Sciam


Clique e assine Sciam
Notícias

Mordidas de Morcegos Podem Proteger Contra Raiva

Nativos da Amazônia peruana parecem ter desenvolvido anticorpos ao vírus

Marissa Fessenden
Daniel Streicker
A hidrofobia, popularmente chamada de raiva, é uma doença que leva as vítimas infectadas à loucura e quase sempre é fatal após chegar ao cérebro. Mas uma nova descoberta de duas comunidades remotas na Amazônia peruana pode revelar uma falha na armadura do vírus: seis nativos que nunca receberam vacinas parecem ter desenvolvido anticorpos para o vírus. Os pesquisadores desconfiam que morcegos-vampiros, comuns na região, são responsáveis por isso, ao morder os humanos durante o sono e transmitir pequenas quantidades do vírus – e as múltiplas exposições a doses baixas dariam resistência ao sistema imune.

A descoberta foi feita por cientistas dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDCs) e do Ministério da Saúde peruanos, durante uma busca por doenças infecciosas emergentes abrigadas por morcego, nas comunidades Truenococha e Santa Marta – que ficam, respectivamente, a duas e seis horas de distância do posto de saúde mais próximo, alcançável apenas por barco. “Geralmente as comunidades não sabem do risco de contrair raiva pela mordida”, explica Amy Gilbert, pesquisadora de pós-doutorado do Centro Nacional de Doenças Infecciosas Emergentes e Zoonóticas do CDC, que co-liderou o trabalho. “Eles não sabem como a doença é transmitida e é pouco provável que procurem tratamento, devido ao baixo risco percebido e ao fato de a ajuda estar muito longe”.

Durante a pesquisa, Gilbert e seus colegas entrevistaram 92 pessoas nas duas comunidades e extraíram amostras de sangue de 63 delas. A análise dos resultados mostrou que sete participantes tinham anticorpos capazes de combater a raiva. Todas elas relataram exposição a morcegos – por meio de mordidas, arranhões ou leves toques na pele descoberta. Apenas um dos sete, porém, tinha sido vacinado após o contato. As descobertas foram publicadas na edição de agosto de 2012 do American Journal of Tropical Medicine and Hygiene.

“Os pesquisadores não sabem exatamente como os anticorpos surgiram”, confessa Gilbert, “mas a explicação mais provável é que múltiplas mordidas deram às pessoas uma dose baixa do vírus vivo – o suficiente para desenvolver resposta imune sem produzir uma infecção completa do sistema nervoso central (SNC). “Não temos nenhuma evidência de que essas pessoas apresentavam sintomas clínicos associados à raiva”, aponta Gilbert. É possível que a população nativa, há muito exposta aos morcegos- vampiros tenha desenvolvido proteção genética contra a raiva. Ou que essa cepa específica da doença seja menos virulenta. Os pesquisadores não têm dados para confirmar nenhuma das conclusões, mas também não podem eliminá-las.
“Esse estudo está baseado em uma quantidade muito pequena de dados científicos”, observa Craig Hooper, imunologista da Thomas Jefferson University, que não se envolveu no trabalho. As entrevistas são uma fonte rica e interessante de informações, aponta ele, mas as seis pessoas que podem ter desenvolvido imunidade natural têm níveis muito baixos de anticorpos. Além disso, os níveis foram observados por apenas uma técnica, bastante convencional. Testes mais sensíveis realizados no decorrer do tempo poderiam revelar quando os participantes foram infectados e qual a força da infecção, declara ele.

O vírus da raiva muda de hospedeiro através da mordida de um animal infectado, indo do ferimento para o cérebro por uma rota incomum: em vez de ir pelo sangue, ele se arrasta por fibras nervosas. Esse progresso lento explica o surgimento variável dos sintomas: quanto mais longe do cérebro estiver a mordida, mais espaço o vírus precisa percorrer. O intervalo de tempo também dá às vítimas, porém, uma oportunidade para buscar ajuda médica. Vacinas e tratamentos com anticorpos específicos para a raiva, mesmo após uma mordida, armam o sistema imune para combater o vírus. O tratamento de pós-exposição para pessoas não vacinadas consiste em apenas quatro injeções no braço, no decorrer de duas semanas. Pessoas já vacinadas só precisam de duas injeções. O momento crítico é quando o vírus atinge o sistema nervoso central (SNC). Sem tratamento, semanas ou meses após um ataque o vírus inicia uma infecção totalmente desenvolvida do SNC, com salivação, rosnados, agressões e hidrofobia. Nesse ponto, normalmente já é tarde demais até para os melhores tratamentos médicos.

O estudo mostra que a raiva nem sempre é letal e que algumas pessoas escapam da infecção após serem expostas a uma pequena quantidade do vírus, mas Gilbert aponta que, a partir do trabalho dos pesquisadores, não fica claro se os peruanos desenvolveram verdadeira imunidade ao vírus. Ao contrário: a presença de anticorpos indica uma possível infecção anterior que não foi fatal. No momento, a prevenção ainda é a estratégia mais eficaz para combater a raiva.

Esforços para erradicar a doença por meio de programas que vacinam animais domésticos como cães são muito bem-sucedidos em países desenvolvidos, mas o vírus ainda mata 55 mil pessoas por ano, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). Segundo o Ministério da Saúde Peruano, de 1996 a 2010 cerca de 81% dos surtos de raiva no Peru foram ligados a mordidas de morcegos-vampiros.

Apesar das consequências normalmente terríveis, algumas poucas pessoas aparentemente sobreviveram a uma infecção de raiva no SNC: um caçador do Alasca pode ter desenvolvido imunidade após anos caçando raposas e, em 2011, uma californiana de 8 anos desenvolveu espasmos típicos que impedem uma pessoa de comer e beber, tradicionalmente chamados de hidrofobia. A infecção atingiu seu fluido cerebroespinhal e o cérebro, mas depois de cuidados intensos ela se recuperou completamente.

Mais notável foi uma adolescente de Wisconsin ter sobrevivido a uma infecção do SNC após um médico colocá-la em coma induzido e em seguida administrar tratamento para o vírus da raiva. Ele esperava retardar o avanço da doença e dar ao corpo da garota uma chance de reagir. Desde então, vários médicos já tentaram o protocolo, mas nenhum reproduziu o primeiro sucesso.

A descoberta de anticorpos naturais e possível imunidade dos peruanos não devem reduzir os esforços para erradicar a doença, enfatiza Gilbert. “Apesar de termos encontrado anticorpos nessas pessoas, não as consideramos protegidas”, reforça ela.
Nas bancas!                     Edições anteriores                                            Edições especiais                              
Conheça outras publicações da Duetto Editorial
© 2012 Site Scientific American Brasil • Duetto Editorial • Todos os direitos o reservados.
Site desenvolvido por Departamento Multimídia • Duetto Editorial.