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Morfina é contraindicada após cirurgia de retirada e amídalas

Opiáceo pode exacerbar problemas respiratórios pós-operatórios em crianças

Por Rob Goodier, de Nova York/Agência Reuters

Artigo publicado em 26 de janeiro no periódico especializado Pediatrics adverte que a medicação com morfina após uma tonsilectomia, ou retirada das amígdalas palatinas, pode agravar problemas respiratórios em crianças com síndrome da apenia obstrutiva do sono (SAOS), mais conhecida como apneia do sono.

O estudo salienta que o analgésico e antiinflamatório ibuprofeno parece ser igualmente eficaz no alívio da dor, sem os perigosos efeitos colaterais do opioide.

“Isso significa que morfina não deve ser ministrada em casa, onde o monitoramento do estado respiratório está longe de ser ideal. Em um ambiente hospitalar, sob cuidados adequados, ela pode ser usado com cautela”, escreveu o principal autor do estudo, Dr. Gideon Koren em e-mail à Reuters Health.

Koren é diretor de Programa Motherisk e cientista sênior no Hospital for Sick Children, da University of Toronto, no Canadá.

Ele e colegas compararam a ação de analgésicos em um grupo de 91 crianças que receberam alta após a cirurgia de amígdalas.

Os pacientes foram tratados randomicamente com doses de morfina via oral que variaram de 0,2 mg a 0,5 mg por kg de peso corporal mais uma dose de 10 mg/k a 15 mg/kg de acetaminofeno a cada quatro horas, ou 10 mg/kg de ibuprofeno a cada seis horas mais de 10 mg/kg a 15 mg/kg de acetaminofeno a cada quatro horas.

Os pais das crianças mediram seus graus de saturação de oxigênio no sangue e registraram seus níveis de dor de acordo com a Escala Objetiva de Dor e a chamada Escala de Faces no primeiro e quinto dias após a operação.

Na primeira noite, a dessaturação de oxigênio [a queda do nível de oxigênio no sangue decorrente da apneia do sono] melhorou em 68% das crianças medicadas com ibuprofeno, mas em apenas 14% das que estavam tomando morfina.

Em termos de eficácia, as crianças avaliaram os efeitos analgésicos das duas drogas como sendo mais ou menos iguais.

“Estudos mostraram que até 25% das crianças que sofrem de apneia não revertem sua condição imediatamente após a cirurgia [a tonsilectomia é um procedimento comum para ajudar a melhorar as pausas respiratórias associadas à apneia]. Portanto é problemático ministrar analgésicos narcóticos, conhecidos por diminuir o impulso respiratório”, argumentou Koren.

As taxas de sangramento tonsilar foram similares (três crianças medicadas com ibuprofeno e duas com morfina), assim como outros índices de reações adversas.

Até recentemente, prescrevia-se codeína para o alívio da dor pós-tonsilectomia e adenoidectomia [retirada das adenoides, duas pequenas glândulas de tecido linfoide situadas atrás das cavidades nasais e acima do palato mole, ou céu da boca].

Em 2012, porém, o FDA, o órgão o governo americano que regula medicamentos e alimentos, emitiu uma nota contraindicando codeína para esses pacientes porque, em raros casos, a droga estava associada a insuficiência respiratória e morte.

Os resultados do novo estudo devem mudar a prática clínica, previu o Dr. Reginald Baugh, chefe de otorrinolaringologia na Faculdade de Medicina e Ciências da Vida da University of Toledo, em Ohio, em e-mail à Reuters Health.

“Esse estudo fornece evidências de que o uso de narcóticos após tonsilectomias pode levar a preocupações maiores de segurança que o uso de não-narcóticos”, acrescentou Baugh, que não esteve envolvido no trabalho.

De fato, há pouco motivo para supor que o perfil de segurança para morfina em crianças pós-tonsilectomia seja diferente após qualquer outra cirurgia, ponderou Baugh.

Dito isso, de acordo com o otorrinolaringologista houve algumas limitações nessa pesquisa.

Ele sugere que os pesquisadores talvez tivessem medido melhor a respiração ao monitorar a hipercarpnia, o aumento da concentração de gás carbônico no sangue arterial, em vez da dessaturação de oxigênio.

Além disso, o estudo talvez não tenha incluído a possibilidade do não cumprimento das orientações por parte dos pais que ministraram os analgésicos.

De acordo com Baugh, os resultados podem ter sido distorcidos por pais que não deram morfina por medo de prejudicar seus filhos, ou que deram demais por preocupação com crianças com dor pós-cirúrgica.

Esses resultados podem apontar para uma questão mais abrangente no processo de aprovação de medicamentos, opinou o doutor Gideon Koren.

“A maioria das drogas utilizadas em crianças não foi aprovada pelo FDA, nem pela Health Canadá, a equivalente canadense do FDA. Esse estudo destaca a urgente necessidade de estudar o efeito de medicamentos em crianças e não extrapolar resultados em adultos”, alertou Koren.

FONTE: http://bit.ly/1uRyTtM

Pediatrics 2015.

Publicado em Scientific American em 26 de janeiro de 2015.