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Mãe polvo estabelece tempo de choca recorde

Fêmea de polvo de mar profundo cuidou de seus ovos durante mais de quatro anos 

 

© 2007 MBARI
Por Katherine Harmon Courage

Essa dedicada criatura de águas profundas agora é detentora do recorde mundial do desenvolvimento mais longo de ovos. Uma fêmea da espécie Graneledone boreopacifica foi observada ao largo da costa californiana cuidando de seus ovos ininterruptamente por 53 meses, ou quase quatro anos e meio.

Isso ofusca a recordista de cuidados pré-natais anterior, a salamandra alpina, que carrega sua prole dentro do corpo durante até quatro anos. A maioria dos animais ovíparos cuida de seus ovos por um período de tempo muito mais curto. O peixe-recordista, o Harpagiger bispinis, da família Harpagiferidae, por exemplo, fica apenas de quatro a cinco meses em cima de seus ovos.

Antes das novas observações do cefalópode da Califórnia, o polvo que confirmadamente chocou seus ovos por mais tempo — 14 meses — foi uma fêmea da espécie Bathypolypus arcticus mantida em um laboratório.

“Claro que ficamos surpresos”, declara Bruce Robison, um biólogo sênior do Instituto de Pesquisa do Aquário da Baía de Monterey (Monterey Bay Aquarium Research Institute) e coautor do artigo divulgado em 30 de julho na publicação científica PLoS ONE. “Os resultados que registramos excederam substancialmente as expectativas de todos”.

“Isso supera de longe as minhas expectativas, que eram ‘longas’”, admite Janet Voight, uma curadora associada do The Field Museum, em Chicago, que vem estudando polvos de mar profundo há décadas. 

Em geral, esses moluscos não são animais que chocam por muito tempo. A maioria dos octópodes de águas rasas eclode em poucos meses, possivelmente porque depois de desovar uma fêmea fica atenta 24 horas por dia, setes dias por semana, cuidando e limpando os ovos até eles eclodirem.

“Ela estará lá, ‘cara’”

Em abril de 2007, Robison e seus colegas estavam fazendo um levantamento de rotina no Monterey Canyon, ao largo da costa da região central da Califórnia, explorando o ambiente marinho a 1.397 m abaixo da superfície com um veículo submersível operado remotamente (ROV, na sigla em inglês), quando encontraram um polvo solitário da espécie G. boreopacifica.

No mergulho seguinte, em maio, eles voltaram a avistar a mesma fêmea, marcada por cicatrizes distintas. Mas dessa vez ela tinha uma ninhada de ovos.

A equipe retornou ao local 18 vezes durante os quatro anos e meio seguintes, invariavelmente encontrando o mesmo polvo, no mesmo lugar, guardando a mesma coleção de ovos. Como quase todos os polvos desovam apenas uma vez durante suas vidas e como os pesquisadores monitoraram o crescimento desses ovos com medições a laser, a equipe ficou convencida de que estava assistindo ao desenvolvimento muito lento de um único conjunto de ovos.

Foi só depois de 40 meses, por exemplo, que os pesquisadores conseguiram discernir a forma dos polvos que cresciam nos ovos.

Toda vez que a equipe lançou o ROV ao mar para pesquisar, “cientistas e pilotos a bordo do navio especulavam sobre se ela ainda estaria lá ou não”, relembra Robison. “À medida que os meses foram passando os cientistas ficaram mais céticos. Os pilotos, por outro lado, tinham mais confiança, [e diziam], ‘ela estará lá, cara’”.

Definhando

Durante o longo período de choca, a fêmea, que no começo tinha uma pele texturizada, de cor violeta, foi adquirindo uma coloração esbranquiçada, pálida, perdendo tônus muscular e desenvolvendo olhos opacos — sinais de senescência, o rápido processo de envelhecimento que precede a morte natural de um polvo.

Ao longo dos muitos mergulhos, no entanto, Robison e sua equipe nunca viram a fêmea abandonar seus ovos. “É até possível que ela não se alimentasse”, pondera Voight. O animal pode ter se mantido vivo por meio de um metabolismo muito lento, graças à água fria e à inatividade.

Certa vez, os pesquisadores até tentaram lhe oferecer um pedaço de caranguejo para ver se ela o aceitaria. Ela não quis. “Por fim, quando ficou extremamente magra (macilenta) e com uma aparência muito frágil, até a tripulação do navio se amontoava na sala de controle para ver se ela ainda estava pendurada ali”, conta Robison.

A última vez que a equipe viu a fêmea de G. boreopacifica foi em setembro de 2011. No mês seguinte, só havia restos esfarrapados dos invólucros dos ovos, prova de uma eclosão bem-sucedida. “No mergulho final, quando descobrimos que ela tinha sumido, a reação de todos foi de alívio diante do fato de que sua longa provação havia acabado, e uma sensação de pesar por que não a veríamos novamente”, confessa Robison.

Uma estratégia diferente

Em comparação com polvos de águas rasas, que muitas vezes depositam milhares de ovos minúsculos que eclodem em chamadas paralarvas “planctônicas” (cefalópodes jovens em estágios entre recém-eclodidos e subadultos), essa fêmea parecia ter apenas cerca de 160 ovos grandes, que cresceram até aproximadamente 3,3 centímetros.

Os polvos G. boreopacifica se destacam como os mais altamente evoluídos de todas as espécies conhecidas de polvos, Voight descreveu em um artigo há uma década.

Apesar de suas diferenças em relação à maioria dos outros polvos, essa estratégia reprodutiva “parece estar funcionando em vista do sucesso da espécie”, argumenta Robison. Como polvos de mar profundo vivem em grandes profundidades, essa espécie é vista com relativa frequência durante mergulhos de ROVs em desfiladeiros ou cânions escarpados no fundo do oceano.

O prolongado período de choca também sugere uma vida relativamente longa para essa espécie, uma raridade quando a maioria dos polvos vive apenas um ano ou dois. “As observações [nesse caso] constituem um excelente ponto de referência para entender longevidade e história da procriação”, salienta Eric Hochberg, curador emérito do Museu de História Natural de Santa Barbara, na Califórnia.

Hochberg observou espécies desconhecidas de Graneledone chocando “bolas de ovos”, com mais ou menos 80 unidades grandes, entre seus tentáculos. Dado ao tamanho desses ovos e às baixas temperaturas da água, ele sugere que essas e outras espécies também podem chocar seus ovos por mais de quatro anos.

Suas histórias reprodutivas podem reservar mais surpresas. “Ainda há muito a aprender sobre a história de vida dos cefalópodes de mar profundo”, enfatiza Hochberg.

 

Sciam 30 de julho de 2014

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