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Macacos-prego do Piauí transmitem cultura tecnológica há 100 gerações

Um dos autores do recente estudo publicado no Current Biology, Eduardo Ottoni, da USP, conversou com a Scientific American Brasil sobre a recente descoberta

 

Um estudo publicado essa semana no jornal Current Biology revelou que macacos-prego na região da Serra da Capivara, Piauí, utilizam ferramentas de pedra para abrir castanhas-de-caju por pelo menos sete séculos, caracterizando o registro mais antigo de uso de ferramentas por primatas fora da África. A pesquisa foi liderada pelo arqueólogo Michael Haslam, da Universidade de Oxford, e contou com a participação de uma equipe de pesquisadores brasileiros da USP, entre eles o biólogo Eduardo Ottoni, especializado em Psicologia Evolucionista.

Os pesquisadores já sabiam que os animais usam pedras como como martelos e bigornas, com as quais abrem certos frutos antes de consumi-los. Para isso, escolhem as pedras mais apropriadas em termos de tamanho e dureza. Os indivíduos mais novos aprendem a técnica com os mais velhos.

 



Crédito do vídeo: Oxford University

 “Descobrimos que os macacos da Serra da Capivara apresentam este comportamento deforma ininterrupta há pelo menos 100 gerações,” ressalta Ottoni. A prática dos animais de não mudar a tecnologia  e a estratégia com as quais já estão familiarizados sugere um fator que poderia ser considerado “conservador”. Mas o biólogo lembra que as rápidas mudanças em nossa tecnologia são uma tendência recente: “As ferramentas mais antigas dos hominídeos permaneceram inalteradas por um milhão de anos,” afirmou.

O estudo da aquisição e a transmissão do uso de ferramentas por primatas se encaixa numa área de pesquisa conhecida como primatologia cultural.  “Isso mexe com a ideia do que é cultura, e com o conceito tradicional dos antropólogos de que a cultura é exclusivamente humana,” diz. Ottoni ressalta que a cultura humana tem componentes exclusivos, mas diz que o conceito de cultura como um sistema de informação não genético e não determinado ecologicamente vem crescendo.

Ottoni lembra que, no início de seus estudos sobre o uso de ferramentas por macacos-prego, a sugestão era exatamente contrária. “Antes de acharmos populações selvagens que fizessem uso de ferramentas líticas, trabalhávamos com macacos de parques urbanos, como o Parque do Tietê, muitos dos quais tinham sido tirados de caçadores ou proprietários domésticos. Então, muitas pessoas perguntavam se os macacos não haviam aprendido aquilo com os humanos, porque macaco no cativeiro aprende demais,” contou. Ainda assim, continuou interessado, uma vez que mesmo se o primeiro macaco tivesse aprendido com um humano, a tradição havia se espalhado porque os demais animais haviam aprendido uns com os outros.

Agora, Ottoni e seus colegas começarão a investigar um outro tipo de ferramenta utilizada pelos macacos-prego: varetas que, usadas como sondas, ajudam a desalojar lagartos e roedores de dentro de rochas. O comportamento tem um forte viés de gênero, que ainda não é bem entendido pelos pesquisadores. “Não sabemos muito bem o por quê de apenas os machos fazerem uso das varetas. Pode estar ligado a um fator social ou de oportunidade de aprendizado… Estamos examinando as hipóteses”.

 

Isabela Augusto

 


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