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Alteração de dieta muda o microbioma intestinal rapidamente

Populações de bactérias no intestino são altamente sensíveis aos alimentos que digerimos

 

Instituto Nacional de Diabetes e Doenças Renais e Digestivas
A Enterococcus faecalis é uma bactéria que vive no intestino humano. 
Por Rachel Feltman

 Você é o que você come, e as bactérias que vivem em seu intestino também são.

Microbiólogos já sabem há algum tempo que dietas diferentes criam floras intestinais diferentes, mas pesquisas anteriores se concentraram em ratos em vez de humanos, deixando incerta a verdadeira relação entre nossos alimentos e as bactérias em nosso estômago.

Um novo estudo, publicado na Nature em 11 de dezembro, indica que essas mudanças podem acontecer de maneira incrivelmente rápida no intestino humano – dentro de três ou quatro dias após uma grande mudança no que você come.

“Nós descobrimos que as bactérias que vivem nos intestinos das pessoas respondem supreendentemente bem a mudanças na dieta”, conta Lawrence David, professor assistente do Instituto Duke para Ciências e Políticas Genômicas e um dos autores do estudo. “Em poucos dias o que nós vimos não foi apenas uma variação na quantidade de tipos diferentes de bactérias, mas também nos tipos de genes que elas estavam expressando”. (Scientific American é parte do Nature Publishing Group).

Eugene Chang, professor de medicina da University of Chicago especializado em gastroenterologia concorda que a velocidade é surpreendente. “Um dos principais pontos deste estudo é que essas mudanças começam a ocorrer em um intervalo de algumas horas, e não dias, semanas ou anos, como pensávamos anteriormente”, alerta Chang, que não se envolveu no estudo. Eles também observaram mudanças na quantidade de ácido biliar secretado no estômago, e descobriram que as bactérias que vivem em alguns alimentos – microorganismos usados para produzir queijos e curar carnes – são surpreendentemente resistentes, e colonizam o intestino junto com espécies que já estão em nosso microbioma.

Mas por que deveríamos nos preocupar com as criaturas que nos ajudam a digerir nossos alimentos? “A rapidez incrível dessa mudança é interessante”, comenta David, “por pelo menos duas razões:” A primeira é evolutiva. Essas mudanças rápidas, de acordo com ele, podem ter sido muito úteis para nossos ancestrais. Para caçadores e coletores, a dieta poderia ser alterada rapidamente e com pouca transição – semanas de castanhas e sementes poderiam ser rapidamente modificadas pela repentina chegada da carne, resultado de uma caçada bem sucedida – e a capacidade de mudar rapidamente o microbioma garantiria a absorção máxima de nutrientes até para os alimentos mais desconhecidos.

Para humanos modernos, a mudança rápida poderia ser menos adaptativa. Os dez participantes do estudo mudaram de dieta. Um dos grupos se alimentava de vegetais, e outro tinha uma dieta com base em produtos de origem animal, incluindo leite, queijo e carne.

Nos indivíduos que se alimentavam de produtos animais, os pesquisadores observaram um aumento significativo de Bilophila wadsworthia, uma bactéria que é conhecida por contribuir para a colite, uma variante da doença inflamatória intestinal, em ratos. Mas a conexão não foi estudada em humanos, então David não acredita que amantes de queijo estejam deixando a si mesmos doentes. “Nós já estamos prevendo que algumas pessoas tentarão extrair conclusões sobre qual dieta é melhor”, observa David, “E queremos destacar que é muito difícil chegar a qualquer conclusão relativa à saúde com base nesse estudo”. De acordo com David, sem dados sobre a saúde dos pacientes durante o estudo, como inflamações intestinais ou respostas do sistema imune, é impossível fazer esse tipo de conexão.

Chang, que já trabalhou com a conexão entre B. wadsworthia e colite em ratos, concorda que o novo estudo não permite afirmar que a associação entre a bactéria e a doença também ocorre em humanos. Mas ele acredita que há uma contribuição importante. “Esse estudo mostra o quanto o corpo é sensível a mudanças na dieta”, aponta ele.

“Para o público leigo, esse trabalho destaca a importância da dieta sobre a saúde e a doença. As pessoas deveriam prestar mais atenção ao que comem. Mas cabe aos cientistas reconhecer que a disciplina na dieta tem efeitos variados, e entender o que cada um de seus componentes faz para que possamos desenvolver dietas mais saudáveis.

Mudanças dramáticas em nossa dieta, observa ele, poderiam muito bem ser a causa de “transtornos ocidentais”, como doença inflamatória intestinal e obesidade. De acordo com David, porém, seu estudo não tinha a intenção de mudar a maneira como nos alimentamos.

Pesquisas futuras poderiam monitorar a saúde dos pacientes para apoiar uma conexão entre certas bactérias e doenças. Ainda que o estudo inicial tenha sido limitado, David declara que a equipe de pesquisa provavelmente não repetirá o trabalho com um grupo maior.

Os resultados foram consistentes entre indivíduos, então ainda que mais participantes adicionem apoio estatístico, ele duvida [que um grupo maior] adicione informações sobre mudança na atividade bacteriana. “Eu também deveria apontar”, continua David, “que já é bem difícil conseguir 10 pessoas que estejam dispostas a mudar radicalmente suas dietas e registrar o que fazem regularmente”.

Em vez disso, ele prevê que estudos futuros explorarão a maneira com que fatores como o preparo dos alimentos muda a flora intestinal. 

sciam17dez2013