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Golfinhos memorizam por décadas

Golfinho reconhece companheiro após 20 anos, recorde de memória de longo prazo entre animais

Sociedade Zoológica de Chicago
Golfinhos-nariz-de-garrafa ficam bastante agitados quando um cientista reproduz os assobios de assinatura de outros golfinhos que eles conhecem — mesmo que eles não tenham visto seus amigos em décadas.

 
 Por Karen Ravn and Nature magazine

Allie e Bailey se conheceram quando viviam na Flórida. Agora, passados mais de 20 anos, Allie vive perto de Chicago e Bailey nas Bermudas, mas Bailey ainda se lembra do nome de Allie. Isso em si não seria uma notícia extraordinária, só que Allie e Bailey não são pessoas; são golfinhos.

O fato de Bailey se lembrar do nome de Allie, ou melhor, de seu assobio característico, ou sua “assinatura”, que funciona como um nome entre os golfinhos, é a memória social mais duradoura já registrada para uma criatura não-humana. Esse é apenas um dos muitos dados de um estudo que concluiu que esta é a regra — e não a exceção — para golfinhos-comuns, ou golfinhos-nariz-de-garrafa (Tursiops truncatus), reconhecerem assobios conhecidos de seu passado distante.

“Ainda não podemos dizer qual é o limite máximo em termos de tempo, nem mesmo se ele existe”, afirma Jason Bruck, um biólogo da University of Chicago, que publicou os resultados no dia 7 de agosto no site Proceedings of the Royal Society B. “Sabemos apenas que são pelo menos 20 anos”.

Todo golfinho-nariz-de-garrafa adota um assobio próprio entre os quatro e 12 meses de idade que permanecerá idêntico pelo resto de sua vida.

Em outro estudo recente, publicado em julho deste ano no site da Proceedings of the National Academy of Sciences, Stephanie King e Vincent Janik, dois biólogos de mamíferos marinhos da University of St. Andrews, no Reino Unido, mostraram que os golfinhos usam esses assobios como nós, seres humanos, usamos nomes: eles vocalizam suas assinaturas individuais para se identificarem aos outros animais e imitam os assobios dos outros para chamá-los.

Um nome para lembrar

Para seu estudo, Bruck trabalhou com mais de 50 golfinhos de seis instalações de criação que fazem um rodízio de animais entre si e que, por acaso, mantêm registros de quem viveu com quem e quando.

Bruck então gravou o assobio característico de cada um desses golfinhos e os tocou para seus velhos amigos através de um alto-falante subaquático, alternando o chamado com os sons de golfinhos desconhecidas como controles.

Antes de cada teste de assobio, porém, ele habituou os animais a assobios estranhos, para eliminar a possibilidade de que eles estivessem simplesmente reagindo à novidade de ouvir assobios vindos de um alto-falante.

O assobio de um ex-companheiro teve maior probabilidade de chamar a atenção do animal testado, fazendo com que ele esbarrasse propositalmente no alto-falante, por exemplo, na tentativa de fazê-lo assobiar de volta.

Isso se comprovou independente de há quanto tempo a dupla havia sido separada.

Os pesquisadores esperavam que os golfinhos tivessem memórias de longo prazo, mas talvez não tão longo. “Eu não teria me surpreendido se eles começassem a esquecer os assobios de alguns amigos de piscina uns 5 ou 10 anos depois de terem sido separados”, diz Peter Tyack, outro biólogo marinho de mamífero de St. Andrews.

Não está claro que tipo de paralelo pode ser traçado com o reconhecimento social humano, nem qual a sua intensidade. “Será que os golfinhos prestam atenção ao assobio porque ele é um som familiar que já fez parte, ou talvez ainda faça parte de seu repertório vocal?”, indaga King. “Ou será que o assobio suscita uma representação mental, uma lembrança, do animal ausente na mente do golfinho?”

Bruck ainda não tem a resposta, mas já tem algumas pistas de que os golfinhos se lembram tão bem do companheiro de tanque como do som. Em testes nos quais reproduziu os assobios de assinatura de machos extremamente dominantes, por exemplo, as fêmeas reagiram com um interesse excepcional. “E houve muitas reações posturais dos outros machos”, revela Bruck. “Alguns animais jovens ficavam excitadíssimos”.

Este artigo é reproduzido com permissão da revista Nature. O artigo foi publicado pela primeira vez em 7 de agosto de 2013.

sciam9ago2013