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Instituto Serrapilheira surge com foco em pesquisas inovadoras e atenção a questões raciais e de gênero

Nova instituição de financiamento à pesquisa é a primeira do Brasil a usar recursos exclusivamente privados

Claudio Andrade
O Brasil ganhou na quarta-feira passada sua primeira instituição privada de financiamento à pesquisa. É o Instituto Serrapilheira, que já nasce com R$ 350 milhões em caixa. A nova instituição surge por iniciativa do documentarista João Moreira Salles, herdeiro do banco Unibanco, e de sua esposa, Branca Moreira Salles. O presidente será o geneticista francês Hugo Aguilaniu. Logo após o anúncio da criação do instituto, Aguilaniu e Branca deram a seguinte entrevista a Scientific American Brasil.

De onde vem o dinheiro do Serrapilheira?

Branca - Vem de uma doação, feita por mim e pelo João em 2015, para um fundo patrimonial que é irrevogável - uma vez doado, o dinheiro não pode ser pego de volta.

Hugo - Foram dados RS$350 milhões. Em um primeiro momento, utilizaremos apenas esse dinheiro, que foi aplicado, e seu rendimento [cerca de RS$18 milhões, anualmente]. O João e a Branca queriam uma estrutura de financiamento perene, e esta forma permite isso. Se o instituto der certo, daqui quatro ou cinco anos o fundo patrimonial de doação deles aumentará. Além disso, o Serrapilheira está totalmente aberto a investimentos externos.

Como surgiu a ideia de criar o Instituto?

Branca - Há uns dois anos, o João estava dando aula sobre documentário para uma turma da PUC-Rio. Enquanto 30 dos seus alunos saíram do universidade com bacharelado em Cinema, o curso de Matemática só formou dois bacharéis. No imaginário do jovem, a ciência não é algo legal - é mais “cool” e descolado ser cineasta.

Hugo - Foi daí que veio a vontade de criar um instituto para ajudar a ciência, para contribuir com ela. A ciência no Brasil ainda precisa de bastante força. O interesse pessoal pesa, mas o principal é sua visão do que é que o país precisa. Queremos mostrar a importância do pensamento científico, da divulgação científica. Aproximar o pesquisador da população, mostrar o que ele está fazendo e por que isso é relevante.

Mas já existem tantas agências de financiamento de pesquisa científica aqui no Brasil: as estaduais, a CAPES, a FINEP, o CNPQ. Por que mais uma?

Hugo - Nosso papel vai ser bastante diferente, principalmente por elas serem públicas. As bolsas que elas disponibilizam vêm com muitas regras para os pesquisadores, o que é bem complicado. Por exemplo: você consegue uma bolsa do CNPQ, mas não pode trabalhar e receber salário; você é financiado pela FAPESP, mas não pode usar o dinheiro para bancar sua ida a um seminário.

Por sermos um Instituto privado, os recursos que forneceremos serão totalmente livres, então o pesquisador poderá usar a bolsa do Serrapilheira da maneira que achar melhor. Ele terá uma flexibilidade muito maior, o que, na ciência, pode fazer uma grande diferença. Além disso, como o dinheiro o qual dispomos é menor em comparação ao das agências públicas, apoiaremos um número mais reduzido de pesquisas. Porém, nosso intuito é financiar projetos inovadores e até mesmo arriscados - que uma agência como a CAPES não apoiaria, por conta desse risco.

Os órgãos públicos pretendem manter um certo ritmo de produção científica, enquanto nós pretendemos achar e apoiar cientistas mais ousados e de excelência. Nós queremos identificar os melhores cientistas do Brasil e dar recursos para que eles desenvolvam suas pesquisas. Vemos o fomento privado como algo complementar. De maneira nenhuma vamos substituir o apoio público; pelo contrário, achamos que o incentivo público deve aumentar!

Como serão escolhidas as pesquisas que receberão as bolsas?

Hugo - São duas maneiras. Abriremos chamadas para os campos que queremos apoiar: matemática, química, física, ciências da vida, ciências da terra, engenharia - as ciências chamadas de “duras”. Receberemos projetos de todo Brasil, que serão avaliados por um conselho científico. Além disso, teremos uma pessoa na equipe executiva responsável por procurar em todo país projetos científicos bons. Então, também poderemos apoiar pesquisas e pesquisadores que não necessariamente procuraram por nós. Acho importante essa capacidade de procurar projetos diferentes.

Nós temos a ambição de apoiar a ciência de excelência, de competição internacional, com cientistas criativos, que sabem se posicionar. Esse é o tipo de pesquisador que procuramos e não achamos que ele será encontrado apenas em instituições conhecidas ou no eixo Rio-São Paulo. Acabei de visitar um laboratório de física teórica em Natal, no Rio Grande do Norte, que faz ciência de ponta, por exemplo.

Também estamos preocupados em prestar atenção em outras questões, como gênero. Existem muitos campos na ciência onde há muito mais homens que mulheres, por exemplo, e não acreditamos que isso seja justificável. O mesmo se aplica a questões raciais. Nosso principal objetivo é encontrar pessoas com ideias novas, arriscadas e ousadas, mas queremos nos atentar a essas outras questões e também levá-las em conta.

Preferencialmente, apoiaremos os pesquisadores jovens, que acabaram de concluir seu pós-doutorado e estão pensando em criar laboratórios, fazer novas pesquisas, trabalhar com a chamada “ciência de amanhã”. Isso não significa que deixaremos de lado cientistas mais antigos e com carreiras mais estabelecidas, já que nosso principal critério é a ousadia e a busca por fazer ciência de ponta.

Além de vocês e do João, quem mais vai comandar Serrapilheira?

Branca - Eu e o João entramos com o investimento, mas é o Hugo que está responsável pela diretoria e pela presidência do Instituto. Em 2016, criamos um comitê de busca para o cargo, que recebeu centenas de currículos de cientistas de todo o mundo. Ao final, selecionaram nove para entrevistas presenciais aqui. O comitê nos indicou duas pessoas: o Hugo e o professor Edgar Zanotto, da UFScar, que ficou responsável pela presidência do conselho científico.

Hugo - Temos a equipe executiva, que ficará responsável pela divulgação científica e pela procura de pesquisas de excelência; o conselho científico, que fará avaliação e escolha dos projetos, além de me aconselhar na política científica do instituto; e o conselho administrativo, que vai validar ou não as minhas orientações.

Como surgiu o nome do Instituto?

Hugo - Serrapilheira é a camada de folha que você vê no chão quando entra em uma floresta, na mata. É a camada onde estão os nutrientes que voltam para o solo, então a serrapilheira dá fertilidade ao chão da floresta para as árvores crescerem. Foi uma ideia do João. A palavra, apesar de desconhecida, tem uma sonoridade bonita, além de ser uma metáfora do que pretendemos com o Instituto: fertilizar o chão para a ciência no Brasil.

 

Marília Fuller
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