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Jogos eletrônicos violentos corrompem crianças?

Suprema corte americana diz que os estados não podem decidir

Larry Greenemeier
Imagem cedida por Artur Gabrysiak, via iStockphoto.com
O “não” da decisão da Suprema Corte norte americana por 7 votos contra 2, que diz que a Califórnia não pode regulamentar a venda ou aluguel de jogos violentos a menores de idade é o mais novo capítulo no antigo debate sobre o impacto da agressividade do mundo virtual sobre o comportamento das crianças no mundo real. A sentença proferida pelo tribunal é baseada na lei e na política, ela observa que os estados não têm o direito de restringir os direitos da Primeira Emenda das crianças. Ainda assim, até o momento, a ciência sugere que os videogames violentos afetam negativamente o comportamento das crianças.

A lei da Califórnia de 2005 foi redigida pelo senador Leland Yee (São Francisco), psicólogo infantil. Em uma declaração em seu website, Yee expressa a decepção pela decisão, acusando a maioria da Suprema Corte de “mais uma vez colocar os interesses da América corporativa antes dos interesses de nossos filhos”.

A postura de Yee sobre a permissão de jovens abaixo de 18 anos jogarem videogames retratando cenários de crime, assassinatos, roubos de carros – é de que esses jogos provocam “aumento de comportamento agressivo, dessensibilização fisiológica à violência e diminuição de comportamento social”, de acordo com uma declaração anterior no site de Yee. Sua posição se alinha com a da American Psychological Association, a American Psychiatric Association e a American Academy of Pediatrics.

Entre outros defensores da posição de Yee está um grupo de psicólogos e cientistas sociais liderado por Craig Anderson, diretor do Centro de Estudos sobre Violência da Iowa State University, que no ano passado foi autor de um estudo que apontou evidências “claras e convincentes de que a violência na mídia é uma das causas da agressividade no mundo real”. O estudo, intitulado “A influência da violência na mídia sobre a juventude”, publicado na revista Psychological Science in the Public Interest, concluiu que “as pesquisas sobre filmes, televisão, videogames e música violentos revelam evidências inequívocas de que a violência na mídia aumenta a probabilidade de comportamento agressivo tanto imediato quanto a longo prazo.

Rowell Huesmann, chefe do Programa de Pesquisas sobre Agressão da University of Michigan, apoiou as descobertas de Anderson na época, mas reconheceu na mesma edição da Psychological Science in the Public Interest que era improvável mudar a percepção de que a questão não está definida. “Alguns estudos não revelam nenhum efeito, pois muitas pessoas estão preocupadas de que as conclusões das pesquisas ameacem a liberdade de expressão, e várias outras têm suas identidades ou interesses centrados basicamente em videogames violentos”.

A visão oposta sobre os videogames violentos afirma que os crimes violentos entre os jovens vêm diminuindo, embora os videogames estejam mais violentos e seja difícil estabelecer uma relação causal entre qualquer um dos meios e o comportamento de um grupo, muito menos de ações individuais.

Em artigo de junho de 2010 na Scientific American, a psicóloga social Dara Greenwood avaliou os argumentos dos dois lados do debate. Enquanto isso a investigação de Cheryl Olson, especialista em saúde pública de Harvard, estudou as motivações das crianças para jogar videogame e descobriu que os motivos principais eram para se divertir, competir bem com os outros e ser desafiado. Olson também estudou os benefícios psicológicos que os jogos podem trazer, descrevendo como os videogames facilitam a expressão, a dramatização, a resolução de problemas criativos, o domínio cognitivo, as interações sociais positivas e a liderança.

Greenwood reconheceu que “nenhum psicólogo de mídia que mereça o título concluiria que jogos violentos transformam seus filhos em malucos com armas em punho”. Ainda assim, ela concluiu que a mídia violenta, inclusive videogames, pode afetar as pessoas de “várias maneiras sutis, aumentando a hostilidade e a apatia de pessoas que nos cercam”.

A derrota da Califórnia na Suprema Corte Americana exerce um impacto maior que simplesmente deslocar a tentativa do Estado de limitar o acesso das crianças a jogos violentos. Os outros 11 estados – Connecticut, Flórida, Havaí, Illinois, Louisiana, Maryland, Michigan, Minnesota, Mississippi, Texas e Virgínia – que apresentaram um amicus curiae em apoio à lei da Califórnia agora se veem com as opções igualmente limitadas.