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Guepardos podem escapar da extinção

População mundial desses felinos teve declínio de 90% em pouco mais de 100 anos

Mark Probst/Flickr
John R. Platt

 

Perda de hábitat. Conflito com humanos. Mudança climática. Limitada diversidade genética. Comércio ilegal de animais silvestres. A lista de ameaças aos guepardos (Acinonyx jubatus) da África parece não ter fim. Os ágeis felinos dessa espécie, famosos por sua grande velocidade, já foram extintos em mais de 20 países e viram sua população despencar de 100 mil animais em 1900, para cerca de 10 mil hoje.

Embora seus números continuem encolhendo, em alguns aspectos os grandes felinos na realidade estão se saindo um pouco melhor atualmente do que há algumas décadas. “Pelo menos sabemos quais são os problemas”, diz Laurie Marker, fundadora e diretora-executiva do Fundo para Conservação de Guepardos (CCF, em inglês), que esteve em Portland, no Oregon, no início de outubro como parte de um giro para angariar contribuições por ocasião do aniversário de 25 anos de sua organização.

Marker vive na Namíbia, o país com a população mais saudável de guepardos, desde 1990. Mas seu trabalho com os grandes felinos na realidade começou no noroeste dos Estados Unidos. Na década de 70, ela estabeleceu o primeiro programa bem-sucedido de reprodução desses animais em cativeiro no parque Wildlife Safari, em Winston, no Oregon. Mais tarde levou um dos guepardos para a Namíbia, para verificar se ele tinha instintivamente a capacidade de caçar ou se precisava ser ensinado. Ela também integrou o grupo de pesquisadores que primeiro descobriram a falta de diversidade genética dos animais. Em campo, o CCF implantou numerosos programas bem-sucedidos para ajudar a aumentar as populações de guepardos, restaurar hábitats, e educar fazendeiros a fim de reduzir o conflito entre humanos e vida selvagem.

“Realizamos um bom trabalho de estabilização e desenvolvimento da população na Namíbia”, comemora Marker. “A partir desse esforço sabemos onde eles estão em todo o resto de suas áreas de alcance. Agora está mais ou menos em nossas mãos, como humanos, descobrir o próximo passo, que é tentar expandir as populações em outros lugares”.

Vastas áreas

Não será fácil. Marker explica que guepardos precisam de vastas áreas territoriais. “Eles cobrem cerca de 1.300 km em suas andanças”, observa ela. “As reservas na África geralmente não são tão grandes”. Além disso, salienta, guepardos não se dão bem em reservas, uma vez que leões e hienas, mais agressivos, “confinados” dentro dessas mesmas áreas limitadas, tendem a roubar seus alimentos.

Isso deixa a maioria desses felinos vivendo em territórios desprotegidos, onde eles ainda enfrentam concorrência, mas também entram em conflito com fazendeiros e pecuaristas que os consideram uma ameaça e com excessiva frequência os matam para proteger suas criações.

Esses mesmos rebanhos geram mais problemas. Os animais sobrepastoreiam as savanas, deixando pouco capim para gazelas e outras espécies de animais-presas que os guepardos caçam e consomem. “Em muitas dessas áreas, as espécies-presas também são muito raras e ameaçadas de extinção”, acrescenta Marker. A caça clandestina depaupera ainda mais suas populações, deixando os guepardos com pouco o que comer.

Espinhos perigosos

O sobrepastoreio de savanas e terras de gramíneas também permite que uma planta invasora, a acácia-espinhosa, tome conta de grande parte do hábitat. Assim como as algarobeiras, esses arbustos têm raízes profundas que empobrecem ainda mais os já frágeis e minguados lençóis freáticos dessa região árida. Além disso, os próprios arbustos, repletos de espinhos, constituem uma ameaça direta para os guepardos, uma vez que felinos em disparada muitas vezes entram correndo neles e se cegam, o que é uma sentença de morte para os animais.

Mas para muitos desses problemas existem soluções. “Desenvolvemos programas que chamamos ‘Futuros Fazendeiros da África’”, explica Marker. “Eles giram em torno do cultivo, e não o sobrepastoreio, de gramíneas; a manutenção de um gado saudável; e a conservação da vida selvagem para que se tenha um sistema integrado que garanta a biodiversidade”. O CCF também cria e disponibiliza grandes cães de guarda para ajudar a proteger rebanhos de predadores a fim de reduzir atos de retaliação humana; e mantém programas para ressarcir criadores por quaisquer perdas de gado.

Quanto aos arbustos de acácia-espinhosa, Marker iniciou um programa para colher as plantas invasoras e convertê-las em madeira para combustível. “Estamos tentando fazer um upgrade nisso para produzir energia de biomassa”, explica. O plano não só ajudará o meio ambiente local, como também poderia empregar pessoas na colheita e produção.

Ameaça climática

Ainda assim, o futuro pode reservar novas ameaças. “A mudança climática realmente será um problema muito grande”, admite Marker. “Estamos em uma das áreas mais áridas do mundo. E ela está ficando mais seca e quente. Nossas temperaturas estão se tornando mais erráticas. E temos previsões que mostram nossos desertos se expandindo”.

Ela está também preocupada com a crescente população humana da África, projetada para dobrar até 2050. “Veremos uma enorme pressão de desenvolvimento nos próximos 25 a 30 anos”, observa Marker, salientando que isso afetará espécies silvestres em todo o continente ao eliminar hábitat, intensificar a caça e criar mais oportunidades para conflitos entre humanos e animais selvagens.

Os programas e a ciência desenvolvidos pelo CCF ao longo dos últimos 25 anos permitirão que os guepardos prosperem nos próximos 25? “Bem, nós conhecemos os problemas”, esquiva-se Marker. “Sou realista sobre quais são os desafios. A pesquisa nos mostrou o que fazer”. Seus objetivos incluem restaurar pastagens, desenvolver, ou aumentar as populações de espécies-presas, e encontrar mais meios sustentáveis para beneficiar agricultores empobrecidos economicamente.

Ainda assim, decisões difíceis podem ser necessárias. De acordo com Marker, algumas subpopulações de guepardos são tão pequenas, ou enfrentam tantas ameaças, que pode ser impossível salvá-las. Por outro lado, expandir os programas do CCF para incluir mais populações e gerar mais consciência pública sobre a difícil situação dos felinos envolverá muito dinheiro. Muitas pessoas nem ao menos se dão conta de que esses animais icônicos estão ameaçados de extinção, salienta ela indignada.

É por essa razão que Marker está fazendo seu giro de conscientização este mês. “Tomara que as pessoas pelo menos vejam este lindo animal e digam ‘uau, poderíamos perdê-lo. A resposta a isso é sim, poderíamos. E se deixarmos isso acontecer, que vergonha para nós!”

Sobre o autor: Duas vezes por semana, John Platt discorre sobre espécies ameaçadas de todas as partes do globo, destacando não só por que elas estão morrendo, mas também o que está sendo feito para resgatá-las do esquecimento. Siga-o no Twitter em @johnrplatt

As opiniões expressadas são as do autor e não necessariamente as da Scientific American.

Publicado em Scientific American em 8 de outubro de 2015.