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Formiga invasora se alastra nos Estados Unidos

Formiga equipada com antídoto contra veneno tem vantagem sobre competidores

Joe A. MacGown com o Museu Entomológico do Mississippi
A formiga que está infestando o sudeste dos Estados Unidos

 

 
Por Dina Fine Maron

Os ingleses tinham o arco longo. Os espanhóis o aço. Formigas malucas amarelo-amarronzadas (tawny crazy ants, em inglês) têm sua própria arma formidável, um invólucro antiácido que as protege contra suas inimigas, as formigas-lava-pés. A revelação vem de um novo estudo publicado em 13 de fevereiro.

 Batizadas por causa de sua cor caramelo e movimentos erráticos, as formigas malucas são a mais recente espécie de insetos invasores no Texas e nos estados do golfo do México, destituindo as reinantes “formigas-de-fogo” (ou lava-pés) importadas, que infestavam a região.

Saindo em bandos de tomadas elétricas e causando curtos-circuitos em aparelhos eletrônicos, os pequenos insetos têm feito manchetes à medida que aumentam em número no sudeste dos EUA Em alguns lugares elas podem estar tão amontoadas que inicialmente são confundidas com sujeira. Mas então elas começam a se mover.

À medida que sua população aumenta, as formigas, formalmente conhecidas como Nylanderia fulva (mas às vezes também chamadas formigas loucas de Rasberry em homenagem ao exterminador texano que as descobriu), estão danificando o meio ambiente, sem falar nas casas e nos dispositivos eletrônicos das pessoas. Agora temos uma nova pista sobre o porquê elas são capazes de prevalecer sobre as lava-pés que predominavam antes.

Formigas malucas produzem substâncias químicas que elas esfregam em si mesmas como um antídoto contra o veneno das lava-pés. Além disso, a substância ácida, que sai de um lugar onde em outras espécies de formigas estaria localizado o ferrão, também funciona como uma arma química que elas espirramem inimigos. Isso permite às malucas derrotarem concorrentes que de outra forma ajudariam a controlá-las.

A descoberta resultou de algumas observações iniciais de comportamentos estranhos, às vezes perturbadores, de formigas. Desde que esses insetos, originários do norte da Argentina e do sul do Brasil, começaram a aparecer no Texas, em 2002, não estava claro por que eles conseguiam se propagar tão bem. No entanto, é inegável que fazem isso.

Novas pesquisas revelam que, quando as formigas lava-pés e as malucas aparecem em números aproximadamente iguais na caça aos saborosos grilos, para elas uma iguaria, as malucas normalmente vencem cerca de 93% das vezes. Além disso, muitas colônias de formigas malucas foram vistas dentro de formigueiros ainda habitados por alguns dos seus moradores anteriores, o que alarmou entomologistas para o fato de que as malucas aparentemente são capaz de roubar facilmente ninhos ativos de suas primas.

Edward LeBrun, um pesquisador da University of Texas em Austin e sua equipe publicaram essas e outras descobertas em 13 fevereiro no site da Science. Uma observação perspicaz em particular da equipe estimulou suas pesquisas do arsenal químico das formigas: formigas malucas que estiveram envolvidas em escaramuças com lava-pés normalmente apresentam uma sequência bem característica de comportamentos.

Depois de um confronto com uma lava-pé, a formiga maluca ficava de pé, apoiada em suas pernas traseiras e intermediárias, enrolava seu corpo completamente até tocar a abertura glandular na ponta de seu abdômen com as mandíbulas, e depois parecia se “arrumar” vigorosamente, esfregando um secreção por seu corpo, aparentemente para desintoxicar o veneno. Diante disso, a equipe de LeBrun decidiu investigar mais a fundo o que estava acontecendo.

Teste com antídotos

Para esse trabalho LeBrun aplicou um pouco de esmalte na abertura glandular posterior do inseto para bloquear a liberação de secreções e, para criar um grupo de controle, ele passou uma quantidade igual de esmalte nos lados de outras formigas malucas. Em seguida, o cientista colocou os insetos no meio de lava-pés atacantes.

As formigas malucas que não tinham suas glândulas bloqueadas foram capazes de se defender e sobreviveram ao ataques das lava-pés quase 100% das vezes. No grupo de formigas malucas atacadas, mas com suas capacidades de defesa bloqueadas, cerca de metade morreu. E, embora algumas das formigas com aberturas seladas possam ter sobrevivido porque o esmalte formou bolhas, permitindo que pequenas quantidades das secreções protetoras saíssem pelo orifício, as diferenças ainda assim marcantes nos índices sobrevivência indicam que essa secreção e o movimento que acompanha sua liberação estava protegendo as formigas.

Já se sabia que as formigas malucas espirravam a secreção glandular, previamente identificada como ácido fórmico, como parte de um mecanismo de defesa, mas esse é o primeiro trabalho que encontrou uma espécie de formiga que aparentemente se desintoxica com a substância.

Os pesquisadores também testaram as capacidades de proteção do ácido ao exporem outra espécie de formiga ao veneno da formiga lava-pés e o possível antídoto da formiga maluca, ou somente ao veneno com um placebo. Apenas 20% das formigas sem o antídoto conseguiram sobreviver em comparação com 100% dos insetos que receberam o ácido fórmico das formigas malucas. Essa é uma diferença notável.

Não se sabe ainda exatamente como o ácido fórmico funciona como um mecanismo de defesa, se ele altera, ou descaracteriza, as enzimas da picada das formigas lava-pés ou muda a atividade biológica do veneno, admite Lebrun. Mas os números protetores não mentem e lançam luz sobre um processo biológico em ação.

Invasoras de eletrônicos

A descoberta ocorre em um momento em que as formigas estão se espalhando e desalojando as lava-pés do sudeste dos Estados Unidos. Sua multiplicação é uma má notícia para o ecossistema, porque as invasoras estão reduzindo os números de outros artrópodes, como aranhas e centopeias, que são alimentos básicos de aves que normalmente se alimentam deles, ao passo que não normalmente não ingerem as formigas malucas menos saborosas.

“Basicamente isso significa que haverá uma redução na quantidade de alimentos disponíveis na base da cadeia alimentar que repercutirá mais acima, em criaturas como pássaros”, explica Lebrun.

Além disso, apesar das beliscadas e picadas dolorosas das formigas lava-pés, seus vizinhos humanos dizem não encontrá-las com frequência, porque elas tendem a se manter em seus formigueiros, a não ser que sejam perturbadas por humanos, observa LeBrun.

As formigas malucas, por outro lado, são conhecidos por se infiltrar em qualquer cavidade disponível para nidificar, seja em tubulações, caixas de fusíveis ou na parte mecânica interna de um carro, aumentando a probabilidade de danos materiais. “Isso está apenas começando a ‘sair em disparada dos portões de largada’ e chegando à consciência nacional”, comenta Neil Tsutsui, um biólogo evolutivo da University of California em Berkeley.

A propensão das formigas malucas para provocar curtos-circuitos em aparelhos eletrônicos também tem alimentado especulações de que os insetos são atraídos pelos dispositivos em si, uma teoria que não foi confirmada pela ciência. Outra hipótese é que quando essas formigas são atacadas, ou levam um choque elétrico, elas secretam feromônios de alarme que atraem rapidamente outras formigas, segundo LeBrun. “Parece que as formigas malucas são bastante atraídas por seus feromônios de alarme”, comenta ele.

Uma vez que as ousadas formigas malucas invadem uma casa é difícil estimar quantas estão lá, mas de acordo com Lebrun basta que quando se aplica um pesticida “aparecem montes de formigas mortas” ao redor dos edifícios e as pessoas as varrem em “pazadas de lixo cheias”. Suas populações são tão grandes que mesmo após a aplicação de pesticida, alguns meses mais tarde uma colônia pode reaparecer, exigindo mais tratamentos.

Embora pareça que as formigas lava-pés não serão mais as primeiras a controlar a população formigas malucas, ainda existem fatores ambientais que poderiam limitar sua propagação. Quando formigas invasoras lava-pés importadas começaram a se espalhar nos Estados Unidos, forças naturais, como os rigorosos congelamentos no norte do país e condições de severas secas no oeste limitaram sua propagação. O tempo dirá se os mesmos fatores controlarão as formigas malucas.

“A única maneira pela qual elas estão se espalhando é por causa de pessoas”, afirma Lebrun. Essas formigas não voam, portanto, elas normalmente só se movem, em média, uns200 mpor ano. Elas só chegam a novas áreas quando nidificam em caixas abandonadas, carros ou lugares, como em vasos de plantas, e os materiais infestados são transportadas por humanos. É hora de ficar de olho em formigas malucas clandestinas.