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Injeção de água residual induziu terremotos

Estudo associa onda de terremotos em Oklahoma Central à injeção de água residual em poços 

Katsrkool/Flickr
Cientistas declaram que locais de injeção de água residual, onde águas tóxicas produzidas pela perfuração petrolífera e pela fratura hidráulica são injetadas no solo para evitar poluir a água potável, poderiam estar levando ao grande aumento dos terremotos em Oklahoma.

 
Por Kevin Schultz 

Mais de 230 terremotos com uma magnitude maior que 3.0 já sacudiram o estado de Oklahoma este ano. Antes de 2008, a média estadual era de apenas um por ano. O aumento na atividade sísmica deixou residentes e especialistas curiosos sobre sua causa subjacente.

Pesquisas anteriores mostraram que processos como a injeção de águas residuais na perfuração petrolífera e em fendas hidráulicas de todo o estado poderia induzir um pequeno número de terremotos, mas cientistas nunca conseguiram conectar esses eventos a poços distantes. Pelo menos até agora.

Um estudo publicado em 3 de julho na Science explica como locais de injeção de água residual – áreas onde a água tóxica remanescente da perfuração petrolífera e de processos de fratura hidráulica é injetada no solo entre camadas impermeáveis de rochas para evitar poluir a água potável – poderia estar levando a esse grande aumento na quantidade de terremotos, por vezes desastrosos.

“Realmente não existem precedentes para essa quantidade de terremotos em uma região tão ampla”, declara o coautor do estudo, Geoffrey Abers da Cornell University. “A maior parte das grandes sequências de terremotos que vemos envolvem um tremor principal seguido de vários tremores secundários, ou pode ser no centro de um vulcão em sistemas vulcânicos ou geotérmicos. Então é possível ver pequenos focos, mas nada tão distribuído ou persistente quanto isso”.

Abers e seus colegas coletaram dados sobre as taxas e volumes de líquidos associados com locais de injeção de água residual. Em seguida eles modelaram o fluxo da água e calcularam as propriedades físicas das rochas em que a água foi injetada. Ao fazer isso, a equipe determinou que um número relativamente pequeno de locais de injeção em Oklahoma pode, afinal, ter a capacidade de induzir terremotos relativamente fortes a grandes distâncias, por todo o estado. “O importante é que estamos vendo que os terremotos estão mais distribuídos, distantes dos poços e em várias direções diferentes”, observa Abers. “Alguns desses terremotos fica a até 32km de distância do que parecem ser os poços responsáveis pelo aumento de pressão”.

Cientistas sabem desde 1960 que a injeção de água residual, processo em que milhões de barris dessa água são forçados em um poço, podem induzir terremotos aumentando a pressão de fluidos subterrâneos. Esse aumento de pressão reduz a força friccional de falhas geológicas, explica Abers, permitindo que deslizem.

O sismólogo Austin Holland do Serviço Geológico de Oklahoma, que não se envolveu no estudo, declara que poderia haver um grande número de fatores envolvidos nos terremotos. Mas, assim como os autores do estudo, ele também encontrou evidências ligando os terremotos de Oklahoma à atividade de petróleo e gás. “Certamente existe uma contribuição vinda da área de petróleo e gás, mas a questão é quanto, qual a extensão disso e como está ocorrendo”, comenta ele. “Esse estudo certamente ajudará a melhorar nossa compreensão para a discussão científica a respeito do que está ocorrendo em Oklahoma”.

De acordo com Abers, o número de locais de injeção de água residual também parece estar aumentando, e o pesquisador aponta que a taxa permitida de água residual dobrou entre 2004 e 2008, e muito provavelmente aumentou desde então. Ainda de acordo com ele, vários terremotos no Texas nos últimos anos foram ligados à injeção de água residual, mas a escala desses eventos desaparece se comparada ao que está ocorrendo em Oklahoma. Também existem casos bem documentados de terremotos provocados por injeção de água residual em Ohio, Utah, Colorado e na Colúmbia Britânica, todos no ano passado.

Holland adicionou que esses eventos exigem discussões políticas e sociais. “Será que é tão importante produzir petróleo e gás em Oklahoma, e será que estamos dispostos a lidar com os problemas desses poços de despejo para produzir o petróleo e o gás que estamos acostumados a produzir?”, pergunta ele.

Abers aponta que serão necessárias pesquisas sobre o assunto para melhor compreender a complexidade desses processos conforme eles continuam a acontecer. “Eu acho que esse aumento na taxa de terremotos no centro do continente é realmente extraordinário e vai continuar, mas essa não é a última palavra sobre o assunto”, destaca Abers. “Claramente existe algo importante acontecendo por lá que precisamos observar para tentar entender”.