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Hambúrguer cultivado passa por teste

O resultado é satisfatório mas o processo de produção de carne a partir de células tronco ainda é muito caro

David Parry/PA Wire
Mark post com seu hambúrguer cultivado no laboratório
 

 

Por Arielle Duhaime-Ross

 

Os fãs de ficção científica e os ativistas dos direitos dos animais têm anunciado sua chegada há décadas. No entanto, em um mundo onde os cientistas de alimentos ainda tentam descobrir como prolongar a vida de um bolo é difícil imaginar que a carne cultivada em uma placa de Petri chegue aos nossos pratos de jantar tão cedo.

Ainda assim, no dia 5 de agosto, em Londres, Mark Post, um fisiologista vascular da Universidade de Maastricht, na Holanda, permitiu que dois degustadores independentes experimentassem um hambúrguer criado por ele em seu laboratório. “O paladar era familiar”, declarou o escritor e jornalista Josh Schonwald depois de morder um pedaço da carne frita na frente dos repórteres. “[A diferença] é a ausência de gordura”. Os dois degustadores tiveram o cuidado de não comentar se o sabor era “bom” ou não.

 

O hambúrguer foi cultivado no laboratório de Post a partir de células-tronco de músculos esqueléticos bovinos coletadas em um pedaço de carne fresca. Para fazer isso, as células foram “alimentadas” como soro de bezerro e colocadas em um meio de crescimento comercialmente disponível para iniciar a multiplicação e levá-las a desenvolverem células musculares com o tempo.

Uma vez que se diferenciaram em células musculares, elas receberam fontes de nutrientes simples, como extratos de algas. Além disso, os cientistas “exercitaram” as tiras musculares em um biorreator, fixando-as em uma estrutura de suporte (como um andaime) de açúcar solúvel e aplicando nelas lentamente uma tensão usando pontos de ancoragem parecidos com rosquinhas para ajudar o músculo a se fortalecer.

O hambúrguer resultante, de cerca de 140 gramas, preparado pelo chef Richard McGeown, foi feito com 20 mil tiras de carne cultivada, cerca de 40 bilhões de células bovinas, e levou aproximadamente três meses para se desenvolver, “o que é mais rápido que [criar] uma vaca”, brincou Post.

 O número mais impressionante associado ao hambúrguer, porém, é o seu preço de US$ 325 mil, doados por Sergey Brin, cofundador do Google.

Post nutre a esperança de, um dia, conseguir baixar os custos para chegar a um preço mais competitivo.

“Fizemos alguns cálculos em que chegamos a um valor de US$ 70 por quilo com a tecnologia atual”, observou Post. “Isso me dá confiança suficiente de que, eventualmente possamos expandir [a produção] e fazê-lo a um preço razoável”.

Não espere, no entanto, encontrar a carne cultivada no laboratório de Post em seu supermercado local no futuro próximo. O objetivo da coletiva de imprensa foi mostrar ao mundo que a tecnologia está disponível, declarou Post, acrescentando que “para aprimorá-la provavelmente levaremos de10 a20 anos até que a carne possa chegar aos supermercados”.

Para deixar o hambúrguer pronto para o teste de degustação em Londres, Post misturou açafrão e suco de beterraba nas tiras de carne para obter a cor certa.

 O hambúrguer em si foi preparado do modo tradicional, com farinha de rosca e uma “liga” para a carne. Em seguida, o bolinho foi frito na frente dos repórteres usando óleo de girassol e manteiga, o que levou a degustadora Hanni Rützler, uma cientista nutricionista da Michigan Technological University a lamentar a falta de sal e pimenta. “[O gosto] está bem próximo do da carne real”, disse Rützler, depois de mastigar o bolinho preparado na hora. “Pensei que a consistência seria muito diferente. Julguei que seria muito mais macia”.

Post não pareceu muito preocupado com as reações dos degustadores. “Creio que seja um começo muito bom”, disse ele. “Isso foi apenas para provar que podemos fazê-lo. Estou muito feliz com isso”.

O cientista agora espera aprimorar o sabor cultivando tecido adiposo (gorduroso). “Grande parte da suculência e do sabor vem da gordura”, observou ele. “Ainda levará alguns meses até que consigamos isso também”.

Para o pesquisador holandês, a principal razão para explorar esse método de produção de carne é oferecer uma resposta à crescente crise alimentar.

Segundo a Organização Mundial de Saúde, a demanda de carne duplicará no decorrer dos próximos 40 anos. Isso é um grande problema, porque mais de 70% das terras agrícolas do mundo atualmente são utilizados para a produção pecuária, deixando pouco espaço para as culturas destinadas ao consumo humano.

Post também destaca que a carne cultivada em laboratório ajudará a reduzir a produção de gás metano, que contribui para a mudança climática.

Embora ainda não se saiba como Post e seus dois técnicos de laboratório conseguirão produzir a carne em massa, a um custo que daria aos consumidores comuns uma alternativa razoável para a carne de gado de corte, uma coisa é certa: a carne que ele está produzindo não é destinada aos vegetarianos. “Estamos procurando atender os amantes de carne, porém de uma forma ambientalmente correta e ética”, declarou Post. “Deixemos que os vegetarianos continuem vegetarianos, isso é ainda mais ecologicamente correto que consumir carne cultivada”.

 sciam6ago2013