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Martin Rees outros cientistas famosos reagem à vitória de Trump — PARTE 2

O que as eleições significam para a ciência, em respostas sinceras do Conselho da Scientific American

Bret Hartman
Martin Rees. Crédito: Bret Hartman, sob licença Attribution-NonCommercial 2.0 Generic

Na semana passada, os Estados Unidos da América elegeram o empresário e estrela de reality show, Donald Trump, como seu  45º presidente. Como a Scientific American reportou durante toda a campanha presidencial, as opiniões de Trump em relação à ciência, saúde e medicina parecem, na melhor das hipóteses, mal formadas, e, na pior delas, ignorantes e destrutivas. Para que se tenha ideia do que as maiores mentes da ciência, medicina e pesquisa estão pensando a respeito, nós pedimos para que o Conselho da Scientific American compartilhasse suas reações ao resultado das eleições. Os excertos, alguns editados por conta do tamanho, aparecem a seguir.

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O que há para ser dito? É especialmente assustador que não haverá separação dos poderes. Também é chocante (se os números estão certos) a porcentagem de mulheres (e homens) que votaram em Trump. E há a ciência, o clima, você escolhe… você tem de apenas imaginar.  

 — Lisa Randall, professora de física da Universidade Harvard

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O lado “positivo” dessa resultado é que a redução da pobreza talvez ganha prioridade maior na agenda da direita bem como na da esquerda. Mas deveria assustar a nós, europeus, a ponto de nos fazer desenvolver políticas pan-europeias mais fortes  bem-coordenadas para oferecer aos EUA como poder de compensação.

 — Martin Rees, Astrônomo Royal e professor de cosmologia e astrofísica emérito do Instituto de Astronomia da Universidade de Cambridge

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Essa administração talvez seja a menos simpática em relação à ciência —  e educação científica — em gerações. Um possível candidato para o Departamento de educação, Ben Carson, é um jovem criacionista. O vice-presidente eleito, Pence, apoiou legislações antievolucionárias em Indiana e chegou a chamar a evolução de não científica dentro da Câmara dos Deputados.  No Centro Nacional para Educação Científica, descobrimos que os criacionistas são mais encorajados a agir localmente ou em nível estadual quando a presidência os favorece —  mesmo que o governo federal tenha pouco ou nenhum papel na determinação das grades escolares locais. Os nomeados para o Departamento de Energia, Agência de Proteção Ambiental dos EUA, Institutos Nacionais de Saúde, Fundação Nacional de Ciência e outras agências provavelmente enfrentarão o mesmo problema e, claro, muitos membros da administração declararam rejeitar a mudança climática. Se eles e seus nomeados agirem segundo essa crença, acordos feitos com a China e outras nações pela administração atual estarão em risco — o que significa que o futuro do planeta está em risco. A ciência e a educação científica não vieram na frente nesta eleição.

 — Eugenie Scott, diretor executivo fundador do Centro Nacional de Educação Científica

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A ciência foi deixada de lado durante a campanha presidencial e teremos de esperar para ver as políticas científicas da nova administração com uma mente aberta.

 — Terry Sejnowski, professor e chefe de laboratório do Laboratório Computacional de Neurobiologia do Instituto Salk de Estudos Biológicos 

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Quando pareceu que Trump iria ganhar, a Dow caiu 800 pontos em transações feitas fora dos horários específicos, e especialistas previram que a quarta-feira representaria o maior colapso econômico desde o 11 de Setembro e da crise de 2008. Enquanto eu escrevo isso, a Dow subiu 265 pontos, e a Nasdaq, 43. É difícil fazer previsões, especialmente sobre o futuro, principalmente sobre eleições e economia. Feita essa ressalva, eu prevejo:

Os mercados ficarão bem e o crescimento econômico continuará estável e talvez até cresça entre 0,5 e 1% em 2017.

De jeito nenhum construiremos um muro na fronteira mexicana (e os canadenses não construirão uma que nos bloqueie!).

Não mudaremos nossas políticas nucleares, não adotaremos uma política de “não primeiro uso” (como o Obama também não fez), e iremos passar os próximos quatro anos sem usar armas nucleares.

A Coreia do Norte… ah, quem diabos sabe o que aquele maluco fará, mas provavelmente nada mudará e, eventualmente, o país parará de funcionar devido à economia falha, e a Coreia do Norte e do Sul se unirão de novo, do mesmo jeito que as Alemanhas Oriental e Ocidental.  

Putin hesitará em desafiar a Otan ou tomar mais territórios na Europa oriental.  

O ISIS será completamente exterminado antes do fim de 2017, mas o terrorismo global não, já que nenhum presidente ou governo poderá reduzi-lo a zero, mas ele continuará a falhar como modo de exigir mudança política.

As tensões no Oriente Médio continuarão como fizeram desde que eu estava na faculdade e votei pela primeira vez em 1972. Algumas coisas nunca mudam.

Fiquem calmos, pessoal. Nós temos uma república forte e continuaremos a crescer. Nós temos muitos freios e contrapesos nos lugares certos para prevenir ações extremas vindas de qualquer parte, e, como o Presidente Obama vem reiterando ao longo deste último ano para os pessimistas que acham que as coisas estão ruins, esta é e continuará a ser a melhor época que já houve para estar vivo.

 — Michael Shermer, editor da revista Skeptic; colunista mensal da Scientific American; Presidential Fellow na Universidade Chapman; autor de “The Moral Arc”

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O avanço da ciência transcende fronteiras partidárias e é fundamental para a saúde humana, e um alicerce dos avanços tecnológicos e econômicos dos  EUA. Esperançosamente, isso continuará como é com a nova administração. Ainda que esteja havendo um aumento do nacionalismo ao redor do mundo, acredito que seja importante manter a abertura internacional da ciência, suas colaborações e benefícios para benefício de todos.  

— Michael Snyder, professor de genética da Escola de Medicina da Universidade Stanford

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As questões principais são se Trump e Pence irão 1) apoiar a pesquisa científica como um núcleo da engrenagem econômica e competitividade americana e  2) utilizar os resultados científicos na hora de criar políticas.

A retórica da campanha indica um “não” implícito como resposta para as duas perguntas, mas o desejo de se sair bem na promessa da campanha de promover nossos interesses econômicos indica que deveriam.

 

— Michael E. Webber, codiretor do Clean Energy Incubator e professor associado do Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade do Texas em Austin

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Levou duas décadas para os EUA irem de obstrucionistas para líderes do clima, e apenas uma temporada ruim para jogar isso fora. Agora, veremos se somos realmente uma nação que segue leis e processos, ou se somos tão fracos como tendemos a caracterizar algumas ditaduras.

Estou com vergonha da minha geração e tendo problemas para enfrentar uma geração mais nova que possui perguntas básicas sobre nosso egoísmo.

 

Se existe um “lado positivo”, é que somos uma nação de instituições fortes e agora veremos se nossos ideais darão conta do recado. Meu estado, a Califórnia — pouco popular entre os eleitores de Trump —, oferece uma perspectiva esperançosa.

 

O problema hoje é que os EUA realmente atingiram seu maior ponto de progresso em relação ao clima e, embora longe do ideal, ainda era progresso. Agora, defensores da sustentabilidade, igualdade e parceria intra e internacional precisam escolher suas ferramentas novamente, mas sem o luxo do tempo.

 

Acima de tudo, essa nova estratégia de integração precisa evoluir rapidamente, e deve encontrar aspectos em comum com o eleitorado cheio de pessimismo, raiva e tristeza que levou Trump à vitória.

 

O que a Califórnia — e o Marrocos, Quênia, Dinamarca, Bangladesh, Vaticano, Alemanha, Nicarágua e outros— oferecem são exemplos imperfeitos, mas muito reais que mostram que nossa energia e sistema material podem evoluir muito mais rapidamente do que se pensava anteriormente. Isso requer uma tecnologia que evolua de maneira estável. Mas mais importante é o desenvolvimento de um plano coerente.

 

O que acabamos de fazer foi roubar do futuro das nossas crianças — e, pessoalmente, do futuro das minhas duas filhas amadas.

 

— Daniel Kammen, fundador e diretor do Laboratório de Energia Apropriada da Universidade da Califórnia, em Berkeley

 

 

 


Andrea Gawrylewski 


 

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