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Informática ajuda a rastrear surto de ebola na África

Websites devoram pilhas de informações relativas à doença

Cortesia de HealthMap
WIKISURTO: O algoritmo de processamento automatizado de textos do HealthMap rastreia o surto de Ebola desde meados de março.
Por Larry Greenemeier

Oficiais de saúde e trabalhadores voluntários que tentam rastrear a progressão do surto de Ebola, que já provocou mais de 2.800 mortes até agora, começaram a fazer grande uso de alguns websites de monitoramento de doenças que agem como centros essenciais de processamento de informações.

Sites diferentes servem a funções ligeiramente diferentes, mas a maioria administra o excesso de dados criado por incontáveis artigos, feeds de mídias sociais, relatórios médicos e relatos enviados por email.

Esses sites usam uma combinação de software de inteligência artificial e trabalho humano para rastrear, relatar e mapear informações relacionadas a crises de saúde pública, frequentemente mais rápidas que as respostas governamentais e de observadores internacionais.

Um desses sites, o HealthMap, usou esse modelo híbrido para identificar sinais do emergente problema do Ebola dias antes da Organização Mundial da Saúde (OMS) publicar seu primeiro relatório.

O algoritmo de processamento automatizado de textos do HealthMap rastreia o surto de Ebola desde 14 de março, quando o site de notícias Africaguinee.com relatou “uma estranha febre” no distrito de Macenta “marcada por sangramentos anais e nasais”.

Dentro de de alguns dias o HealthMap já tinha identificado um relatório do site de notícias Standard Digital indicando que a “misteriosa febre hemorrágica” já atingira dúzias de vítimas.

O médico encarregado do ministério da saúde da Guiné afirmou que o Ebola era considerado o agente causador, ainda que esses fossem os primeiros casos registrados do vírus no país.

Autoridades logo reduziram a causa ao Ebola ou a uma doença relacionada, conhecida como febre hemorrágica de Marburg. Em 22 de março, um site de notícias da Nigéria chamou a atenção do HealthMap com um artigo que combinava as palavras “Ebola” e “surto”.  

Organizando Ajuda

O Programa de Informática do Children’s Hospital lançou o HealthMap em 2006 como forma de usar a quantidade cada vez maior de recursos digitais – a Internet, feeds RSS e listas de emails, para citar alguns – para organizar informações sobre doenças emergindo em todo o mundo em um Google Map.

O HealthMap destacou o atual surto de Ebola por várias razões – especialmente porque ele se espalhou da Guiné para a Libéria, Serra Leoa e vários outros países vizinhos.

O HealthMap automatiza a aquisição de dados, filtrando e caracterizando informações para que fluam da fonte original até a página da web sem qualquer intervenção humana.

Ao mesmo tempo, os especialistas em doenças infecciosas e saúde pública do site revisam esse conteúdo para corrigir e refinar as classificações automatizadas, explica Clark Freifeld, desenvolvedor de software de pesquisa do Programa de Informática do Children’s Hospital.

Os analistas garantem, por exemplo, que as estatísticas de infecções e mortes que o site publica têm a maior precisão possível, algo que softwares têm dificuldade de fazer já que diferentes fontes de informação relatam números diferentes em períodos diferentes. “Nós temos a capacidade técnica para tornar a postagem de informações mais fácil”, adiciona ele, mas “nossa abordagem sempre incluiu um ser humano no sistema”.

Ainda que essa não seja a primeira grande crise de saúde acompanhada pelo HealthMap – a pandemia de gripe H1N1 de 2009 foi um de seus maiores trabalhos – o surto de Ebola levou o site a novas direções em uma tentativa de fornecer informações para várias instituições, incluindo a OMS, as Nações Unidas e os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos.

Atualmente, o HealthMaps consegue processar dados de dezenas de milhares de páginas da web por hora em 15 idiomas diferentes. Além disso, na segunda-feira o HealthMap divulgou uma projeção de como o surto de Ebola pode evoluir nos próximos meses.

Essa foi a primeira vez em que o site tentou prever a disseminação de uma doença.

Olhando Adiante

A ferramenta de modelagem para projeções de surtos de curto prazo do HealthMap pode filtrar dados por país e levar em conta diferentes cenários de controle.

A ferramenta propriamente dita, que projeta o pior cenário possível com 14.176 casos de Ebola na Guiné, Libéria e Serra Leoa até 26 de outubro, atualmente se baseia em um modelo desenvolvido por uma equipe de pesquisadores médicos e de saúde pública sediados em Toronto, ainda que o HealthMap possa tentar outros métodos no futuro, observa John Browstein, cofundador do HealthMap e professor associado de pediatria de Escola Médica de Harvard.

O modelo de Toronto é uma abordagem matemática para rastrear a expansão e surgimento de surtos – conhecida como Decaimento de Incidência e Ajuste Exponencial (IDEA, em inglês) – que considera fatores que podem desacelerar o crescimento epidêmico.

Esses fatores podem incluir o isolamento mais adequado de vítimas do Ebola, ou a chegada de ajuda internacional.

De acordo com pesquisadores, o IDEA é bem adequado para fornecer avaliações rápidas do crescimento de surtos e intervenções de saúde pública. “[O modelo] é mais uma série temporal em que aplicamos modelagem para derivar estimativas de casos futuros”, explica Brownstein.

Os algoritmos do HealthMap para rastrear a progressão de um surto separam dados em uma de cinco categorias: notícias urgentes, alertas sobre possíveis condições de surto, referências a surtos passados, pesquisas e outras informações contextuais e eventos sem relação com qualquer surto.

 Esses filtros são “um componente fundamental do sistema, e especialmente úteis quando vemos grandes volumes de dados ao redor de surtos altamente visíveis”, observa Freifeld.

 

Wikidoenças

O site tem um excelente processamento de línguas, destaca Larry Madoff, fundador e editor do Programa para Monitoramento de Doenças Emergentes (ProMED, em inglês), uma lista global de emails que recebe e resume relatórios sobre surtos de doenças e que foi uma das primeiras fontes de dados do HealthMap.

“Eles conseguem absorver nossos relatórios com uma precisão razoável e colocá-los em um mapa”, elogia ele, adicionando que o HealthMap ajudou a automatizar o que o ProMED já fazia desde 1994.

O algoritmo do HealthMap afere a importância das informações com base principalmente na frequência com que o mesmo material aparece em fontes diferentes, ainda que ele não avalie as informações com base na fonte propriamente dita, seja ela um artigo do New York Times ou um boletim de um ministério da saúde local.

O site não julga a credibilidade de suas fontes, aponta Freifeld. Em vez disso, adiciona ele, o HealthMap segue a lógica de que eventos significativos tendem a receber múltiplos relatórios de várias fontes.

Quando se tornou claro há alguns meses que o surto de Ebola estava piorando e não seria contido tão cedo, a equipe do HealthMap desenvolveu uma interface com linha do tempo para melhor organizar e visualizar seus relatórios. “Nós não sabemos quantas pessoas teriam previsto que o surto seria tão ruim”, declara Brownstein.

A linha do tempo do surto de ebola de 2014 inclui mais de 130 entradas e já teve mais de um milhão de visualizações desde que foi publicada, em meados de julho.

Brownstein descreveu o HealthMap como sendo “quase como a Wikipedia das doenças infecciosas emergentes” em um artigo publicado online em Scientific American, em março de 2010.

O HealthMap funciona por ser “um sistema conduzido por humanos, mas baseado na Internet”, resume Madoff, adicionando que “ele é parte rede social, parte serviço de notícias”.

O HealthMap não é o único site de fiscalização de doenças infecciosas.

Além de sites mais novos como o Google Flu Trends, existem mais esforços estabelecidos como o ProMED e a Rede Global de Inteligência em Saúde Pública (GPHIN), desenvolvida pelo Health Canada em colaboração com a OMS em 1997.

O software da GPHIN recupera artigos relevantes a cada 15 minutos dos agregadores de feeds de notícias Al Bawaba e Factiva com base em buscas específicas que o site atualiza regularmente, de acordo com o site WebMD Medscape.

Além de artigos selecionados por software, a base de dados GPHIN conta com publicações de analistas humanos que vasculham sites de acesso aberto em busca de informações relevantes de saúde pública.

Esses e outros sites de monitoramento de doenças fornecem um sistema crucial de alertas preventivos que disponibilizam informações ao público assim que elas se tornam disponíveis, explica Madoff.

Pensando no início da conscientização sobre a AIDS nos anos 80, a doença se originou 20 ou 30 anos antes de chegar aos Estados Unidos e chamar a atenção do mundo, comenta ele, concluindo: “É difícl de acreditar que isso poderia acontecer agora”.

 Scientific American 24 setembro 2014