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Infusão de sangue jovem é testada em pacientes com demência

A abordagem controversa pretende rejuvenescer tecidos velhos

MartinD/Wikimedia Commons
O primeiro teste clínico controlado, porém controverso e pequeno, a transferir sangue jovem a pessoas com demência mostrou que o procedimento parece seguro. O teste também sugeriu que podem ser ocasionadas até algumas melhoras modestas na vida diária de pacientes com Alzheimer.

Os pesquisadores que conduziram o teste e outros alertam que os resultados são baseados em apenas 18 pessoas e, portanto, são apenas um primeiro passo na exploração desse tipo de tratamento. “Este é um teste realmente muito pequeno e os resultados não devem ser interpretados em excesso”, diz Tony Wyss-Coray, neurologista da Universidade Stanford na Califórnia que liderou o estudo. O teste foi conduzido por sua empresa start-up Alkahest, baseada em San Carlos, Califórnia.

O resultados sugerem que o procedimento é seguro e indicam que poderia inclusive impulsionar a capacidade de pessoas com demência de realizarem atividades diárias, como ir às compras ou preparar uma refeição. A equipe apresentou os resultados dia 4 de novembro, na 10ª conferência de Testes Clínicos sobre Doença de Alzheimer em Boston, Massachusetts.

Wyss-Coray e seus colegas testaram pessoas com idades entre 54 e 86 anos, com quadros de Alzheimer variando entre suave e moderado. A equipe deu aos 18 pacientes infusões semanais durante quatro semanas. Eles receberam ou um placebo salino, ou plasma - sangue cujas células vermelhas haviam sido removidas - de doadores de sangue com idades entre 18 e 30 anos. Durante o estudo, a equipe os monitorou para avaliar suas habilidades cognitivas, humor e capacidades gerais para lidar com suas vidas de forma independente.

O estudo não detectou reações adversas sérias. Não foram observados efeitos significativos na cognição, mas duas baterias diferentes de testes avaliando as habilidades do cotidiano mostraram melhora significativa.

O teste humano se originou de experimentos anteriores de “parabiose”, nos quais os sistemas sanguíneos de dois roedores são cirurgicamente ligados para ver o que acontece quando as moléculas circulando em um animal entram no outro.

Wyss-Coray, cujo grupo fez a maioria dos estudos com camundongos que inspiraram o teste clínico, agora planeja conduzir um segundo teste maior, utilizando plasma do qual foram removidas várias proteínas e outras moléculas. Ele disse à revista Nature que os seus experimentos em camundongos sugerem que um tratamento destes poderia ser mais efetivo do que usar o plasma por completo.

Confusão na transfusão

Testes de transfusão sanguínea são controversos porque as moléculas ativas no plasma que parecem levar aos supostos efeitos são desconhecidas.

Irina Conboy, neurologista da Universidade da Califórnia em Berkeley, e seus colegas fizeram extensos experimentos de parabiose juntando camundongos jovens e idosos que foram geneticamente combinados. Ela descobriu que sangue jovem claramente rejuvenesce tecidos do animal, como o coração e o cérebro. Contudo, ela diz que os efeitos provavelmente são coordenados por uma orquestração complexa de fatores no sangue, a qual precisa ser melhor entendida antes de caminhar para testes clínicos.

“As bases científicas para o teste simplesmente não existem”, ela diz. “Os efeitos de sangue jovem na cognição não foram replicados por um grupo independente, e nunca houve um teste com um modelo de camundongo para Alzheimer.” Ela diz que expor frequentemente idosos a plasma de outras pessoas pode não ser seguro, pois a hiperativação dos seus sistemas imunes poderia levar a doenças autoimunes ou inflamatórias.

Porém, Wyss-Coray diz que “os pacientes com Alzheimer não querem esperar até o modelo de ação exato ser descoberto.” Ele diz que essa é a primeira nova abordagem para Alzheimer que não se baseia na teoria dominante de que a doença é causada por moléculas de beta-amiloide ou do tipo tau no cérebro, o que, até agora, não conseguiu resultar em nenhum tratamento.

Transfusões de sangue utilizadas para esse propósito não precisam de aprovação do FDA nos Estados Unidos - e algumas companhia estadunidenses já estão cobrando taxas consideráveis para realizar transfusões de sangue de jovens.

Alison Abbott, Nature

Este artigo é reproduzido com permissão e foi originalmente publicado em 1º de novembro de 2017.
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