueólogos querem que sejam preservados
 

Por Clara Moskowitz

 

Físicos e arqueólogos estão brigando por chumbo romano antigo – uma substância altamente valorizada pelas duas áreas por razões altamente divergentes. O chumbo muito antigo é puro, denso e muito menos radioativo que o metal recém-minerado, ideal para proteger experimentos sensíveis que caçam matéria escura e outras partículas raras. Mas ele também tem valor histórico, e muitos arqueólogos se opõem ao derretimento de lingotes romanos com dois mil anos de idade que são poderosas janelas para a história antiga.

“Será que esses experimentos são importantes o suficiente para destruir partes de nosso passado, para descobrir algo sobre nosso futuro?”, pergunta Elena Perez-Alvaro, estudante de pós-graduação em arqueologia na University of Birmingham, na Inglaterra, que escreveu um artigo sobre os dilemas no Rosetta, uma publicação arqueológica da University of Birmingham. Alguns físicos argumentam que vale a pena brigar para obter o material. “Esses experimentos podem revelar algumas das propriedades mais fundamentais do Universo, e responder perguntas do tipo ‘quem somos’ e ‘de onde viemos’”, argumenta o físico M. Fernando Gonzales-Zalba, da University of Cambridge, colaborador da pesquisa de Perez-Alvaro. “Eu acho que vale a pena”.

O chumbo romano antigo foi usado no CDMS, a Busca Criogênica por Matéria Escura, um experimento em Minnesota para detectar as partículas que compõem a matéria escura invisível que se acredita contribuir com grande parte da massa do Universo.

O mesmo metal também foi usado no projeto CUORE (Observatório Criogênico Subterrâneo para Eventos Raros, literalmente), na Itália, que em breve inicia a busca  por um processo teórico de decaimento de partículas chamado de ‘decaimento beta duplo sem neutrinos’ que, se encontrado, poderia explicar o porquê de a matéria dominar a antimatéria no Universo.

Esses e outros experimentos exigem uma proteção extrema para bloquear quaisquer partículas externas que possam ser confundidas com os raros sinais que eles caçam.

O chumbo em questão já serviu para fazer moedas, canos, materiais de construção e armas na antiga civilização romana. Agora ele é mais comumente encontrado em locais de naufrágios, onde empresas privadas coletam e derretem os lingotes romanos e os transformam em tijolos padrão antes de vendê-los a clientes, especialmente a físicos. “Nenhum de nós vê isso casualmente – não queremos que artefatos históricos sejam destruídos sem necessidade”, alerta o físico Blas Cabrera da Stanford University, que lidera o projeto CDMS. De qualquer forma, ele observa que o chumbo antigo é o melhor material disponível para proteger detectores de matéria escura, porque libera muito pouca radiação, ou partículas de fundo. “Os níveis de radiação de fundo que alcançamos com o chumbo antigo são quase mil vezes menores que os do chumbo disponível no mercado”.

Todo o chumbo minerado na terra contém naturalmente alguma quantidade do elemento radioativo urânio 235, que decai, com o tempo, em outro elemento radioativo, uma versão do chumbo chamada de chumbo 210. Quando o minério de chumbo é processado pela primeira vez, ele é purificado e a maior parte do urânio é removida. Qualquer chumbo 210 que já esteja presente começa a decair, com metade dele decaindo em média a cada 22 anos.

No chumbo romano quase todo o chumbo 210 já decaiu, enquanto no chumbo minerado atualmente o processo de decaimento está apenas começando. (É claro que muitos átomos de chumbo 210 já decaíram nesse minério também, mas o suprimento é constantemente substituído pelo urânio do chumbo ainda não processado). “Quanto mais tempo se passa desde que o chumbo é processado pela primeira vez, menor é sua radioatividade intrínseca”, explica Gonzalez-Zalba.

Os romanos não foram os primeiros a produzir barras de chumbo – os gregos antigos também manufaturavam esse material de construção 200 anos antes. Ainda que esse chumbo provavelmente também chegue a alguns experimentos, ele é mais escasso. E o suprimento de chumbo romano também não é exatamente vasto. “Nós podemos perder todo o chumbo romano antigo – e assim perder as informações sobre tecnologia antiga, navegação, comércio e outras coisas que ele possa oferecr – se seu uso para esse tipo de propósito se tornar comum”, argumenta o arqueólogo John Carman, supervisor de Perez-Alvaro na University of Birmingham. Ao preservar os lingotes, arqueólogos esperam aprender mais sobre a tecnologia, indústria e cultura dos romanos. A tecnologia futura pode ser capaz de extrair mais segredos dos artefatos que os estudos do presente, então deixar os objetos intocados, de preferência no local do naufrágio, é o ideal.

As leis que envolvem essa disputa são nebulosas. A Convenção da UNESCO de 2001 sobre a Proteção da Herança Cultural Submersa proibe a exploração comercial de artefatos históricos submersos. Mas não está claro se isso se aplica a experimentos físicos. “Como o uso final do chumbo é o conhecimento, e não o mercado, isso fica um pouco incerto”, pondera Gonzalez-Zalba. “A lei não é 100% clara sobre o assunto”. Tanto arqueólogos quanto físicos declaram que são necessárias diretrizes mais objetivas. “Precisamos de análise profunda dos problemas envolvidos, do tipo que Elena está fazendo, seguida por um debate sério envolvendo todas as partes interessadas, incluindo organismos internacionais como a UNESCO, para construir um conjunto de diretrizes claras que com sorte protegerão os interesses da comunidade científica, incluindo os da arqueologia”, observa Carman.

No fim das contas, todas as partes envolvidas procuram um compromisso que preserve a história, mas que permita a física de ponta. Afinal, os romanos eram famosos por inovar, e provavelmente sorririam ao saber que seus lingotes perdidos estão sendo usados atualmente.