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Japão e parceiros enfrentam doenças negligenciadas

Parceria público-privada procura iniciar desenvolvimento de novos medicamentos para ajudar os pobres

Sebastian Kaulitzki/Shutterstock
 

 
Por Dina Fine Maron

Doenças infecciosas que deixam sequelas em vítimas, como déficits cognitivos ou desnutrição, em geral não mobilizam festas beneficentes ou dólares para pesquisa, especialmente quando as doenças em questão atingem os mais pobres dentre os pobres de maneira desproporcional. Mas uma nova coalizão de financiadores está tentando jogar um bote salva-vidas para essas doenças negligenciadas.

Apesar de a Fundação Bill & Melinda Gates e os governos do Reino Unido e dos Estados Unidos terem agido para ajudar a resolver esses problemas, a pesquisa nessa área está muito atrasada se comparada às pesquisas com doenças mais letais e comuns.

Este ano, uma nova parceria público-privada entrou na luta. Em abril, o governo do Japão se uniu ao Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas, à Fundação Bill & Melinda Gates e a várias empresas farmacêuticas japonesas para anunciar que estava formando um novo fundo para atacar doenças negligenciadas e doenças que atingem os pobres. O governo logo investiu cerca de US$1 milhão para apoiar a pesquisa e desenvolvimento inicial de novos medicamentos.

Desde então, o fundo vem silenciosamente aceitando propostas para esses trabalhos, e em 8 de novembro destinou grande quantidade de recursos pela primeria vez , com mais de metade do financiamento sendo direcionado para fortalecer a pesquisa de medicamentos contra a malária.

BT Slingsby, diretor executivo e CEO do Fundo Global Health Innovative Technology (GHIT) falou com Scientific American a respeito da necessidade de abordar doenças negligenciadas, a resistência a antibióticos e o que o Japão tem a oferecer.

[Segue uma transcrição editada da entrevista]

Em abril o Fundo GHIT declarou ter recebido cerca de US$100 milhões em cinco anos. Quanto disso se deve ao governo japonês?

Na verdade são mais de US$100 milhões, com a taxa de conversão – aproximadamente US$120 milhões. Cerca de US$60 milhões vêm do governo japonês a partir de dois ministérios: o Ministério Japonês de Relações Internacionais e o Ministério Japonês de Saúde, Trabalho e Bem-Estar.

Quando o senhor lançou o GHIT, o foco era sobre doenças que aumentam a pobreza em nações em desenvolvimento – HIV, malária, tuberculose e doenças tropicais negligenciadas como a hanseníase e a doença de Chagas. Por que isso é tão importante?

Essas são as doenças que menos recebem atenção médica, doenças que requerem inovações tecnológicas. Há 30 anos não se vê o desenvolvimento de um novo medicamento para a doença de Chagas, então foi a importância da necessidade médica que concentrou nosso foco nessas doenças.  

O senhor falou sobre como, há mais de duas décadas, a Organização Mundial da Saúde destacou a séria falta de inovações biomédicas e o acesso a dispositivos médicos, particularmente para países em desenvolvimento. Por que não se fez mais quanto a isso?

É a falta de um mecanismo de mercado. A maioria dos novos medicamentos e vacinas é desenvolvida dentro do setor privado, e são desenvolvidos como bens comerciais de modo que existe a falta de um mecanismo público para avançar a P&D de novas tecnologias. Essa é a razão de instituições como a Fundação Gates e outras organizações serem criadas. Esse tipo de organização sem fins lucrativos, bem como nossa organização, são parcerias público-privadas. Elas usam os recursos e inovações do setor privado e usam o setor público para financiamento.

 Que tipo de contribuições únicas o Japão pode fazer nessa área?

Em termos de capacidade de P&D, temos um país com uma indústria farmacêutica que está em segundo lugar no fornecimento de compostos químicos em todo o mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, em termos de novos medicamentos reais que foram desenvolvidos.

A pergunta é como trazer mais da inovação japonesa para o objetivo da saúde global, e é para isso que estamos aqui.

O Fundo Global contra a AIDS, Tuberculose e Malária, uma parceria público-privada apoiada por Estados Unidos, França, Japão, a Fundação Gates e outros, tem tido alguns problemas recentes de financiamento e alegações de corrupção, e ela recentemente passou por uma grande reestruturação. Como o senhor vê o papel desse fundo em comparação ao seu próprio, considerando a sobreposição de suas missões?

Os focos em doenças se sobrepõem, e nossa visão é a mesma: eliminar essas doenças e tentar aperfeiçoar o controle. O foco de cada um dos fundos é bem diferente. Nós estamos única e principalmente concentrados em P&D de saúde global para tentar avançar a P&D de medicamentos, vacinas e inovações para essas doenças. Por outro lado, o Fundo Global foi estruturado para melhorar o acesso a esses medicamentos uma vez que eles tenham sido desenvolvidos. Assim, logo que o medicamento desenvolvido  chegue no mercado, o  Fundo Global procura melhorar o acesso a esse medicamento para os mais pobres dentre os pobres ao usar aquisições avançadas ou usando compromissos para tentar garantir a disponibilidade de um medicamento em grande escala.

Que tipos de conquistas o senhor está procurando, uma vez que a pesquisa farmacêutica tem altos e baixos?

Nós nos concentramos mais no desenvolvimento do que nas descobertas. Nós estamos mais interessados nos projetos de fase final. Se pegarmos um produto que ainda tem que entrar em testes clínicos com humanos e pudermos observá-lo, talvez durante um período de dois anos, a primeira conquista seria a aprovação regulamentar para levá-lo aos primeiros testes clínicos com seres humanos.

Nosso objetivo é conseguir um produto novo,  uma inovação para os pacientes e populações que precisam delas o mais rápido possível. Então, dada a quantidade de doenças que estamos enfrentando, nossa prioridade não se concentrará em doenças específicas, mas em conseguir rapidamente novas inovações para as pessoas que precisam delas, independentemente da doença.

Supondo que curas ou tratamentos estejam a caminho, o próximo obstáculo seria torná-los acessíveis à população. Como seu fundo aborda isso?

Quando financiamos uma proposta, analisamos o possível custo dessa tecnologia quando estiver desenvolvida. Para uma vacina, isso é o que pode ser conseguido a menos de um dólar por frasco. Então esse custo é avaliado precocemente  no processo de P&D para garantir a portabilidade e disponibilidade.

Hoje (08/11) o senhor está anunciando concessões totalizando US$5,7 milhões para seis parcerias globais trabalhando com medicamentos e vacinas inovadoras contra malária, tuberculose e a doença de Chagas, com quase metade do dinheiro sendo revertido para a pesquisa da malária. Que tipos de descobertas o senhor pretende apoiar com essa infusão monetária?

Parte disso irá para o desenvolvimento de dois novos medicamentos contra a malária. E esses medicamentos terão um mecanismo que nos permitirá controlar e aaté eliminar a malária se forem desenvolvidos.

Quanto do dinheiro já foi distribuído pelo fundo?

Dois meses após nossa inauguração, nós anunciamos 13 parcerias para a descoberta de medicamentos. Isso totalizava aproximadamente US$1 milhão. Como parte da descoberta de medicamentos, um dos estágios iniciais é analisar uma enorme biblioteca de compostos químicos com um ensaio para malária ou tuberculose e ver se aquele composto químico mata o parasita ou bactéria.

Outro problema com o financiamento farmacêutico é a falta de desenvolvimento de novas classes de medicamentos em resposta ao crescimento da resistência a antibióticos. O seu fundo tem algum interesse em preencher essa lacuna?

Não, não necessariamente. Esse é um problema enorme, e nós estamos muito conscientes dele e de que ele é um problema global, mas estamos concentrados em uma infinidade de doenças.

De qualquer forma, você está vendo o mesmo fenômeno do tratamento da malária e da tuberculose, onde a resistência a tratamentos recentes é um grande risco para a eliminação e controle. Então, na prática, nós estamos enfrentando os mesmo problemas, mas o foco de nossas doenças é um pouco mais específico.

O senhor procura criar classes completamente novas de medicamentos?

No caso da malária e da tuberculose, estamos próximos de novas classes de medicamentos.