Sciam


Clique e assine Sciam
Notícias

Após as explosões em Boston, um alento no Brain

A iniciativa Brain pretente mapear a atividade de neurônios em tempo real

NIH
Por Cynthia Graber

Moro em Boston, mais precisamente, em Somerville – “pra lá do rio”, como dizem os moradores locais, cruzando o Charles a partir do centro da cidade.

A caminhada é curta do meu apartamento até os salões do MIT e de Harvard, um passeio curto de bicicleta ou de metrô até a Tufts e a Boston University, acesso fácil ao complexo hospitalar cada vez maior, instituições de pesquisa, gigantes e start-ups de biotecnologia, empresas de tecnologia da próxima geração.

É uma cidade pequena, bem aconchegante. Ela só tem uma fração do glamour e correria de Londres ou Nova York. Mas ela oferece um suprimento inesgotável de estímulo intelectual. Em outras palavras, o lar perfeito para uma jornalista científica.

Eu fui alertada pela primeira vez sobre as bombas na Maratona pelo post de um amigo no Facebook, também jornalista científico. Senti meu mundo desabar, da mesma maneira que aconteceu há tantos anos em 11 de setembro. Passei grande parte das horas seguintes concentrada no website do Boston Globe, acompanhando textos do Twitter e do Facebook, incapaz de desligar meu telefone por um minuto.

Meu coração se partiu. Eu queria poder me esticar, cada vez mais longe, envolvendo as bordas irregulares da cidade que chamo de lar há mais de 15 anos.

E então, apenas 24 horas depois, eu me peguei pronta para ir ao aeroporto e deixar Boston, para viajar até Washington capital para o TedMed, uma versão da famosa conferência TED sobre “ideias que merecem ser compartilhadas”, como diz o website, essa com foco em medicina.

Tive que voltar meus pensamentos para inovações em saúde e esquecer cirurgias e estilhaços. Tive que partir temporariamente de Boston e da destruição que atingiu meu lar.

O táxi passou facilmente pelo trânsito do centro da cidade. Mal registrei a linha de segurança.

Mas então notei o homem a meu lado com a viseira amarela de corredor, vestindo uma fina jaqueta onde se lia “Boston Marathon 2012”. E mais uma vez meu corpo se contraiu de tristeza. Eu queria dizer alguma coisa. Não consegui.

O avião saiu de Boston e deslizou pela costa leste, sobre o local onde existiam as torres do World Trade Center, dirigindo-se na direção do Pentágono onde outro avião caiu há quase 12 anos.

Parecia que tinha sido ontem. Enquanto mergulhávamos pela noite, aterrissando no Reagan National Airport, o avião passou pelo Monumento a Washington, um farol de ponta vermelha que se eleva até o céu. O Prédio do Capitólio brilhava pela minha janela. Eu senti a força da conexão, do amor pelo país que nos eleva e nos une em momentos como esse.

E então: medicina. Pesquisa. Saúde. Cerca de 1800 participantes se amontoavam no teatro escuro, bordô, no Kennedy Center for the Performing Arts. 

Perto do final da sessão de abertura naquela primeira noite, Rafael Yuste assumiu o palco. Yuste, professor da Columbia University e codiretor do Kavli Foundation’s Institute for Neural Circuitry é um dos instigadores da maior novidade do momento.

Chamada de Iniciativa BRAIN, ou Pesquisa Cerebral pelo Avanço de Neurotecnologias Inovadoras, o projeto foi anunciado pelo presidente Obama em 2 de abril. Em 2014, US$100 milhões serão devotados ao esforço de mapear os circuitos neurais do cérebro.

Yuste explicou que sabemos muito pouco sobre o cérebro. Só podemos, por exemplo, tratar os sintomas de doenças como esquizofrenia e epilepsia, porque não entendemos suas causas.

O cérebro contém milhões de neurônios interconectados, mas tentamos compreender as funções cerebrais analisando um punhado de neurônios de cada vez. “É como sentar no sofá e tentar assistir a um filme observando apenas um pixel”, declarou ele. 

A ideia de mapear a atividade de neurônios em tempo real nasceu em uma conferência de 50 pesquisadores em 2011, metade neurocientistas e  físicos, geneticistas, nanotecnólogos.

Críticos disseram que isso seria muito caro; se o dinheiro chegasse, haveria dados demais; se pesquisadores conseguissem armazenar e processar todos esses dados, eles ainda não saberiam o que fazer com eles.

George Church, um dos grandes nomes da genética e da biologia sintéticas, lembrou que essas mesmas críticas surgiram em relação ao financiamento do Projeto Genoma Humano.

O presidente Obama acabou optando pelo objetivo de mapear o cérebro, essa jornada aparentemente impossível, como o principal desafio científico deste século.

Yuste descreveu o projeto em um único pronunciamento: “Eu diria que os cientistas não têm apenas o direito de imaginar e sonhar, mas a obrigação de fazê-lo... Historicamente, todos os avanços da sociedade tiveram o sonho de um cientista ou engenheiro como origem”.

“Não devemos nos acomodar com objetivos modestos e avanços incrementais. A ciência não pode se dar ao luxo de sonhar pequeno”, continuou ele. Ele mencionou a jornada para levar o homem à Lua, a Rainha Isabel enviando três pequenos navios pelo Atlântico. Grandes jornadas que revelaram verdades sobre o mundo, e sobre o Universo.

Desde os ataques, eu encontrei muito mais beleza no mundo.

Choro com empatia quando os rostos cansados, abatidos dos cirurgiões aparecem nas notícias. Eles respondem perguntas sobre os pacientes e insistem que continuarão a fazer o melhor que conseguirem. Fico cheia de orgulho quando leio a infindável lista de moradores de Boston oferecendo uma cama, um sofá, uma refeição, aos que ficaram ilhados ou distantes de seus hotéis ou lares.

O projeto BRAIN inspirou críticas sobre como a pesquisa será conduzida e sobre quais devem ser seus objetivos. Mas no discurso de Yuste no TedMed, eu me vi inspirada por algo grandioso, a visão de uma humanidade que assume riscos, que aposta em objetivos insanos e em chances quase insuperáveis. Que vê um desafio como apenas isso: um desafio, algo que pode ser vencido. Não uma impossibilidade.

Eles nos inspiram a chegar, literalmente, às estrelas, e a tentar entender as perguntas mais difíceis da ciência e da humanidade. Eles inspiram novas gerações de cientistas. E durante uma noite, quando eu mais precisei, esse projeto me inspirou.