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Lucy no céu com proteínas: chave para a potência psicoativa do LSD encontrada?

A descoberta de como o LSD muda a estrutura de uma proteína pode explicar como a droga é tão poderosa 

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Uma gota de LSD pode apagar todo o seu senso de identidade até que — intermináveis horas depois — você a recupere, um pedaço de cada vez. Além disso, e dos efeitos caleidoscópicos icônicos, a dietilamida do ácido lisérgico supostamente também inspirou muitas ideias revolucionárias. Recebeu, de maneira notória e controversa, créditos pela criação do Iphone e da reação em cadeia da polimerase, a ferramenta usada para clonar o DNA.

E tudo de que você precisa são 100 microgramas da droga, basicamente o peso de dois cílios e meio. Para se ter uma ideia, em contraste, uma dose comum de dimetiltriptamina (DMT) — o principal ingrediente psicodélico da cada vez mais popular, e supostamente plantada para propósitos terapêuticos, ayahuasca— é de 20 a 40 mil microgramas. O mecanismo que faz uma tira de papel pequena e transparente salpicada com ácido exercer tamanho poder no cérebro e no comportamento por tanto tempo está começando a ser entendido agora.

Um novo estudo publicado essa semana na revista científica Cell examina o modo peculiar com que o LSD se liga aos receptores cerebrais de proteínas — e pode ser um passo chave para revelar os funcionamentos internos da droga. “Sempre houve uma confusão relacionada ao porquê de a droga durar o tempo que dura, e porque ela parece ser tão extraordinariamente potente,” afirma  Adam Halberstadt, farmacologista da Universidade da Califórnia, San Diego, que não esteve envolvido no estudo. “Então, esse estudo é impressionante.”

LSD e outras drogas psicoativas se unem à proteínas especializadas chamadas de receptoras que estão localizadas nas superfícies de células neuronais. Na proteína receptora existe um “bolso” esculpido, dentro do qual cabem moléculas com o  formato correto que pode, portanto, permaneceram ligadas à célula, onde elas iniciam mudanças no cérebro. Mas diferentes substâncias podem caber no mesmo receptor. Muitos receptores que se conectam ao LSD e ao DMT, por exemplo, também se ligam à serotonina, um neurotransmissor natural — que é produzida pela corpo e ajuda a regular o humor. Entender como cada droga interage com o mesmo receptor de maneiras diferentes é essencial para entender por que os efeitos do LSD duram o dia todo, enquanto experiências relacionadas a DMT sintética acabam em 15 minutos ou menos.

Ao congelar uma molécula de LSD ligada a um único receptor celular do cérebro num cristal no laboratório, os pesquisadores conseguiram obter uma imagem de raio-X 3D da droga e da proteína juntas. “Meu laboratório tenta fazer isso desde o início dos anos 90,” afirma Bryan Roth, farmacologista da Universidade da Carolina no Norte, em Chapel Hill, e autor sênior do estudo. “Eu lembro do Dan Wacker [um coautor da mesma universidade] mostrando a imagem. Foi um momento de silêncio. Eu lutei para segurar as lágrimas de gratidão: havíamos finalmente conseguido.” É a primeira imagem em 3D de uma substância psicodélica ligada a um receptor cerebral, diz Roth.

A imagem mostrou para Roth e seus coautores algo estranho sobre a maneira como o LSD cabe dentro desse receptor. Usualmente, drogas vão e vem de proteínas receptoras, como navios que zarpam e chegam ao porto. Mas quando uma molécula de LSD chega ao receptor, ela se encaixa numa porção da proteína e a dobra sobre si mesma, à medida que se liga ao receptor. “Havia essa ‘tampa’ sobre a molécula. Parecia que o LSD estava preso no recetor,” explica Roth. “Imediatamente, isso nos deu uma ideia de por que os efeitos do LSD duram tanto tempo.”


O LSD parece estimular o receptor durante todo o tempo em que está preso debaixo da “tampa” de proteína, explica Roth. As proteínas estão em movimento constante, então ele acredita que, eventualmente, a tampa se abra, permitindo que a droga saia e seus efeitos cessem. Mas a equipe correu alguns modelos computadorizados que sugerem que poderia demorar horas para que isso acontecesse. Até lá, a “viagem” continua.

Os experimentos de Roth também sugerem que quanto mais tempo o receptor passa sendo estimulado pelo LSD, mais poderosos os efeitos se tornam. “O que mostramos no estudo é que a droga se torna de cem a mil vezes mais potente [depois de algumas horas],” afirma Roth. “Isso começa a explicar não só por que doses padrões e recreativas possuem esse efeito profundo, mas também por que microdoses (cerca de 10 microgramas) de LSD também pode ter efeito.”

As chamadas microdoses são quantidades mínimas de LSD — geralmente 10 vezes menores do que a dose recreativa comum. O LSD é ilegal no mundo todo e classificado como Schedule I nos EUA (a mesma categoria da heroína e do ecstasy). Mas as microdoses ganharam alguma força entre tecnólogos do Vale do Silício como impulsionadores de criatividade. A prática se tornou mais popular desde que o psicólogo James Fadiman escreveu sobre ela em seu livro “The Psychedelic Explorer’s Guide”, lançado em 2011.

Cientistas já sugeriram que o LSD pode ter algum uso clínico para males como ansiedade e depressão, e existem evidências primárias de que poderia ser usado para tratar a cefaleia em salvas. Roth no entanto diz que mais pesquisas são necessárias para todas essas aplicações. “No que diz respeito às microdoses, do que realmente precisamos são testes clínicos controlados, e não temos nenhum,” ele explica. Alguns adeptos das microdoses afirmam que a prática pode aumentar a produtividade, o foco e melhorar o humor.  Ayelet Waldman, que recentemente publicou “A Really Good Day: How Microdosing Made a Mega Difference in My Mood, My Marriage and My Life”, disserta sobre como o uso de microdoses de LSD ajudaram-na a superar sua depressão e distúrbio bipolar. “Eu era suicida, e agora não estou morta” afirma Waldman.

Inicialmente, Roth acreditava que os efeitos da microdose, que alguns usuários dizem ser praticamente imperceptíveis, eram devidos ao fenômeno do placebo. “Anteriormente, eu pensava que essas eram apenas doses ‘homeopáticas’ — que não estava fazendo nada,” ele afirma. Mas “essas doses baixas, está claro agora, podem realmente ter efeitos significativos nesses receptores.”

Halberstadt acredita que a ideia seja interessante. “Essa pode ser a razão da potência do LSD,” ele diz. “Se ele possui grandes taxas de dissociação isso poderia aumentar seu efeito mesmo em concentrações muito baixas.”

Mas ainda não está claro como, exatamente, uma vez ligados ao LSD, essas proteínas receptoras criam os efeitos específicos e geralmente bizarros da droga — como a destruição do senso de identidade, ou o mergulho incontrolável nas emoções e memórias mais pessoais e profundas do usuário.

O estudo investigou apenas dois dos 40 receptores conhecidos que o LSD pode tocar no cérebro, afirma Nicholas Cozzi, farmacologista da Universidade de Wisconsin-Madison que não esteve envolvido no estudo.

Qualquer combinação desses receptores que trabalham em conjunto, e as diferentes maneiras do LSD interagir com cada uma, podem estar contribuindo para o sentimento de unidade com o universo, mudança de realidade ou humor alterado que são frequentemente atribuídos à droga. “É como se fosse um acorde musical formado por diferentes notas,” explica Cozzi.

Angus Chen
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