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Sismólogo se defende da condenação por vítimas de terremoto

Enzo Boschi responsabiliza governo por falta de alerta à população de L´aquila em carta à Science

Enpasedecentrale/Flickr
Julgamento sísmico do século: equipes de socorro emergencial inspecionam edifícios danificados após o terremoto de abril de 2009 na região central da Itália.

Por Larry Greenemeier

Há um ano, um tribunal italiano condenou seis cientistas e um ex-funcionário do governo a seis anos de prisão por homicídio culposo. Mais especificamente, o juiz os considerou culpados por não terem dado um aviso prévio adequado à população de L`Aquila, uma cidade na região italiana de Abruzzo, sobre o risco do terremoto de abril de 2009 que matou 309 pessoas.

Enquanto aguardam uma decisão sobre sua apelação, os cientistas afirmam que o verdadeiro culpado no desastre foi a incapacidade do governo de comunicar informação científica diferenciada aos cidadãos de L’Aquila.

Grande parte do caso da acusação se baseou em uma reunião da Comissão Nacional para a Previsão e Prevenção de Grandes Riscos em L`Aquila uma semana antes do terremoto. O encontro, promovido pelo governo italiano, reuniu um comitê de cientistas que discutiu a dificuldade de se prever uma atividade sísmica e destacou o fato de que Abruzzo, e L`Aquila em particular, encontram-se em uma das piores zonas de terremotos do país.

De acordo com os promotores, após a reunião o governo minimizou o risco de um terremoto, dando aos moradores uma falsa sensação de segurança que os levou a não fugirem para uma área mais segura quando o terremoto de magnitude 6,3 na escala Richter começou.

Um dos cientistas condenados continua defendendo a sua posição de que as acusações contra ele e seus colegas são “ilógicas” e adverte que elas criam “precedentes perigosos para o futuro do processo científico”. Em uma carta que será publicada em 4 de outubro na revista Science, o geofísico Enzo Boschi, ex-presidente do Instituto Nacional de Geofísica e Vulcanologia da Itália, observou que o tom da discussão no encontro levou o prefeito da cidade a fechar certas escolas e recomendar que fosse decretado estado emergência. Essas medidas poderiam ter salvado algumas vidas. De acordo com Boschi, o tribunal posteriormente ignorou o depoimento do prefeito.

O que talvez seja mais preocupante é que a promotoria deturpou um estudo de Boschi e outros, de 1995, em que eles afirmavam que alguns fortes terremotos registrados em Abruzzo nos séculos 17 e 18 não provavam que o risco de abalos sísmicos futuros na região era elevado.

Boschi argumenta que a promotoria “distorceu completamente” o propósito e as conclusões daquele estudo. “A interpretação superficial dos resultados científicos por parte do Ministério Público para reforçar seus argumentos cria um grave precedente não só para a sismologia, como para muitas outras disciplinas”. O estudo de 1995 não foi concebido para ser considerado como uma palavra final sobre a vulnerabilidade de Abruzzo a terremotos fortes, mas como um argumento para discussões científicas posteriores.

A carta de Boschi é uma poderosa defesa contra a condenação injustificada de cientistas no caso de L`Aquila, afirma Thomas Jordan, diretor do Centro Southern California de Sismologia e professor de geociências na University of Southern California, onde se encontra o centro de sismologia.

Os problemas na comunicação dos riscos sísmicos antes do terremoto de L`Aquila resultaram de um sistema de alerta administrado pelo governo, que é muito mal elaborado e foi usado inadequadamente pelas autoridades, e não da falta de ações ou declarações por parte dos próprios cientistas, acrescenta.

Em vez disso, os cientistas viram suas opiniões e ações emboladas com as de Bernardo De Bernardinis, então vice-diretor do Departamento de Proteção Civil do governo que em uma coletiva de imprensa antes do terremoto para discutir a reunião da comissão teria minimizado o perigo de um terremoto iminente. Quando um repórter perguntou se os moradores deveriam então relaxar com um copo de vinho, De Bernardinis foi citado como tendo respondido: “Com certeza, com certeza um Montepulciano”, referindo-se a um tipo de vinho tinto. Os advogados de De Bernardinis afirmam que ele estava fazendo uma brincadeira, mas os promotores se basearam nessa declaração mesmo assim.

“Esse comentário foi irresponsável e pelo que sei não representou as opiniões do resto do comitê, incluindo o Dr. Boschi, nem a nossa capacidade de prever terremotos”, diz Robert Yeats, professor emérito de geologia na Oregon State University em Corvallis. “Os terremotos em L`Aquila foram parte de uma série de abalos sísmicos (chamados “enxames sísmicos”) e a ciência não nos permite prever se uma sequência desse tipo incluirá um terremoto destruidor de grandes dimensões ou se simplesmente perderá sua força sem causar danos”.

A atuação da promotoria de L`Aquila foi o “julgamento do século de um ponto de vista sismológico ou, de um modo mais geral, da perspectiva dos cientistas envolvidos em políticas públicas e, em particular, em questões de comunicação de risco”, afirma Thomas Jordan, que presidiu a Comissão Internacional de Previsão de Terremotos para a Proteção Civil formada pelo governo italiano na esteira do evento em L`Aquila para avaliar o conhecimento científico da previsibilidade de terremotos e fornecer linhas de orientação para coletar, atualizar e divulgar informações ao público de uma modo eficiente.

Cientistas devem ser solicitados a fazer recomendações adequadas sobre questões científicas, mas a comunicação de um curso de ação baseado nessas recomendações deve ficar a cargo de pessoas que podem levar em consideração fatores políticos, econômicos e outros elementos que influem nessas ações, observa Jordan. “Tudo se resume a qual é o papel apropriado para cientistas — e essa função não é tomar decisões de gestão de risco, mas sim dar conselhos”, acrescenta. “Se isso for feito adequadamente não vejo uma responsabilidade associada a isso”.