Notícias
05 de junho de 2008
Mau tempo torna o dia mais longo
Fortes correntes de jato podem acrescentar ou subtrair microssegundos de um dia
 
Por Keren Blankfeld Schultz

Você sente que alguns dias parecem se arrastar, como se fossem mais longos que os outros? Essa sensação pode ser psicológica, mas a duração real do dia realmente oscila – por uma fração de milésimo de segundo.

A duração de um dia, que é definida pelo tempo necessário para a Terra girar uma vez em torno de seu eixo, pode ser medida com uma precisão de cerca de 10 microssegundos, ou 10 milionésimos de segundo. O ritmo rotacional da Terra depende da distribuição de massa por sua superfície. Isso inclui a agregação de gases agitados que abrangem a atmosfera, o próprio solo, o núcleo fluido do planeta e o oceano em movimento. Por exemplo, quando um grande terremoto desloca a massa do planeta, pode retardar ou acelerar o dia em até alguns milionésimos de segundo.

Na verdade, o terremoto ocorrido em Sumatra, na Indonésia, em dezembro de 2004, responsável pelo fatídico tsunami, deslocou tanta água que mudou levemente a forma de nosso planeta e acelerou sua rotação por 2,68 microssegundos, ou quase três milionésimos de segundo.

Essa mudança na velocidade rotacional, embora mínima, vem sendo observada há séculos. Em 1695, o astrônomo inglês Sir Edmund Halley (que também descobriu o cometa que leva seu nome) desenvolveu a hipótese de que a Lua estava acelerando em sua órbita. Na realidade, o movimento de rotação da Terra é que estava desacelerando, dando a impressão de que a Lua ganhava velocidade.
Desde então, cientistas vêm usando vários métodos para medir a rotação de nosso planeta, de dispositivos astronômicos, como o relógio de Sol, a satélites e observações lunares. E hoje em dia temos milhares de receptores de Sistema de Posicionamento Global (GPS), instalados pelos cientistas ao redor do mundo, que podem rastrear a orientação da Terra com uma margem de precisão de poucos milímetros, explica o geofísico Richard Gross, do Jet Propulsion Laboratory (JPL), da NASA, de Pasadena, Califórnia. O JPL mantém um banco de dados da rotação da Terra, com informações coletadas desde 1962.

Segundo Gross, os mais importantes processos que afetam a duração do dia são as mudanças no clima, em especial as variações incomuns na força e na direção dos ventos, responsáveis por alterações na circulação global da atmosfera e do oceano. Isso acontece principalmente com as vastas correntes de vento de alta altitude, conhecidas como correntes de jato, que resultam de diferenças de temperatura entre os trópicos quentes e as latitudes altas mais frias, e podem contribuir para encurtar ou acelerar o dia.

Talvez não seja de surpreender, então, que o aquecimento global possa realmente acelerar o dia, um fato observado pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas da ONU. Num estudo publicado pela Geophysical Research Letters em 2007, cientistas do Instituto Max Planck de Meteorologia em Hamburgo, Alemanha, estimaram que a redistribuição de massa resultante do aquecimento do oceano irá encurtar o dia em 120 microssegundos, ou quase um décimo de milésimo de segundo, durante os próximos dois séculos.

Essas mudanças – sejam elas causadas pelo aquecimento global ou por terremotos – permanecem pequenas demais para serem detectadas de maneira confiável atualmente, diz Gross. Afinal, há 86.400 segundos num dia de 24 horas e bilhões de microssegundos. Mesmo com o GPS, prever mudanças no comprimento do dia permanece tão difícil quanto fazer a previsão do tempo.

Em 17 de abril de 2008, por exemplo, o dia durou 1,1686 milésimos de segundo a mais que o normal. De acordo com Gross, o excesso varia: apenas alguns anos atrás, os dias eram cerca de três milésimos de segundo mais longos. E todos esses milésimos de segundo se acumulam: ao longo de um ano, os cientistas estimam que as flutuações acrescentem cerca de um segundo.

Mas não se preocupe, os cientistas estão de olho no fenômeno. O Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia em Boulder, Colorado, ocasionalmente acrescenta um “segundo bissexto” aos relógios atômicos usados para padronizar a hora. A mais recente dessas atualizações aconteceu em 1º de janeiro de 2006. Há bastante tempo para ajustar nossos calendários: “Se o excesso de duração do dia continuar a ser de cerca de 1,2 milésimo de segundo, outro segundo bissexto não será necessário por pelo menos três anos”, explica Gross.
© Duetto Editorial. Todos os direitos reservados.