Sciam
Clique e assine Sciam
Notícias

Interruptor elétrico no cérebro pode desligar desejo por comida

Será possível diminuir a vontade de comer um segundo (ou terceiro) prato com um implante intracraniano?

Shutterstock
O sistema de recompensa do cérebro aprende as ações que produzem resultados positivos, tais como obter alimento ou sexo. Ele, então, reforça o desejo de adotar esses comportamentos ao gerar antecipadamente uma sensação de prazer associada ao comportamento. Porém, em algumas circunstâncias, o sistema pode se tornar por demais sensibilizado a comportamentos que são prazerosos porém danosos, produzindo impulsos patológicos como o vício em drogas, a alimentação compulsiva e a compulsão por apostas.

Mas e se pudéssemos detectar os desejos impulsivos no cérebro e interferir para prevenir o ato em si? Esta é a promessa de um novo estudo publicado em 18 de dezembro na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences, liderado pelo neurocirurgião Casey Halpern, da Universidade Stanford. Sua equipe identificou um padrão do tipo “assinatura” característico dos desejos impulsivos em parte do circuito de aprendizado de recompensa do cérebro, o núcleo accumbens. Direcionar pulsos elétricos para essa região, ao detectar este padrão, reduziu o comportamento de alimentação compulsiva em camundongos. Também foi observada a mesma assinatura em um cérebro humano, sugerindo que a técnica tem potencial para tratar um gama de problemas envolvendo comportamentos compulsivos. “Identificamos um biomarcador cerebral de perda de controle”, diz Halpern. “Se pudermos usá-lo para prevenir qualquer uma dessas ações potencialmente perigosas, poderemos ajudar muitas pessoas.”

Os pesquisadores usaram uma variação de estimulação cerebral profunda (DBS, na sigla em inglês) nos experimentos, um tratamento bem estabelecido para diminuir os tremores da doença de Parkinson, mas que também tem se mostrado promissor em outras condições, incluindo depressão e transtorno obsessivo-compulsivo. O mecanismo pelo qual a DBS ocasiona estes benefícios ainda é objeto de debate, mas pode haver efeitos colaterais. Ao serem tratados de transtornos de movimento, os pacientes podem experimentar formigamento e contrações musculares, diz o neurocirurgião Tipu Aziz, da Universidade de Oxford. As consequências a longo prazo em outras regiões são desconhecidas, mas poderiam incluir convulsões ou efeitos sobre a cognição, ele diz.

Normalmente, a DBS estimula uma dada área do cérebro com uma corrente ininterrupta. Contudo, pesquisadores estão investigando maneiras para fornecer os pulsos elétricos somente quando necessário, monitorando a atividade cerebral relacionada a uma condição ou um sintoma particulares. Esta técnica, conhecida como "neuroestimulação responsiva" (RNS, na sigla em inglês), mostrou-se eficaz para a epilepsia, e um sistema já desenvolvido foi aprovado pelo FDA (o órgão do governo americano que regula medicamentos e alimentos) para o tratamento de convulsões parciais (as quais afetam apenas uma parte do cérebro). Há também algumas evidências de que a RNS pode ser melhor do que a estimulação contínua para tratar o Parkinson, diz Aziz.

O grupo de Halpern já havia demonstrado que a DBS padrão reduz a compulsão alimentar em camundongos em até 50%. Para fornecer a estimulação necessária, buscaram uma "assinatura" cerebral para desejos impulsivos a qual pudesse ser usada para desencadear a estimulação. Eles deram alimentos ricos em gordura para seis camundongos uma hora por dia durante 10 dias (depois disso, todos os animais se tornaram compulsivos). Eles registraram a atividade dos núcleos accumbens dos animais antes e depois desse período de "aprendizagem" e quando comiam suas dietas normais. Observaram um aumento na atividade de ondas cerebrais de baixa frequência ("banda delta") no núcleo accumbens, que atingiu o ponto máximo um segundo antes de um camundongo descambar para uma sessão de alimentação compulsiva. Esta atividade não apareceu no início da experiência ou quando os animais estavam comendo alimento normal, sem alto teor gordura. Também demonstraram que essa assinatura era específica para a compulsão alimentar ao mostrar que não era vista imediatamente antes de uma interação envolvendo um roedor jovem, algo que os camundongos também acham prazeroso. "Não queremos bloquear recompensas naturais", diz Halpern. "Nós não vamos atrás de qualquer pessoa com um impulso - eu mesmo gosto de um copo de vinho."

Tendo identificado uma assinatura de "momento de fraqueza", a equipe testou se usá-la para desencadear uma estimulação elétrica para interromper o impulso reduziria a compulsão alimentar. Eles compararam a estimulação desencadeada automaticamente com a contínua, a aleatória e a manual, em que um pesquisador ativava o eletrodo ao ver o camundongo se encaminhar para começar a comer. Todos, exceto a estimulação aleatória, reduziram a quantidade de alimento consumido. Porém, eles também mostraram que apenas a estimulação contínua diminuiu a quantidade de tempo que os animais passaram interagindo com os camundongos jovens, o que foi considerado um efeito colateral indesejável.

Em seguida, a equipe se voltou para o cérebro humano, para ver se a assinatura que descobriram em camundongos também se aplicava às pessoas. Eles conseguiram realizar sua busca em um paciente com transtorno obsessivo-compulsivo, que não respondeu a outros tratamentos e optou por se submeter a cirurgia para a DBS. Eles monitoraram um eletrodo implantado no núcleo accumbens do homem enquanto ele realizava uma tarefa na qual precisava pressionar um botão quando um alvo visual piscava na tela para receber uma recompensa em dinheiro. Assim que ele estava acostumado com a tarefa - e com a recompensa de receber dinheiro - foi observado um aumento na atividade delta semelhante ao visto em camundongos, ondas cerebrais que se intensificavam imediatamente antes que ele começasse uma tarefa.

O fato de uma atividade cerebral similar ter sido observada em ambas as espécies para comportamentos voltados a diferentes recompensas sugere que essa assinatura pode ser comum a muitos comportamentos compulsivos. É claro que ninguém que tenha apenas o hábito de fazer apostas em jogos passaria por uma neurocirurgia, e nem mesmo os médicos considerariam esta hipótese. "Estamos indo atrás de pessoas que estão morrendo devido a sua condição, ou que estão severamente debilitadas", diz Halpern. "Pessoas prestes a realizar uma cirurgia gástrica, ou que falham ao não conseguirem parar sua compulsão alimentar ou por bebidas alcoólicas."

Um possível problema é que se a assinatura de um dado desejo for muito específica, ela pode não ser relevante para múltiplos transtornos, ou até mesmo não ser aplicável fora do laboratório, para um eventual uso clínico de rotina. "Não está inteiramente claro se esse sinal está relacionado ao [experimento] ou ao comportamento", diz o psiquiatra Damiaan Denys da Universidade de Amsterdã, que não esteve envolvido no estudo. Se for muito geral, seria possível imaginar uma situação na qual alguém que está se tratando para alimentação compulsiva não pode mais curtir jogar cartas. "Mas isso é importante, porque mostra a possibilidade de detectar um sinal que pode ser usado para transtornos psiquiátricos", diz Denys.

Esta é uma pesquisa preliminar, envolvendo apenas um humano, sem mostrar os efeitos de um tratamento em humanos. "Foi um estudo de caso feito pela primeira vez com uma pessoa, para validar nossos estudos em roedores - agora temos que fazê-lo em uma amostra maior", diz Halpern. “Fizemos uma solicitação ao NIH [sigla em inglês para Institutos Nacionais de Saúde dos EUA] para realizar o teste em pacientes obesos que apresentam comportamento semelhante à compulsão."

Simon Makin
Para assinar a revista Scientific American Brasil e ter acesso a mais conteúdo, visite: http://bit.ly/1N7apWq