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Macroecologia emerge como campo de pesquisa

A área estuda sobre trocas de energia, materiais e informações entre seres humanos e o ambiente

Lukas Kurtz.
Por Annie-Marie Hodge

Esforços de sustentabilidade estão no radar cultural há muitos anos. Somos cada vez mais instruídos por normas culturais a desligar as luzes quando saímos de um quarto, dirigir carros menores, reciclar o máximo possível... e você também estará fazendo sua parte para salvar o mundo. De algumas maneira, porém, esses conselhos diários agem como um band-aid para nossa consciência pública, à custa de procurarmos ideias mais profundas sobre nossa iminente crise de escassez de recursos.

Os efeitos da mudança climática estão se tornando cada vez mais difíceis de ignorar, e no atual “ecossistema” econômico ultra-conectado, escassez de recursos em uma região ou indústria pode ter implicações globais.

Dá-se relativamente pouca atenção, porém, a esforços para conseguir ideias sobre princípios evolutivos e ecológicos subjacentes à ciência de como tendências comportamentais de pequena escala podem interagir com processos naturais para produzir padrões emergentes na escala global.

Essas complexidades podem limitar nossa habilidade de perceber como até mesmo tendências culturais e comportamentais muito pequenas podem melhorar ou ameaçar nossa segurança de recursos – especialmente quando consideradas na escala da população humana que tem sete bilhões de indivíduos e continua crescendo.

Conforme a dependência socioeconômica entre nações, continentes e culturas se torna cada vez maior, alguns cientistas estão se esforçando muito para investigar as relações entre princípios ecológicos e evolutivos de grande escala relacionados ao uso e mau uso de recursos.

Essa inovadora área de pesquisa, batizada de “macroecologia humana”, está emergindo como uma estufa para novas e empolgantes descoberas relativas aos paralelos próximos entre a dinâmica de sociedades humanas e processos naturais.

De acordo com Joseph Burger – aluno de doutorado da University of New Mexico e um dos principais desenvolvedores de estudos de macroecologia humana em seu núcleo, a macroecologia humana é “o estudo estatístico de trocas de energia, materiais e informações entre seres humanos e o ambiente ao longo de escalas espaciais, indo de escalas locais a globais e temporais, de anos a milênios”.

A macroecologia considera que a espécie humana funciona dentro das limitações do mundo natural, e não que está divorciada de limitações de recursos naturais.

Essa abordagem conceitual toca disciplinas que vão de física e ecologia até antropologia e economia (Burnside et al. 2012), criando a oportunidade para uma sinergia sem precedentes entre áreas [de pesquisa]. As apostas são altas. “Qualquer discussão de soluções sustentáveis é incompleta e acabará por falhar sem essa perspectiva”, observa Burger.

Um dos principais problemas desses estudos emergentes é o do aumento das taxas de crescimento populacional.

Em seu livro de 1968, The Population Bomb, Paul e Annie Ehrlich descreveram o potencial para a escassez severa de recursos, e enfrentaram muitas reações, e revolta das pessoas ofendidas pela proposta de reduzir a reprodução humana. Desde que o livro foi publicado, porém, o número de humanos no planeta quase dobrou, e ainda está aumentando. O conselho dos Ehrlichs parece mais premonitório a cada censo.

A “bomba populacional” foi um conceito controverso, mas não necessariamente novo. As ideias de Thomas Malthus sobre o crescimento exponencial da população, publicadas em 1798, tiveram uma influência lendária sobre Charles Darwin e seu desenvolvimento da teoria da seleção natural.

O potencial para interações entre os processos descritos por Malthus e Darwin é tão fascinante quanto sombrio. Malthus alertou que a população crescerá exponencialmente até ser limitada pela disponibilidade de recursos, e mesmo assim a adaptação darwiniana clássica – além da inovação cultural – permite que organismos contornem as limitações de recursos aumentando sua eficiência na coleta de recursos e/ou o acesso a recursos tradicionais e a redução das taxas de mortalidade devido a riscos como doenças e predatores.

Se essa dinâmica malthus-darwiniana não for contida a tempo, ela produzirá adaptações que de fato atendem necessidades imediatas, mas pode envolver comportamentos essencialmente mal adaptados (Nekola et al. 2013). Uma população, por exemplo, que desenvolve uma adaptação ou tecnologia para eficientemente utilizar um recurso, pode acabar esgotando o recurso ao ponto de ser impossível que gerações futuras se adaptem rápido o suficiente para se sustentar com o que sobrou.

Esse cenário já está se tornando aparente conforme depletamos muitos de nossos recursos naturais progressivamente.

Por exemplo: décadas e mais décadas de irrigação, diversão e taxas de uso irresponsável criaram uma crise de escassez de água por todo o planeta, um problema que atualmente é exemplificado no sudoeste dos Estados Unidos. O problema de sistemas de rios secando se tornará mais urgente conforme a mudança climática progride, criando uma tempestade perfeita de estresse antropogênico e climático em comunidades ecológicas – incluindo tanto os seres humanos quanto a vida selvagem. Estratégias inovadoras de administração e novas tecnologias para aproveitar novos recursos – como os extensos sistemas de irrigação instalados ao longo das planícies ocidentais – são exemplos de adaptações darwinianas que nos permitem empurrar Malthus com a barriga, por assim dizer. A pergunta é: até quando? 

Essa dinâmica malthus-darwiniana (DMD) é crítica no contexto do crescimento acelerado da população humana, e foi o tópico de um recente artigo notável publicado no periódico Trends in Ecology and Evolution (Nekola et al. 2013).

Os seres humanas já provaram ser engenhosos no desenvolvimento de novas tecnologias para obter recursos.

A evolução cultural produziu um loop de reforço positivo entre população e inovação – quanto mais pessoas temos, mais informações podemos processar e usar de novas maneiras criativas, e mais maneiras podemos encontrar para evitar a limitação de recursos no curto prazo. Além disso, novas tecnologias nos permitiram passar da produção de subsistência, deixando indivíduos livres para se concentrarem em fazer experimentos com invenções e tecnologias ainda mais avançadas.

Mas recursos são de fato finitos. Estamos vivendo com recursos emprestados do futuro, e em algum momento nossos sucessores terão que pagar nossas contas, com resultados potencialmente catastróficos. Como já vimos no caso dos sistemas de rios dos Estados Unidos, administrar recursos para maximizar benefícios de curto prazo pode parecer inovador e útil ao mesmo tempo, mas ao custo de provocar problemas ainda maiores no futuro.

Existe, é claro, outro ponto de vista nesses problemas. A abordagem da “Cornucópia” desafia a validade das preocupações da DMD ao afirmar categoricamente que só somos limitados pelos poderes da inovação humana, que inevitavelmente evitará nosso colapso frente à limitação catastrófica de recursos.

Proponentes da visão da Cornucópia enfatizam o processo de adaptação darwiniana, e afirmam que adaptações progressivas nos permitirão superar as limitações de recursos indefinidamente (Nekola et al. 2013).

Se eles estão corretos ou não, saberemos num futuro próximo, quando atingiremos a massa crítica em nossa utilização de recursos como água doce, frutos do mar, terras agrícolas, e combustíveis fósseis. Isso parece terrível, mas da perspectiva da Cornucópia essa massa crítica de pessoas é essencial para inovar, superar nossas limitações atuais e avançar.

Mas a perspectiva da Cornucópia e a da MDD não são necessariamente excludentes.

Burger aponta que a abordagem da MDD na verdade incorpora a perspectiva da Cornucópia ao reconhecer que avanços tecnológicos nos permitem continuar a avançar limites ambientais. Mas Burger também alerta que “o escopo das grandes inovações necessárias para manter trajetórias globais em população e economia está atingindo retornos cada vez menores enquanto avançamos contra limitações em escala global”. Apenas o tempo revelará o resultado. Mas enquanto isso, a pesquisa em macroecologia humana nos manterá informados sobre a dinâmica evolutiva e ecológica dos processos em questão.

As ideias obtidas pela aplicação da ecologia para a socioeconomia humana são fascinantes e às vezes perturbadoras.

Pesquisadores descobriram paralelos chocantes entre as necessidades energéticas de economias humanas e o metabolismo biológico (Brown et al. 2011), implicações econômicas para as leis da termodinâmica (Burnside et al. 2012; Burger et al. 2012), e implicações de interações fundamentais entre a limitação de recursos e a inovação Darwiniana/evolução cultural (Nekola et al. 2013). As tendências que essas pesquisas revelam continuamente – a super-exploração massiva de recursos a taxas insustentáveis – são muito sérias.

Burger, por exemplo, aponta que a pesquisa da macroecologia indica que para a população humana global se estabilizar (alcançando crescimento populacional zero, ou ZPG), o mundo inteiro deve alcançar o consumo de energia per capita dos países mais desenvolvidos. Imagine todas as pessoas da África, da Ásia, da Índia, do Brasil, e assim por diante, queimando recursos à taxa de um americano médio antes que nossa população finalmente se estabilize. Não há energia disponível para sustentar uma população de sete bilhões – muito menos de 10 bilhões – com padrões de vida comparáveis aos dos Estados Unidos. 

Além disso, Burger aponta que a pesquisa macroecológica demonstrou que “previsões da ONU sobre o crescimento populacional são otimistas em excesso”, o que significa que a depleção progressiva de recursos “fornece desafios formidáveis para alcançar a ZPG na ausência de um rígido controle populacional regulado pelo governo”. Em outras palavras, não temos os recursos necessários para atingir a ZPG por meio da relação natural entre consumo energético e crescimento populacional, o que significa que uma aguda crise de escassez energética ocorrerá muito antes de conseguir parar de adicionar cada vez mais humanos na conta global todos os anos.

O conceito de macroecologia humana ainda tem que alcançar a consciência ou apreço do público, mas os problemas em questão não podem ser abordados sem esforços coesivos envolvendo duas formas de integração intelectual: conectar disciplinas científicas e também entre cientistas e legisladores.

Representantes científicos como os Ehrlichs já mostraram apoiar a abordagem (Ehrlich & Ehrlich 2013). Ideias macroecológicas sobre a trajetória da sociedade humana, incluindo como populações crescerão e se sustentarão, vão se tornar cada vez mais importantes conforme populações continuam a florescer e tendências climáticas continuam a mudar. Está se tornando cada vez mais aparente que a saúde e o bem estar tanto da população quanto da natureza estão inextricavelmente conectados.

Esses problemas são altamente relevantes para a vida de cientistas e não-cientistas, e o campo da macroecologia está na vanguarda da pesquisa sobre problemas criticamente importantes com vastas implicações para o ambiente, a saúde humana e a estabilidade política. Ações são necessárias tanto por parte de cientistas quanto da sociedade para encontrar soluções que permitirão que nossa espécie persista e prospere enquanto minimiza danos ambientais ainda maiores.

Fontes citadas:

 Brown, J. H., W. R. Burnside, A. D. Davidson, J. P. DeLong, W. C. Dunn, M. J. Hamilton, et al. 2011. Energetic limits to economic growth. BioScience 61:19–26.

 Burger, J. R., C. D. Allen, J. H. Brown, W. R. Burnside, A. D. Davidson, T. S. Fristoe, et al. 2012. The Macroecology of sustainability. PLOS Biology 10:e1001345.

 Burnside, W. R., J. H. Brown, O. Burger, M. J. Hamilton, M. Moses and L. M. A. Bettencourt. 2012. Human macroecology: linking pattern and process in big-picture human ecology. Biological Reviews 87:194–208.

 Daly, H. E. 2005. Economics in a full world. Scientific American 293:100–107.

Ehrlich, P. R. and A. H. Ehrlich. 2013. Can a collapse of global civilization be avoided?Proceedings of the Royal Society B 280:20122845.

 Mace, G. M. 2012. The limits to sustainability science: ecological constraints or endless innovation? PLOS Biology 10:e1001343.

 Matthews, J. H. and F. Boltz. 2012. The shifting boundaires of sustainability science: Are we doomed yet? PLOS Biology 10:e1001344.

 Nekola, J. C., C. D. Allen, J. H. Brown, J. R. Burger, A. D. Davidson, T. S. Fristoe, et al. 2013. The Malthusian-Darwinian dynamic and the trajectory of civilization. Trends in Ecology & Evolution 1643.

 Imagens: Curva populacional de census.gov; Tóquio por LuxTonnerre

 

Texto da Imagem:População global, em bilhões