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Maioria dos casos de câncer aconteceria por "má sorte"

Ambiente e hereditariedade seriam fatores menos relevantes do que pesquisadores acreditavam

Shutterstock
Foi o estudo que gerou centenas de refutações científicas, insinuações de que os autores tinham sido pagos pela indústria química e acusações de que era um "enorme" truque "escondido atrás de números extravagantes de qualidade duvidosa".

A alegação que provocou controvérsia? A de que a "má sorte", mais do que fatores ambientais ou genes herdados, influenciará o eventual desenvolvimento de câncer, o que significaria que vários esforços preventivos, desde abandonar o cigarro até efetuar modificações ambientais, seriam, em grande parte, sem sentido.

Agora, os autores do artigo original de 2015 estão de volta. Em um estudo publicado em fevereiro na revista Science, eles redobram suas apostas em sua descoberta original, mas também trabalham pesado para corrigir interpretações incorretas dos resultados que se espalharam. Dessa vez utilizando registros de saúde de 69 países, eles concluíram que 66% das mutações genéticas causadoras de câncer surgem da “má sorte” de uma célula saudável que, ao se dividir, comete um erro aleatório durante o processo de cópia do seu DNA.

Os cientistas se empenham em tentar explicar que isso não significa que 2/3 dos cânceres não possam ser prevenidos. Contudo, entender o papel desses erros aleatórios “poderia dar conforto aos milhões de pacientes que desenvolveram câncer mesmo levando estilos de vida [saudáveis] quase perfeitos”, diz o biólogo de câncer Bert Vogelstein, da Universidade Johns Hopkins, e autor sênior tanto do estudo original quanto do novo. “Isso é particularmente verdade para pais de crianças que possuem câncer”, e podem colocar a culpa da tragédia nos genes que eles passaram a seus filhos ou no ambiente que proporcionaram a elas, ele diz.

“Eles fizeram [o trabalho] direito dessa vez”, diz Otis Brawley, médico chefe da Sociedade Americana do Câncer, sobre os autores. “No seu primeiro artigo, chatearam aqueles que defendem a prevenção do câncer e deixaram muitas pessoas confusas”, dando a impressão de que a maioria dos casos está fora do alcance da prevenção. “Mas uma pessoa sensata pode ler este novo [texto] e pensar que a prevenção não é inútil”.

Outras pesquisas mostraram que cerca de 42% dos cânceres podem ser evitados ao, por exemplo, não fumar, manter um peso saudável e não se expor a poluentes causadores de câncer.

Entretanto, nem todos os críticos do primeiro artigo foram tocados. “Não estou muito impressionado com a conclusão geral”, diz Yusuf Hannun, diretor do Centro de Câncer Stony Brook, que liderou um estudo de 2015 mostrando que a grande maioria dos cânceres aconteciam devido a fatores externos, não a erros aleatórios na cópia de DNA.

O estudo original sobre “má sorte”, assim como o novo, comparou como taxas de câncer em diferentes tecidos se relacionam com a frequência na qual células saudáveis desses tecidos - pulmão, ossos, cérebro e outros - se dividem.

Eles encontraram uma correlação bastante próxima. Células do intestino grosso se dividem frequentemente, e 5% das pessoas desenvolvem câncer neste tecido. Células do intestino delgado se dividem raramente, e apenas 0,2% das pessoas desenvolvem câncer lá. Já que a divisão celular nem sempre copia o DNA perfeitamente, cada divisão é uma oportunidade para uma mutação causadora de câncer surgir; mais divisões, mais cânceres, argumentou a equipe da Universidade Johns Hopkins.

No geral, descobriram que cerca de 2/3 da diferença de taxas de câncer de um tipo de tecido para o outro se deve a diferenças nas taxas de divisão celular nesses tecidos. Essa conclusão se assemelha à de seu estudo anterior, feito apenas nos EUA, e foi realizada para todos os 17 tipos de câncer e todos os 69 países analisados.

Isso não significa, porém, que 2/3 dos cânceres sejam causados por erros aleatórios na cópia de DNA. A taxa alta ou baixa de divisões celulares representa 2/3 das diferenças nas taxas de câncer de um tipo de tecido para outro.

Por exemplo, a “causa” da existência dos Himalaias é o choque entre placa tectônica indiana e euroasiática. Isso produziu mais de uma dúzia de picos com mais de 7.900 metros. Mas a diferença entre os 8.610 metros da K2 e os 8.090 metros da Annapurna é, em parte, devido a fatores aleatórios, da erosão pelo vento ao ângulo do extrato da rocha subjacente a cada montanha.

De maneira similar, fatores ambientais podem ser a causa de muitos cânceres. Contudo, a diferença nas taxas de câncer em diferentes tecidos pode, ainda assim, ser o resultado de diferentes taxas de divisão celular. É isso o que os esses cientistas descobriram.

Um avanço importante no novo artigo é sua análise de genomas cancerígenos em uma base de dados do Reino Unido para classificar a origem das mutações causadoras da doença: ambiente, hereditariedade ou esses erros aleatórios na cópia de DNA. “Essa é a primeira vez que alguém olhou para as proporções de mutações no câncer e as atribuiu a algo” a alguma das categorias, diz Cristian Tomasetti, matemático da Universidade Johns Hopkins.

Concluídos os cálculos, os pesquisadores concluíram que os erros de cópia de DNA são responsáveis por 66% das mutações, enquanto 29% acontecem devido a fatores ambientais e 5% à hereditariedade. Diferentes tipos de câncer diferem significativamente: eles calculam que ao menos 60% das mutações que provocam câncer de pele e pulmão são devidas ao meio ambiente, comparadas com 15% ou menos nos cânceres de próstata, osso, cérebro e mama.

Quando do artigo anterior, os cientistas geraram controvérsia para uma inferência que fizeram a partir da descoberta sobre a "má sorte". Se tantos cânceres surgem de erros causados pelas células quando elas se dividem, então reduzir a exposição a compostos causadores de câncer, como aqueles em cigarros ou agentes cancerígenos no local de trabalho não ajudaria muito, argumentaram.

Mas uma coisa não implica na outra, dizem outros especialistas em câncer. Diversas mutações são necessárias para o câncer. Portanto, se duas das três mutações necessárias surgem de erros de cópia, mas a terceira vem de um cancerígeno no ambiente, então evitar esse cancerígeno previne o câncer.

Dessa vez, a equipe da Universidade Johns Hopkins concorda. Há uma diferença entre como as mutações causadoras de câncer acontecem e se esse câncer pode ser prevenido ou não, eles reconhecem. Por exemplo, 65% das mutações nos cânceres de pulmão surgem aleatoriamente, mas 89% dos cânceres são preveníveis ao se evitar o cigarro, diz Tomasetti.

Os críticos argumentam que os efeitos ambientais no câncer não se limitam às mutações, nos quais, o que acarretaria um papel maior para a prevenção. Se algumas células malignas formarão um tumor perigoso ou não dependerá, entre outras coisas, dos níveis de inflamação, insulina e obesidade. Essas influências não aparecem em análises genômicas como aquelas que os pesquisadores da Universidade Johns Hopkins fizeram, mas são afetadas por fatores ambientais e de estilo de vida, diz Ross Prentice, renomado bioestatístico do Centro de Câncer Fred Hutchinson em Seattle.

“Fatores ambientais podem influenciar o risco de câncer de vários formas”, diz ele, incluindo a ação de células para reparar as mutações causadoras de câncer e a eficácia do sistema imune para destruir as células tumorais antes que elas causem, de fato, a doença.

 

Sharon Begley, STAT

Republicado com permissão da STAT. Esse artigo foi publicado originalmente em 23 de março de 2017
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