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Leões estão quase extintos na África Ocidental

A população de leões-do-senegal tem 400 animais está limitada a quatro áreas de conservação

Jonas Van de Voorde/CommonsWikimedia
Um leão macho no Parque Nacional Pendjaridurante, Benin.
Por John R. Platt

“Física e emocionalmente difíceis”.

É assim que Philipp Henschel, Coordenador do Programa de Pesquisa de Leões da organização de conservação de grandes felinos, Panthera, descreve os seis anos que ele e outros pesquisadores passaram estudando as terras de 17 nações procurando o elusivo e raramente estudado leão-do-senegal [Panthera leo senegalensis]. Os resultados de sua busca foram no mínimo desanimadores. Em 2005, antes do início da pesquisa, acreditava-se que os leões-do-senegal viviam em 21 áreas protegidas diferentes. Mas agora um artigo publicado em 8 de janeiro na PLoS One confirma que só existem leões em quatro desses locais. E o que é pior: os pesquisadores estimam que a população total de leões-do-senegal é de apenas 400 animais, incluindo menos de 250 indivíduos maduros em idade reprodutiva. 

Os leões-do-senegal – historicamente identificados com a subespécie Panthera leo senegalensis, ainda que essa designação taxonômica não esteja atualmente em uso – são menores e geneticamente diferentes de seus parentes do sul e do leste da África, que também estão em declínio e que atualmente não passam de 35 mil. Testes genéticos recentes mostram que esses animais têm uma ligação mais próxima com o extinto leão-do-atlas do norte da África e o criticamente ameaçado leão asiático (Panthera leo persica) da Índia, que também tem uma população de aproximadamente 450 animais.

Apesar de chocante, a notícia da quase-extinção dos leões provavelmente não deveria ser surpreendente dado o contexto da região. As populações de outras espécies de grandes mamíferos caíram em média 85% na África Ocidental entre 1970 e 2005, a maioria para alimentar a voraz demanda por carne de caça. As 11 nações da África Ocidental estão entre as mais pobres da Terra e incluem seis dos países menos desenvolvidos do mundo. Os países da região não têm dinheiro para conservação, e o estudo descobriu que a maioria das áreas de conservação supostamente povoadas por leões tinha pouca ou nenhuma proteção, patrulhas de segurança, ou administração. Parques nacionais frequentemente são invadidos por dezenas de milhares de cabeças de gado doméstico. Henschel descreve muitas dessas áreas protegidas como “parques de papel” – locais de conservação apenas no nome.

Percepção Devastadora

Os pesquisadores foram analisar pessoalmente 13 das 21 áreas protegidas – cada uma delas com mais de 500 quilômetros quadrados – e usou relatos de campo de cientistas estudando outras espécies nos oito outros locais. Ainda que parte do trabalho pudesse ser feita com veículos, isso não foi uma opção em muitas das áreas estudadas. “Devido a uma completa ausência de estradas em algumas áreas protegidas, tivemos que fazer todo o trabalho de pesquisa a pé nessas áreas, andando até 600 quilômetros por um terreno difícil”, conta Henschel. A pesquisa também foi bastante perigosa em certos momentos. “Encontros com caçadores ilegais agressivos eram frequentes e, em alguns países, até mesmo com grupos rebeldes”.

Os encontros com seres humanos também ilustraram alguns dos perigos enfrentados pelos leões (os felinos frequentemente são mortos como pragas). “Em muitas das áreas protegidas que investigamos, nós também conduzimos entrevistas com vários grupos sobre a possível presença de leões”, declara Henschel. “Um dos grupos que entrevistamos era de pastores do grupo étnico Fulani, que é o maior grupo pastoril da África, e se estende por toda a África Ocidental. Nós frequentemente encontramos pastores Fulani e seu gado no interior de áreas protegidas, e quase todos os indivíduos entrevistados admitiram carregar veneno para matar quaisquer leões que atacassem seus rebanhos”.

Ainda mais difícil que a viagem foi o fato de os pesquisadores raramente encontrarem evidências da existência de leões. “Foi devastador perceber que apesar de todo esse esforço físico, apesar de semanas procurando rastros, não conseguimos encontrar nenhum sinal de leões em muitas áreas”, lamenta ele.

Mas seu trabalho não foi completamente em vão. Eles encontraram rastros, pistas e outras evidências de leões em quatro locais e, ainda que raramente, observaram leões de verdade. Henschel declara que o encontro mais recompensador ocorreu no Parque Nacional Niokolo-Koba, do Senegal. A equipe estava vasculhando a área há mais de um mês sob calor extremo – “mais de 35 graus Celsius, mesmo à noite – quando finalmente encontrou um grande felino. “Em relação à raridade do leão no parque, basta dizer que nenhum dos meus quatro companheiros de pesquisa, todos veteranos da equipe dos parques nacionais, tinha visto um leão em sua vida. Foi extremamente recompensador ver o quanto eles ficaram animados de finalmente observar o animal que também é um símbolo de orgulho nacional no Senegal”. 

A Contagem

Os pesquisadores encontraram o maior número de leões-do-senegal em W-Arly-Pendjari, um complexo de parques que cruza as fronteiras de Benin, Burkina Faso e do Níger, que eles estimam conter cerca de 350 felinos. Estima-se que as outras três áreas do Senegal e da Nigéria tenham menos de 50 leões. Todos os locais são distantes uns dos outros, como é possível ver no mapa abaixo:

IMAGEM DO MAPA

(O mapa também mostra a localização de dois possíveis habitats de leões na Guineia. Nenhum leão é visto lá há mais de 10 anos, mas os autores escreveram que “relatos confiáveis de rugidos sugerem que eles ainda podem estar presentes”.)

Além de seus números reduzidos, os leões também vivem em uma densidade muito baixa de aproximadamente um animal em cada 100 quilômetros quadrados. Leões da África Oriental vivem em populações 15 vezes mais densas. Apesar dessa distribuição reduzida, Henschel relata boas novas: ele e sua equipe encontraram filhotes, tanto fisicamente quanto por seus rastros, o que significa que os felinos estão conseguindo se encontrar para reprodução. “Leões de todos os quatro locais onde a presença da espécie foi confirmada ainda estão se reproduzindo com sucesso”, observa ele.

E agora?

“Agora que esse enorme trabalho de pesquisa foi concluído”, explica Henschel, “nós finalmente sabemos onde ficam os leões e onde precisamos investir nossos esforços para salvá-los. Esse foi um primeiro passo vital, mas o verdadeiro trabalho de salvar os leões só está começando. Mesmo as áreas protegidas onde ainda existem leões, falta  pessoal e há pouco equipamento. Nós pretendemos ajudar os países que ainda têm leões a melhorar a eficácia da administração das áreas onde eles estão para ajudá-los a aumentar a quantidade, a experiência e o orçamentos de operação dos responsáveis por áreas protegidas onde existem leões”. De acordo com ele, isso ajudará a “reduzir a matança de leões e as incursões ilegais de pastores em áreas protegidas”.

Além disso, o material genético coletado de fezes de leões durante as pesquisas será avaliado para determinar a diversidade genética e a saúde dos animais. Seguindo essa mesma linha, o Grupo de Especialistas em Felinos da IUCN/SSC, que determina o estado de conservação de felinos pelo mundo, também está abordando o espinhoso  problema da taxonomia dos leões,  que pode resultar em uma nova classificação para o leão-do-senegal. A IUCN atualmente lista o leão-do-senegal como uma população, não uma subespécie separada, e o considera ameaçado. “Se os leões-do-senegal realmente forem clasificados pela IUCN/SSC como uma subespécie separada, nós recomendamos que sejam listados como Criticamente Ameaçados”, propõe Henschel.

Luke Hunter, presidente da Panthera e coautor do novo estudo, também espera que o mundo comece a prestar atenção a esses leões ignorados até agora. “Os leões passaram por um colapso catastrófico na África Ocidental”, declarou ele em um comunicado de imprensa. “Os países que conseguiram salvar alguns desses animais estão enfrentando uma pobreza generalizada e têm muito pouco dinheiro para conservação. Para salvar o leão – e muitos outros mamíferos em risco crítico, incluindo populações únicas de guepardos, mabecos e elefantes – será preciso um investimento massivo de recursos da comunidade internacional”. Mas se essa ajuda e assistência realmente chegarão a uma das regiões mais pobres do planeta ainda é um mistério.