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Já atingimos os limites atléticos do corpo humano?

Quebras de recorde têm diminuído, mas a ciência pode achar novos caminhos para continuar nos tornando mais rápidos e mais fortes

 

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Nos Jogos Olímpicos desse ano, no Rio, o homem mais rápido do mundo, Usain Bolt — um jamaicano de mais de 1,90m e detentor de seis medalhas de ouro e de passos vigorosos como os de uma gazela — tentará quebrar seu próprio recorde mundial de 9,58 segundos na corrida dos 100 metros.

Se conseguir, alguns cientistas acreditam que ele talvez encerre os recordes da categoria para sempre.

Enquanto inúmeras técnicas de treino e tecnologias continuam a quebrar as barreiras dos atletas, e ainda que força, velocidade e outros traços físicos tenham melhorado continuamente desde que os humanos começaram a catalogar essas coisas, o ritmo lento no qual recordes esportivos estão sendo quebrados atualmente faz pesquisadores especularem se já estamos nos aproximando nosso limite fisiológico coletivo — isto é, que nosso alcance atlético está dando de frente com uma parede de tijolos biológica.

O senso comum diz que claramente existem limites para os feitos atléticos: salvo por alguma emenda drástica nas leias da física, nenhum humano jamais correrá na velocidade do som. E, fisiologicamente falando, existe uma quantidade máxima de cálcio que pode entrar em um músculo e fazer com que ele se contraia; e nossos células vermelhas só podem carregar até certa quantidade de oxigênio.

Nesse sentido, o biólogo da Universidade de Standford e entusiasta das corridas Mark Denny publicou um estudo que tentava determinar se existem limites absolutos para a velocidade que animais podem atingir quando correm. Para fazer isso, analisou os recordes de três modalidades de corrida com longos históricos de documentação: corridas de campo e pista, e corridas de cavalo, nos EUA, e corrida de cachorros na Inglaterra.

Ao traçar os tempos de corrida vencedores na virada do século 20 e controlando para o crescimento populacional, Denny conseguiu concluir que existe, de fato, um tempo limite previsível que uma espécie em particular levaria para atravessar uma certa distância. Na verdade, os dados de Denny mostram que corridas de cavalo e cachorro, e também alguns eventos humanos de pista e campo talvez tenham chegado lá. “Nós estamos definitivamente começando a estagnar,” diz Denny. “Apenas olhe para os dados de corrida de cavalos, que acredito estarem em paralelo com o que está acontecendo com os humanos. Os tempos vencedores não melhoram desde os anos 70 — e isso apesar dos milhões de dólares que são investidos na criação de cavalos mais velozes.”

Como Denny explica, cavalos ainda podem ser criados para melhorar certos atributos, mas fazer isso traz efeitos colaterais e fisiológicos danosos. “Você pode criar um cavalo para ir mais rápido do que nunca ou ter músculos mais fortes, mas aí suas pernas quebrariam. Realmente parece que esgotamos o conjunto de genes dos Puro Sangue Inglês (PSI).” E nós podemos ser os próximos.

Geneticamente falando, cavalos de corrida são um lote especialmente  homogêneo, já que todos os PSI descendem de apenas três cavalos machos adultos trazidos para a Inglaterra nos séculos 17 e 18 (e um número um pouco maior de “éguas de fundação”). Mas Denny aponta que em algumas competições de corrida de pista femininas as velocidades também diminuíram, com muitos recordes não sendo superados desde os anos 80 (quando, como ele coloca, suspeitava-se que muitas competidoras estavam “dopadas até as brânquias”.) Denny cita o tempo recorde mundial da maratonista Paula Radcliffe, em 2003, de 2:15:25 (alegadamente não assistido por drogas de aumento de performance, apesar da investigação) como sendo próximo ao que ele prevê como a velocidade máxima para a maratona feminina. Maratonistas masculinos talvez ainda tenham algum espaço para manobrar. O modelo de Denny prevê que o atual recorde de 2:02:57 pode ser melhorado em três e poucos minutos, alinhando-se com a busca muito divulgada de uma maratona masculina de duas horas.

Bolt espera bater a previsão do pesquisador para maior velocidade na corrida de 100 metros: 9.48 segundos. Infelizmente, de acordo com Denny, o agora notavelmente mais velho corredor talvez tenha perdido sua chance. Bolt estava na frente do restante por um abismo em uma corrida das semi finais de Pequim, em 2008, quando ele diminuiu a velocidade antes de cruzar a linha de chegada. “Eu acho que, se ele tivesse continuado com velocidade total, ele teria atingido o recorde mundial de todos os tempos, imbatível,” especula Denny.

Bolt talvez possa se confortar em saber que, para o professor de fisiologia da Southern Methodist University, Peter Weyand, um dos especialistas principais em biologia de performance, nós humanos ainda não alcançamos nosso teto atlético. Weyand explica que, quando consideramos resistência, pro exemplo, existem dois caminhos para o avanço: aumentar a quantidade de sangue sendo bombeado para fora do coração ou aumentar a concentração de oxigênio no sangue em si, como é o caso do doping sanguíneo. “Eu não acho que atingimos nossos limites ainda,” ele acredita, “As pessoas encontrarão caminhos para aumentar a entrega de oxigênio através do corpo e obter uma melhor performance dos humanos. A única questão é se essas abordagens serão consideradas legais.”

A resposta para um desempenho atlético aperfeiçoado talvez esteja na mitocôndria, a chamada “casa de força”  da células, que gera energia usando oxigênio via ciclo de Krebs. Em uma pessoa com condição física aeróbica dentro da média, a mitocôndria corresponde a 2% do volume de cada célula; em atletas bem treinados, o volume é de 4%. Nos frenéticos beija-flores o número fica em torno de 40%, gerando esperança de que talvez as células humanas poderiam acomodar mais mitocôndria, impulsionando, assim, a habilidade atlética. “Claro que existe um limite. Em algum ponto você apenas não poderá colocar mais mitocôndrias dentro da célula, mas acho que ainda existe espaço sobrando nos humanos,” diz Weyand. “O esporte se tornou um esforço tão global, lucrativo e profissional que, enquanto houver dinheiro e fama para serem ganhos, nós continuaremos a ver progresso — tanto em termos de ciência esportiva quanto em termos de equipamento — que fazem recordes serem quebrados, mesmo que menos frequentemente, talvez.”

Weyand reconhece que qualquer ajuste biológico futuro pode trazer consigo as mesmas preocupações éticas e fisiológicas que envolvem drogas de aumento de performance. “Será cada vez mais difícil determinar o que deveria ser legal e o que não deveria,” ele prevê. “Agora nós dizemos ‘tudo bem, treinar é uma coisa boa, assim como dieta’, mas e os suplementos?”  

Além de tudo isso, os grupos responsáveis por fiscalizar casos de doping provavelmente nunca conseguirão acompanhar as técnicas químicas e biológicas de aperfeiçoamento que poderiam empurrar — ou impulsionar, talvez —  melhores recordes, diz Weyand. “As autoridades antidoping primeiro devem descobrir quais novas substâncias estão sendo usadas; daí, precisam desenvolver um exame para detectá-las. A identificação e lista do que é proibido sempre ficará para trás do que as pessoas estão tentando,” ele diz.

O doping sanguíneo talvez não vá embora, mas o futuro da quebra de recordes, para melhor ou pior, provavelmente está no genoma humano. Tecnologias de edição genética, como o CRISPR–Cas9 permitem que genes específicos sejam ligados, desligados ou inseridos — garantindo modificações que poderiam conferir inúmeras vantagens atléticas e que, adverte Weyand, seriam impossíveis de detectar. “Eu acho que nós veremos sim pessoas tentando coisas como o CRISPR para introduzir certos genes de interesse atlético,” afirma David Epstein, autor do livro A Genética do Esporte - Como A Biologia Determina A Alta Performance Esportiva. “Eu acho que a razão principal de as pessoas ainda não estarem fazendo isso é que tantas formas de doping tradicionais são efetivas e estão disponíveis. Eles ainda não precisaram mudar a estratégia.”

Epstein, cujo livro explora os limites da performance humana, aponta que preocupações as atuais quanto ao CRISPR são frequentemente descartadas, graças às complexidades de nosso código genético e ao fato de não sabermos, no momento, o que a maior parte dos nossos genes realmente faz. Ainda assim, como ele coloca em seu livro, existem exemplos de variantes de gene específicos que resultam em performances atléticas melhoradas.

Um caso do gênero envolveu a lenda finlandesa do esqui e sete vezes medalhista olímpico Eero Antero Mäntyranta, que obteve muito sucesso durante os anos 60 e foi um grande suspeito de doping. Anos depois, um estudo genético realizado em  Mäntyranta e sua família revelou que ele carregava um gene que aumentava muito sua massa de glóbulos vermelhos e níveis de hemoglobina, a molécula que carrega o oxigênio no sangue. Epstein também cita o chamado “super bebê”, um garoto alarmantemente musculoso nascido em Berlim em 1999. O agora adolescente possui uma mutação que bloqueia a produção de miostatina, uma proteína que limita a crescimento muscular excessivo.

Indivíduos sortudos à parte, o que será do interesse do público nessas competições se estamos atingindo uma estagnação na performance, uma na qual recordes — talvez assistidos por adulteração genética eticamente questionável — continuarão a ser quebrados, mas em um ritmo menor? As pessoas assistirão quando não houver mais recordes a serem quebrados?

Denny não está preocupado. “Quando eu publiquei meu estudo, o feedback que recebi era de que isso iria destruir as Olimpíadas,” ele lembra. “Isso é a mesma coisa que dizer que o time brasileiro de futebol em 1962 era o melhor possível, então ninguém mais assistiria a uma Copa do Mundo de novo. Mas se o Bolt pode correr 100 metros em 9.47 segundos e bater a minha previsão, tiro o chapéu pra ele. Eu acho que sempre haverá o atrativo de ‘talvez alguém faça melhor.’”

Tanto Denny quanto Epstein sentem que isso é especialmente verdadeiro para esportes mais complexos, nos quais um número de variáveis pode contribuir para o sucesso, e no qual um “melhor” objetivo é difícil de definir. Muitos fatores precisam se encaixar para que um time ganhe um campeonato de basquete ou o Super Bowl. E as ligas esportivas estão sempre mudando as regras para capturar o público, criando novas marcas de referência para habilidades atléticas. “O basquete não tinha uma linha de três pontos até 1979,” diz Denny, uma ausência que nos faz imaginar que, em outra era, o atual fenômeno da liga, Stephen Curry — cujo recorde de 402 cestas de três pontos em uma única temporada foi tão maior do que o recorde anterior de 286, também estabelecido por ele — talvez não estivesse aproveitando a consagração que ele, graças à mudança de regras, está.

“A NBA e todas as ligas sabem o que estão fazendo,” brinca Denny. “As pessoas continuarão a discutir esportes enquanto tomam cerveja por muitas décadas ainda.”

 

Bret Stetka

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