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Homo erectus andava como nós

Pegadas de 1,5 milhões de anos atrás fornecem informações sobre a vida do Homo erectus

 

MAX-PLANCK-GESELLSCHAFT

Fósseis e ferramentas de pedra podem dizer muito sobre a evolução humana, mas certas dinâmicas comportamentais dos nossos ancestrais - coisas relacionadas a como eles se movimentavam e como interagiam uns com os outros - são incrivelmente difíceis de se deduzir a partir dessas formas tradicionais de informação paleontológica. Pesquisadores do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva em Lípsia, na Alemanha, em conjunto com um time internacional de colaboradores, descobriram recentemente uma coleção de múltiplas pegadas de Homo erectus no nordeste do Quênia que fornecem oportunidades únicas de entender padrões de locomoção e estrutura de grupo através de uma forma de dados que relata diretamente esses comportamentos. Usando uma nova técnica de análise, eles demonstraram que essas pegadas preservam evidências de um estilo semelhante ao dos humanos modernos de andar e de uma estrutura grupal consistente com nossos comportamentos sociais.

A locomoção bípede regular é uma característica distintiva de humanos modernos em comparação a outros primatas, e a evolução desse comportamento em nosso clado teria causado efeitos profundos na biologia de nossos ancestrais fósseis e aparentados. No entanto, tem havido muito debate acerca de quando e como um andar bípede semelhante ao humano surgiu pela primeira vez no clado hominídeo, em grande parte por conta de desacordos sobre como inferir indiretamente sobre a biomecânica de morfologias esqueléticas. Da mesma maneira, certos aspectos de estrutura grupal e de comportamento social distinguem humanos de outros primatas, e muito provavelmente surgiram através de grandes eventos evolutivos, e, ainda assim, não há ainda um consenso sobre como detectar tais aspectos de comportamento grupal em registros fósseis ou arqueológicos.

Em 2009, um conjunto de pegadas de hominídeo de 1,5 milhões de anos foi descoberto em um sítio arqueológico perto da cidade de Ileret, Quênia. Um trabalho contínuo de cientistas do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva e uma equipe de colaboradores internacionais no local revelou uma descoberta de fóssil com traço hominídeo em uma escala sem precedentes para esse período de tempo - cinco áreas distintas que preservam um total de 97 rastros criados por pelo menos 20 diferentes indivíduos supostamente pertencentes ao grupo Homo erectus. Usando uma abordagem experimental, os pesquisadores descobriram que o formato dessas pegadas é indistinguível em relação ao formato das pegadas descalças de pessoas modernas, refletindo uma anatomia e mecânica de pés semelhantes. “Nossa análise das pegadas fornece algumas das únicas evidências diretas que sustentam a suposição comum que pelo menos um de nossos “parentes” de 1,5 milhões de anos atrás andava praticamente do mesmo modo como fazemos hoje,” diz Kevin Hatala, do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva e da Universidade George Washington.

Baseado em estimativas de massa corporal do hominídeo de Ileret obtidas através de experimentos, pesquisadores também inferiram os sexos dos múltiplo indivíduos que andaram através das superfícies onde foram encontradas as pegadas e, considerando os dois lugares mais extensivamente escavados, desenvolveram hipóteses sobre as estruturas de grupos desses H. erectus. Em cada um desses sítios existem evidência de muitos indivíduos do sexo masculino, implicando um certo nível de tolerância e mesmo de possível cooperação entre eles. Cooperação entre seres do sexo masculino constitui a base de muitos comportamentos sociais que distinguem humanos modernos de outros primatas. “Não é chocante que tenhamos achado evidências de tolerância mútua e talvez até cooperação entre machos de um hominídeo que viveu há 1,5 milhões de anos, especialmente o Homo erectus, mas essa é nossa primeira chance de ver o que parece ser um olhar direto para essa dinâmica comportamental em tempos distantes,” diz Hatala.

 

MAX-PLANCK-GESELLSCHAFT

 


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