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Lista de afazeres para pesquisadores de Parkinson

Pesquisadores da neurodegeneração têm muito trabalho pela frente e deveriam colaborar mais

Alexander Raths/shutterstock
Progresso lento e constante: pesquisadores estão aprimorando seu conhecimento sobre o papel da proteína alfa-sinucleína (corolário do Parkinson da proteína beta-amiloide na doença de Alzheimer), que tem uma configuração anormal e se aglomera nas células de pessoas portadoras da doença.

 
Por Todd Sherer

O SA Forum é um site da Scientific American que convida especialistas a publicar ensaios sobre questões atuais em ciência e tecnologia.

A doença de Parkinson chega ao horário nobre da TV. Na noite de 26 de setembro, Michael J. Fox retorna à televisão como astro de seu próprio seriado cômico quase 15 anos depois de se aposentar de “Cidade Louca” (“Spin City”, no original) para se concentrar na busca de uma cura para sua doença.

Michael teve o cuidado de frisar que o show não é sobre a doença de Parkinson.

Baseado vagamente em sua vida real, The Michael J. Fox Show faz rir das tribulações cotidianas do pai de família Mike Henry quando ele retoma seu trabalho de âncora de um noticiário da TV depois de ser diagnosticado portador de Parkinson. Ao apresentar um protagonista que convive com a doença, o programa leva a condição ao debate nos Estados Unidos.  Esse é um bom momento para considerar quanto trabalho ainda precisa ser desenvolvido no domínio da pesquisa sobre a neurodegeneração.

A pergunta que ouvimos com mais frequência na Fundação Michael J. Fox é: como Michael está suficientemente bem para voltar ao trabalho após mais de 20 anos de Parkinson?

Não existe resposta simples. O ator reconhece sua sorte em ter uma família amorosa e solidária, e a independência financeira que lhe deram vantagens ao lidar com sua doença. “Todo mundo tem sua própria versão de Parkinson. Medicamentos diferentes funcionam para pessoas diferentes, e você sempre procura encontrar a combinação perfeita. Acredito que agora encontrei o que funciona para mim. Tenho tanta sorte”, afirma ele.

A realidade é que para os cerca de cinco milhões de pacientes de Parkinson no mundo, o status quo ainda não é suficientemente bom. Essas pessoas vivem com dificuldades de movimentos e sintomas não-motores, como distúrbios de humor e do sono, e deficiências cognitivas.

Medicamentos e terapias aliviam alguns sintomas, mas criam outros problemas e não abrangem todos os efeitos da doença. Existem alguns tratamentos que modificam a condição em ensaios clínicos, mas ainda não há nada disponível no mercado.

A triste realidade é que o estado de saúde das pessoas diagnosticadas com Parkinson vai piorar; e cada paciente afeta involuntariamente uma comunidade à medida que o impacto da doença atinge entes queridos e os provedores de cuidados. O problema é global, mas podemos resolvê-lo.

Pesquisadores estão aprendendo mais sobre o papel da proteína alfa-sinucleína (o corolário do Parkinson’s à proteína beta-amiloide na doença de Alzheimer), que tem uma configuração anormal e se aglomera nas células de pessoas que têm a doença.

Em agosto, o estudo Iniciativa de Marcadores de Progressão de Parkinson’s, patrocinado pela Fox Foundation, divulgou dados preliminares na publicação científica JAMA Neurology sobre níveis de proteína no líquido espinhal, um marco importante na busca de biomarcadores que poderiam levar a diagnósticos mais rápidos e ao desenvolvimento mais acelerado de medicamentos.

No longo caminho rumo a remédios que possam impedir ou retardar a progressão da doença, essas são algumas das opções mais promissoras. Além disso, os investimentos em uma área de doenças neurológicas provavelmente trarão benefícios a todo o espectro, à medida que a pesquisa detecta sobreposições patológicas, por exemplo, entre a doença de Parkinson e o mal de Alzheimer.

Com orçamentos apertados há uma tendência de se adotar uma abordagem gradual e segura no desenvolvimento de projetos, ou seja, dar apenas pequenos passos para garantir mais financiamento.

Embora pequenos passos sejam importantes, também é preciso seguir resultados promissores iniciais e avançar em território desconhecido. O redirecionamento de medicamentos, por exemplo, poderia permitir o aproveitamento de remédios existentes, cuja segurança já foi comprovada no tratamento de outras condições, como a diabete e a hipertensão, e aplicá-los à doença de Parkinson. Os pesquisadores também estão caracterizando mutações genéticas associadas à doença, como no gene LRRK2, para identificar fatores de risco e de proteção. 

Outra ideia é que, em vez de ficarmos enfurnados em nossos laboratórios até termos analisado e testado resultados suficientes para entrar no longo processo de publicação de um manuscrito, nós pesquisadores deveríamos deixar de lado nossos egos e partilhar nossos dados e ferramentas.

Dados de livre acesso, parcerias não tradicionais e “crowdsourcing” (a utilização de conhecimentos coletivos e voluntários de grupos e/ou publicados na internet) são algumas opções para avançarmos na pesquisa.

Por fim, seria bom rever a parceria entre pesquisadores e pacientes.

Soluções possibilitadas pela tecnologia dão aos pesquisadores acesso quase instantâneo a um pool de voluntários informados e interessados. Precisamos usar ferramentas como o Fox Trial Finder e o ResearchMatch para identificar e contatar esses participantes em potencial. Mais importante: precisamos vê-los como colaboradores; tê-los em mente quando projetamos estudos e fases de acompanhamento (follow-ups) para que fiquem conhecendo nossos resultados. Voluntários satisfeitos são participantes dispostos a repetir experimentos.

Suponho que esteja pedindo muito, mas nossas práticas padrão deveriam ser: financiar projetos criativos e inovadores, colaborar com nossos pares e parceiros não tradicionais, e com os pacientes.

Michael J. Fox está otimista e estou feliz em vê-lo voltar à tela. Sua atitude é contagiante e esperamos que ela inspire os pesquisadores a encontrar um modo de fazer com que cada paciente de Parkinson retome a carreira que ama, ou, melhor ainda, que nunca a deixe para começo de conversa. 

Todd Sherer é CEO da The Michael J. Fox Foundation for Parkinson’s Research.

 sciam26set2013