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Marfim ilegal vem, em sua maior parte, de elefantes mortos recentemente

Estudo sugere que governo não está utilizando presas antigas para alimentar o comércio

Shutterstock

O comércio ilegal de marfim é quase totalmente abastecido por elefantes que foram mortos recentemente, dizem pesquisadores que dataram com carbono centenas de presas de marfim apreendidas por funcionários do governo a serviço da lei.   

"Isso coloca um fim na especulação que há muito nos intriga,” diz  George Wittemyer, ecologista de conservação e especialista em elefantes da Universidade Estadual do Colorado em Fort Collins. Alguns se perguntavam se governos corruptos não estariam contribuindo para o comércio de marfim mediante a venda de marfim antigo, feita aos poucos, graças a um estoque construído ao longo dos anos. Agora, conservacionistas podem concentrar seus recursos na proteção dos elefantes de caçadores, ele diz, no lugar de se preocuparem tanto em combater a corrupção governamental.

 

Thure Cerling, da Universidade de Utah em Salt Lake City, e seus colegas mediram a decomposição dos isótopos de carbono-14 em 231 presas de marfim confiscadas entre 2002 e 2014, para determinar quando os elefantes dos quais elas foram arrancadas morreram. De acordo com a análise, publicada em 8 de novembro na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences, apenas quatro espécimes possuíam mais de 5 anos de idade quando foram apreendidos.

 

Combinando os valores medidos com uma análise prévia do DNA das presas, os pesquisadores puderam descobrir onde os elefantes caçados viviam. No leste da África, a maior parte das presas apreendidas veio de elefantes mortos havia menos de um ano. O marfim da parte central da África, por outro lado, tinha em média mais de dois anos.

 

“Isso faz sentido”, diz Tom Milliken, da rede de monitoramento da vida selvagem, Traffic, localizada em Cambridge, Reino Unido. A rede de estradas no leste da África é muito melhor do que a da na região central ou do oeste: assim, caçadores podem levar as presas para o litoral mais rapidamente, de onde serão enviadas de navio para a Ásia, ele explica. O estudo confirma o que muitos pesquisadores já esperavam; mas, ainda sim, acrescenta Milliken, ele é bem-vindo. “Ajuda-nos a entender as dinâmicas fundamentais do tráfico de marfim.”

 

Como o preço do marfim subiu durante a última década — particularmente nos leilões do leste asiático — a população de elefantes da África diminuiu, caindo de 526.000 para 415.000 entre 2006 e 2015, de acordo com o último Relatório sobre o Estado do Elefante Africano da União Internacional para a Conservação da Natureza.Só a Tanzânia perdeu 60% dos seus elefantes nos últimos três anos por conta da caça, afirma Milliken.

Países africanos estão fortalecendo as medidas protetivas: a Tanzânia, por exemplo, aumentou as penas por caça e tráfico de marfim e processou traficantes de marfim em larga escala, aplicando longas sentenças de prisão. Outros lugares, como a China, introduziram restrições ao comércio de marfim no ano passado, e delegados, em uma reunião da Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Flora e Fauna Selvagens em Perigo de Extinção (CITES), realizada no mês passado, votaram a favor de um acordo não vinculativo para fechar o resto dos mercados internos legais de marfim.

Mas ainda é incerto se essas medidas diminuirão a caça. “Tenho certeza de que ainda não estamos fora de perigo,” afirma Milliken.

 

Brigitte Osterath  
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