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Micro-organismos são coadjuvantes na extração de petróleo

Um composto de bactérias específicas pode sobreviver e até ajudar na limpeza de resíduos de extração de petróleo e na recuperação do urânio de rejeitos nucleares

David Biello
Foto Eric Erbe/ Colorização digital Christopher Pooley.
Microrganismos poderão reduzir o impacto ambiental da produção de petróleo a partir das areias betuminosas, entre outras aplicações.
Aparentemente não há nada que os micro-organismos não possam fazer. Participam desde a fotossíntese até ciclos de vida que não precisam de luz solar, sobrevivem em ambientes extremos e resistem a bombardeios de radiação. Os micro-organismos mais radicais proliferam praticamente em qualquer lugar. E agora os microbiologistas acrescentaram duas habilidades ao arsenal microbiano relacionadas à energia.

No encontro da Sociedade Geral de Microbiologia ocorrido no início de setembro, Richard Johnson e outros cientistas da University of Essex apresentaram sua pesquisa, onde demonstraram que um ecossistema misto de bactérias específicas pode sobreviver em um dos ambientes mais letais criados pelo homem: resíduos da extração de petróleo de areias betuminosas. E, mais que isso, elas se encarregam da limpeza.

A extração e o refino desse óleo pesado produzem uma grande quantidade de lixo tóxico, em particular, água com ácido naftênico (um dos ingredientes secretos das bombas napalm). Na região de Athabasca, no Canadá ─ onde está localizada boa parte da indústria de extração de areias betuminosas ─ há pelo menos 1 bilhão de metros cúbicos de águas poluídas armazenadas em tanques.

Como atacar esse problema? Liberando bactérias, sugere Johnson. Os micro-organismos conseguem decompor o ácido naftênico em subprodutos menos tóxicos em poucos dias, o que leva dez anos ou mais em processos naturais. Essa descoberta pode diminuir o impacto ambiental da produção de petróleo a partir das areias betuminosas, cujas reservas são estimadas em 3,6 trilhões de barris (o dobro da quantidade conhecida de petróleo convencional).

Não foi mencionado, porém, um outro efeito associado: as mudanças climáticas provocadas pelos gases estufa emitidos quando o petróleo é queimado. Talvez os micro-organismos também possam ajudar nessa questão (afinal, foram responsáveis pela composição da atmosfera até o aparecimento dos seres humanos).

Os pesquisadores também descobriram que a Escherichia coli ─ mais conhecida por seu papel na contaminação de alimentos ─ é excelente na limpeza de outra fonte de energia potencialmente importante, porém letal: resíduos radioativos. Lynne Macaskie e seus colaboradores da Universidade de Birmingham apresentaram na mesma conferência um estudo que mostra como a Escherichia coli, aliada a uma substância química barata e facilmente obtida (fosfato de inositol), pode recuperar urânio de águas poluídas de minas.

Basicamente, a E. coli decompõe a substância liberando fosfato, que se liga ao urânio formando um precipitado no exterior da célula, que pode ser recuperado.
Os pesquisadores estimam que o urânio obtido dessa maneira custaria cerca de US$ 0,15 por grama. O processo também oferece uma vantagem ambiental, pois remove o material radioativo dos rejeitos de mineração. O processo poderia até ser empregado em combustível nuclear usado e outros resíduos nucleares.