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Macacos podem ser capazes de compreender a mente do outro

Um experimento que utilizou um traje de gorila revela que nossos parentes animais mais próximos podem ter uma “teoria da mente”

Wikipedia

Um chimpanzé, um cientista com uma vareta e um pesquisador em uma roupa de King Kong podem parecer o cenário de uma piada ruim, mas são, na verdade, a base de um estudo recente que fornece evidências de que macacos grandes — ou seja, bonobos, chimpanzés e orangotangos — possuem um entendimento sobre crença falsa, um marco da chamada “teoria da mente.” Essa habilidade de entender que outros possuem estados mentais e perspectivas diferentes das nossas foi, por muito tempo, considerada como exclusiva dos humanos.

No estudo, publicado na revista científica Science  no começo de outubro, uma equipe de cientistas gravou o movimento ocular de três espécies de grandes macacos enquanto os animais assistiam a vídeos de um homem procurando por um objeto escondido que havia sido retirado de seu lugar original sem ele saber, e descobriram que eles olharam mais frequentemente para o lugar onde o homem esperava que o objeto estaria (uma crença que os macacos sabiam que era falsa), mesmo que o objeto não estivesse mais lá. As descobertas sugerem que os macacos conseguiram intuir o que o humano estava pensando.  

A teoria da mente é central para o nosso funcionamento social como humanos, mas há muito tempo os cientistas se perguntam se ela é, de fato, uma característica unicamente humana. Existe evidência de que macacos são capazes de entender o estado mental de outros quando eles estão conectados com a realidade, mas os mesmos animais falharam repetidamente em testes de crença falsa — a ideia de que alguém pode estar agindo de acordo com uma crença que não é verdadeira. Fumihiro Kano, do Santuário Kumamoto da Universidade de Quioto e co-líder do estudo, chama essa habilidade de “teste decisivo” para a teoria da mente.

Testes de crença falsa para macacos tradicionalmente envolvem tarefas complicadas como revirar copos para encontrar comida escondida. Por isso, Kano e o também co-líder do estudo, Christopher Krupenye, do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, adaptaram um teste simples de falsa crença feito para crianças humanas que utiliza uma método de rastreamento do olhar chamado olhar antecipatório, que significa olhar fixamente para o lugar onde você espera que uma pessoa procure por um objeto.

Durante o estudo, bonobos, chimpanzés e orangotangos foram “convidados” a, um de cada vez, sentar em uma sala e beber suco enquanto assistiam a uma sequência de cenários em um monitor de vídeo. Uma câmera infravermelha embaixo do monitor registrava para onde na tela os animais estavam olhando enquanto assistiam as cenas se desenrolarem. Para captar a atenção dos macacos, os pesquisadores transformaram cada cenário experimental em um drama televisivo de alto risco, estrelando um personagem misterioso e de aparência símia (um pesquisador vestido de gorila), a quem apelidaram de King Kong.

Como os humanos, os grandes macacos são “bastante obcecados com informações sociais — quando há um conflito dentro do grupo, todos param e prestam atenção,” afirma Krupenye. “É como se fosse a versão deles do BBB, que fizemos para que eles realmente ficassem interessados no que iria acontecer depois.”

Em um dos cenários, a figura do King Kong fingia atacar um pesquisador, depois se escondia em um dos dois fardos de feno, indo para o outro fardo enquanto o pesquisador via. Então, o pesquisador saía por um momento antes de retornar com uma vareta para procurar o King Kong, que já havia deixado a cena enquanto o pesquisador estava fora. Em outro cenário,  a figura fantasiada mudava para o outro fardo de feno enquanto o pesquisador estava fora e depois ia embora. Os pesquisadores também montaram as mesmas situações com diferentes nuances — ao invés de se esconder, o King Kong escondia uma pedra roubada embaixo de uma de duas caixas antes de ficar com ela definitivamente.

Os macacos das três espécies passaram no teste consistentemente; embora os animais soubessem que o King Kong ou a pedra tinham sumido, quando o pesquisador voltava para procurar por um dos dois, eles olhavam consistentemente para o fardo de feno ou a caixa em que a pessoa tinha visto o objeto por último e que achava que ainda o abrigaria. Esses resultados são particularmente surpreendentes porque eles desafiam o grande número de trabalhos anteriores que sugeriam que grandes macacos não possuem a habilidade de compreender crenças que não são verdadeiras. “Por algum tempo, as pessoas pensavam que o entendimento da falsa crença era algo único dos humanos,” diz  Krupenye, “e isso sugere que os macacos possuem sim pelo menos um entendimento básico e implícito de falsa crença, que é visto como uma marca da teoria da mente.”

Os achados desencadearam tanto louvor quanto debate na área. Em um artigo sobre o estudo publicado na Science, Frans de Waal, um primatólogo que estuda inteligência social na Universidade Emory e não esteve envolvido com o estudo, escreveu que o design da pesquisa “é genuinamente inovador, não apenas porque evita uma confiança indevida nas habilidades linguísticas necessárias para entender uma narrativa e questões sobre testes de teoria da mente em crianças, mas porque ressalta a continuidade mental entre os grandes macacos e humanos.”

Tecumseh Fitch, um biólogo evolucionista e cientista cognitivo da Universidade de Viena, também não envolvido no estudo, vê isso como “o ponto final na ideia de que humanos são a única espécie com ‘teoria da mente.’”

Outros se mantêm céticos com a interpretação, no entanto. Carla Krachun, da Universidade de  Saskatchewan, e Robert Lurz, da Brooklyn College, que estudaram teoria da mente em primatas, mostraram-se animados com o fato dos pesquisadores terem conseguido medir indiretamente o processo mental dos macacos usando rastreamento do olhar, o que “abre porta para todo tipo de possibilidade para o estudo da teoria da mente em macacos,” conforme escreveram em um e-mail. Krachun and Lurz, no entanto, não acham que o estudo demonstra definitivamente que macacos entendem falsa crença. “O problema é que os objetos do estudo podem usar uma simples regra de comportamento — ‘pessoas procuram por coisas onde elas as viram por último’— para passar no teste sem que entendam de fato algo sobre as falsas crenças do agente,” eles explicaram.  

Kato e Krupenye reconhecem a dificuldade de interpretar suas descobertas, mas ainda as enxergam como um passo importante no entendimento da cognição dos grandes macacos. “Existem vários tipos de crenças falsas que eu acho que ainda precisamos testar para ter certeza de que os macacos estão se baseando nessa habilidade mais sofisticada,” afirmou Krupenye. “Mas o grande feito aqui é que os macacos claramente possuem um entendimento mais sofisticado sobre o outro do que pensávamos até então, e isso significa que eles podem prever o comportamento dos outros mesmo em contextos onde o ator está sendo levado ao engano, e isso é algo que os humanos fazem o tempo todo.”

 

Catherine Caruso
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