Sciam


Clique e assine Sciam
Notícias

Instituições reavaliam regras para uso de células-tronco embrionárias

Restrições de 2006 permanecem mas avanço recente na clonagem impulsiona atualizações

Cortesia da Universidade Oregon Health & Science
Os Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos (NIH) proíbem a pesquisa com células retiradas de embriões criados unicamente para a pesquisa – uma categoria que inclui as seis linhagens de células-tronco desenvolvidas por Shoukhrat Mitalipov e colaboradores, da Oregon Health and Science University em Beaverton.
Por David Cyranoski e revista Nature

O anúncio feito no mês passado de um avanço há muito esperado na pesquisa de células-tronco – a criação de linhagens de células-tronco embrionárias a partir de um clone  – reavivou o interesse em usar células-tronco embrionárias para tratar doenças. Mas a regulamentação dos Estados Unidos fará com que muitos pesquisadores assistam esses esforços dos bastidores.

Os Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos (NIH), que distribuem a maior parte do financiamento federal para a pesquisa com células-troco, proíbem a pesquisa com células retiradas de embriões criados unicamente para a pesquisa – uma categoria que inclui as seis linhagens de células-tronco desenvolvidas por Shoukhrat Mitalipov, especialista em biologia reprodutiva da Oregon Health and Science University em Beaverton, e colaboradores.

A equipe usou técnicas de clonagem para combinar uma célula de doador com um óvulo não-fertilizado que teve seu núcleo removido, criando uma colônica auto-regenerativa de células-tronco geneticamente idêntica ao doador da célula.

As linhagens celulares de Mitalipov também ficam fora dos limites para pesquisadores financiados pelo Instituto de Medicina Regenerativa (CIRM), que foi criado, em parte, para apoiar trabalhos com células-tronco que são restritos pelo NIH.

Os recursos do CIRM não podem ser usados para estudos que pagam mulheres por seus óvulos ou usam linhagens celulares produzidas usando óvulos de doadores pagos.

Isso elimina as linhagens de Mitalipov, porque sua equipe pagou de US$3000 a US$7000 a cada uma das doadoras de óvulos, declara Geoffrey Lomax, oficial sênior do grupo de trabalho de padronização do CIRM, que tem sede em San Francisco. Essa quantia “está acima e além de quaisquer custos saídos do próprio bolso” para doadores, aponta ele.

O resultado final, de acordo com Mitalipov, é que aproximadamente uma dúzia de universidades está lutando para negociar ‘acordos de transferência de material’ para receber as novas linhagens celulares sem entrar em conflito com o CIRM ou o NIH.

O interesse nas novas linhagens celulares é grande, especialmente desde a identificação de erros em imagens e números no artigo de pesquisa de Mitalipov logo após sua publicação na Cell.

Mas regulamentações exigiriam que laboratórios usassem apenas equipamentos dedicados, com financiamento privado, para estudar as novas células, uma condição que apenas alguns poucos pesquisadores – como George Daley, especialista em células-tronco do Boston Children’s Hospital, em Massachusetts – serão capazes de atender.

Isso preocupa Daley, que chama a política de células-tronco do NIH de “limitação frustrante que impedirá que dólares federais sejam usados para fazer muitas perguntas importantes” sobre como as linhagens celulares de Mitalipov se comparam com células-tronco pluripotentes (iPS), que são criadas com a reprogramação de células adultas para um estado embrionário.

“A maioria dos laboratórios tomará o caminho de menor resistência e continuará a trabalhar com células iPS a menos que alguém mostre que existe uma razão clara e atraente para mudar de curso”, prevê Daley.

Mitalipov também se preocupa que suas células-tronco não serão suficientemente analisadas, o que ele acredita ser capaz de dificultar esforços para compreender como mudanças epigenéticas – modificações em cromossomos que determinam como genes são expressados – afetam a capacidade das células-tronco de se transformar em um vasto arranjo de tipos de células maduras. “Nós simplesmente não temos tanta experiência em observar todos os aspectos da epigenética”, admite ele.

Mas alguns cientistas declaram que o impacto das restrições norte-americanas a células-tronco é superestimado.

Alexander Meissner, biólogo do desenvolvimento do Instituto de Células-Tronco de Harvard em Cambridge, Massachusetts, observa que as linhagens celulares de Mitalipov não revelarão muito sobre como células-tronco se transformam. Esse trabalho só pode ser feito com óvulos que são fáceis de obter, permitindo que cientistas examinem o processo de reprogramação em muitos pontos.

Em termos práticos, isso significa usar óvulos de ratos em vez de humanos. “Tudo já terá acabado quando você derivar essas linhagens celulares”, comenta ele a respeito das células de Mitalipov. “Não existe assinatura que lhe diga o que aconteceu. Essa é a espécie errada”.   

Nesse ínterim, o CIRM – que tem um orçamento anual de US$3 bilhões – está reexaminando as regras que governam as pesquisas que apoia.

Não é provável que o instituto altere as restrições contra estudos de financiamento que pagam a doadores de células, mas isso pode derrubar as regras contra usar linhagens celulares produzidas nesses estudos, explica Lomax.

A política original foi estabelecida em 2006 para abordar preocupações que surgiram logo após as fraudes e violações éticas de Woo Suk Hwang, então pesquisador da Universidade Nacional de Seul, na Coreia do Sul.

Mas não se sabe quando o CIRM completará sua revisão. Lomax não dá nenhum prazo.

Este artigo foi reproduzido com permissão da revista Nature. O artigo foi publicado pela primeira vez em 4 de junho de 2013.

sciam6jun2013