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Ideais desacoplados

Manifesto revisa o desenvolvimento sustentável, mas objetivo permanece 

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A humanidade enfrenta dois desafios fundamentais neste século. O primeiro é tirar bilhões de pessoas da pobreza e dar-lhes a oportunidade de viver uma vida saudável e digna. A segunda é garantir que esse desenvolvimento não desestabilize os sistemas climáticos e ecológicos que permitiram a ascensão de humanos e outras formas de vida na Terra. O problema é que esses dois objetivos estão cada vez mais em conflito.

Reconciliar os imperativos gêmeos da conservação e do desenvolvimento não é fácil. ‘Desenvolvimento sustentável’ é um bordão que define claramente o que o mundo deve conseguir atingir, mas ninguém sabe exatamente como isso seria em escala total. Até o final do ano, governos finalizarão um conjunto de objetivos de desenvolvimento sustentável para orientar o auxílio internacional e, em dezembro, líderes globais se reunirão para discutir o acordo climático mais recente durante um encontro em Paris. Qualquer acordo ficará marcado pelos inevitáveis compromissos que permitem espaço para o desenvolvimento poluente enquanto o mundo procura soluções melhores e mais acessíveis.  

A tentativa mais recente de criar uma estrutura para pensar sobre esse dilema vem de 18 ativistas ambientais e acadêmicos, que publicaram o ‘Manifesto Ecomodernista’ na semana passada. O ensaio oferece uma imagem esperançosa do progresso tecnológico, enquanto dá importância ao tipo de desenvolvimento intensivo que caracterizou a ascensão humana até agora. Apenas se concentrarmos nosso impacto sobre o contexto urbano, industrial e agrícola é que poderemos atingir um “bom Antropoceno”, a era da influência humana, argumentam os autores.

Carvão, óleo e gás natural já melhoraram muitas vidas, e esse ensaio aponta que o longo arco do desenvolvimento já está tendendo a tecnologias energéticas mais limpas, melhores e mais eficientes – mas não com velocidade suficiente. Pelo menos no curto prazo, afirmam os autores, países pobres estão certos ao se concentrarem em melhorar as vidas de seus cidadãos, mesmo que isso signifique expandir seu uso de combustíveis fósseis até que soluções mais acessíveis e limpas estejam disponíveis. Essas ideias são propostas em termos de um maior “desacoplamento entre a humanidade e a natureza”. O que isso significa, precisamente, é deixado à imaginação, mas o ensaio também destaca o papel da agricultura moderna, que liberou mão de obra, permitiu a ascensão de cidades e reduziu a quantidade de terra necessária para alimentar a humanidade. Em vez de lamentar essa tendência, os autores argumentam que ela deve ser encorajada e acelerada.

O ensaio traz um evidente contraste à visão sombria frequentemente narrada por ambientalistas e cientistas. Um pouco de ceticismo é justificado. No longo prazo, os autores depositam sua fé em uma nova geração de células solares combinadas com tecnologias eficientes de armazenagem de energia, fissão nuclear avançada – e até mesmo energia de fusão. No médio prazo, a força hidrelétrica poderia ter seu papel, da mesma maneira que tecnologias para captura e sequestro de carbono podem melhorar combustíveis fósseis nessa escala de tempo. Os autores se concentram em uma geração energética de grande escala, mas podem ter sido afoitos demais ao descartar algumas tecnologias eólicas e solares atuais, que podem ter um papel útil na redução da atual demanda por energia centralizada. A implantação responsável de recursos eficientes de bioenergia também pode ser útil, em paralelo com a intensificação agrícola.

Ainda não está claro qual será a aparência da solução climática. O que está claro é que governos precisam investir em um portfólio de pesquisa, desenvolvimento e demonstração energética. Eles devem implementar fortes políticas climáticas que conduzirão empresas na direção de tecnologias que produzem menos poluição do ar e menos emissões de gases estufa. Eles precisam investir em pesquisas agrícolas para garantir as plantações alimentares necessárias, e garantir que fazendeiros e agricultores tenham as ferramentas necessárias para maximizar a produção. E precisam estabelecer limites sobre a terra que pode ser desenvolvida.

Governos não podem remover as pessoas da equação, e decisões difíceis terão que ser tomadas. Mas o primeiro passo é apontar todos na direção certa. A engenhosidade humana toma muitas formas, e podemos surpreender até a nós mesmos.

 

Publicado por Nature em 21 de abril de 2015.