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Imunização pode combater estresse pós-traumático

Vacina experimental manipula sistema imune para aliviar sintomas de ansiedade e medo em roedores

SHUTTERSTOCK
Sarah Reardon e revista Nature

Manipular ou “ajustar” o sistema imune pode ser a chave para tratar, ou até impedir, o desenvolvimento do transtorno de estresse pós-traumático (TEPT).

Pesquisas em roedores sugerem que imunizar os animais pode diminuir seus medos se eles forem expostos posteriormente a situações de estresse.

Pesquisadores sabem há algum tempo que depressão e saúde do sistema imune estão ligados e podem se afetar mutuamente.

Estudos clínicos iniciais mostraram que drogas anti-inflamatórias podem amenizar, ou reduzir sintomas de depressão, aumentando as esperanças de que esses tipos de tratamentos talvez sejam úteis no tratamento de outros tipos de doença mental, como TEPT.

“Acho que existe certo frenesi sobre inflamação em psiquiatria atualmente”, opina Christopher Lowry, um neurocientista na Universidade do Colorado, em Boulder.

Ele apresentou resultados de experimentos que investigaram a relação entre comportamento medroso e resposta imune em um encontro da Sociedade Internacional de Neurociência Comportamental em Vitória, no Canadá, na semana passada.

Estudos de militares sugerem que a função imune pode influenciar o desenvolvimento de TEPT.

Soldados cujo sangue contém altos níveis da chamada proteína inflamatória C-reativa (CRP, na sigla em inglês) antes de eles serem enviados em missão de combate, ou que têm uma mutação genética que torna a CRP mais ativa, são mais propensos a desenvolver a doença.

Para testar diretamente se alterar o sistema imune afeta medo e ansiedade, Lowry e colegas injetaram camundongos com uma bactéria comum, a Mycobacterium vaccae (que vive naturalmente no solo), três vezes ao longo de três semanas para modular seus sistemas imunes.

Em seguida, os cientistas colocaram esses animais e um grupo de controle de camundongos não imunizados em gaiolas com animais maiores e mais agressivos.

Os bichos que tinham recebido as injeções eram mais “proativos” ao lidar com os agressores, em vez de simplesmente se renderem, como a maioria dos camundongos faz, explica Lowry.

Além disso, os intestinos dos camundongos imunizados permaneceram saudáveis, enquanto os animais de grupo controle desenvolveram cólons inflamados e suas floras intestinais (bactérias) mudaram para favorecer espécies associadas ao estresse.

Alívio de estresse

Em um segundo experimento, Lowry e colegas injetaram camundongos com M. vaccae e os condicionaram a temer um som que era associado a um choque elétrico no pé.

Em seguida, esse medo foi “apagado” ao expor os animais ao mesmo som sem o choque no pé.

Animais imunizados perderam seus medos muito mais rapidamente que os não imunizados, o que sugeriu que a imunomodulação pode ser um tratamento para o TEPT e também uma medida preventiva.

Lowry informa que seu grupo está considerando conduzir ensaios clínicos da terapia.

Como bactérias M. vaccae têm sido amplamente utilizadas em humanos como tratamento para outras doenças, ele espera que as autoridades reguladoras aprovem os planos de ensaios sem demora.

Jessica Gill, que estuda neurogenômica no Instituto Nacional de Pesquisa em Enfermagem dos Estados Unidos, em Bethesda, Maryland, concorda que a ideia de um tratamento preventivo para TEPT é interessante.

“É definitivamente concebível que algo desse tipo poderia ser traduzido para uso em populações que sabemos estarão sob estresse”, observa ela.

Em um estudo separado, também apresentado no simpósio de neurociência, pesquisadores ensinaram camundongos a temer um som ao aplicarem um choque elétrico toda vez que ele era tocado.

Em seguida, a equipe, liderada pelo neurocientista Matthew Young do Centro Nacional Yerkes de Pesquisa de Primatas, em Atlanta, na Geórgia, injetou os animais com moléculas superficiais de bactérias para provocar uma resposta imune.

Doze horas depois, os cientistas testaram a reação dos animais ao som, e constataram que os camundongos que tinham sido injetados agiam de modo mais medroso que seus congêneres em um grupo de controle.

“É tremendamente intrigante”, observa Bill Deakin, neurocientista na Universidade de Manchester, no Reino Unido.

Ele está iniciando um ensaio clínico para ministrar a 200 pessoas com esquizofrenia o antibiótico minociclina, que bloqueia inflamações no cérebro, para determinar se esse tratamento diminui o “encolhimento” da massa, ou matéria cinzenta cerebral observada nos estágios iniciais da doença.

Um estudo menor descobriu que esse tratamento diminuiu os sintomas da enfermidade.

Deakin espera que tratar pessoas com risco genético de esquizofrenia ou que estão exibindo sinais precoces de psicose poderia reduzir ou aliviar os sintomas da doença uma vez que ela se desenvolve.

“Temos todas essas pequenas pistas”, observa ele.

Publicado em Scientific American em 15 de junho de 2015.