Sciam


Clique e assine Sciam
Notícias

Mudanças climáticas impõem previsão de falhas da infraestrutura

Eventos climáticos imprevisíveis pedem grande diversidade de soluções e ampla margem de segurança

Especialistas em adaptação à mudança climática esperam que líderes da cidade de Nova York considerem medidas de adaptação flexível conforme a cidade se recupera do Furacão Sandy. Imagem: Flickr/Dave Bledsoe.
Por Jennifer Weeks e The Daily Climate

BOSTON – Engenheiros civis constroem coisas robustas projetadas para durar décadas, como estradas, pontes, bueiros, e usinas de tratamento de água. Mas um professor da University of New Hampshire quer que sua profissão se torne mais flexível.

Em um clima variável, argumenta o engenheiro civil Paul Kirshen, instalações terão que se adaptar a condições mutáveis durante suas vidas úteis – e, em alguns casos, terão que receber permissão para falhar. Um grande exemplo dessa abordagem é o projeto holandês Espaço para o Rio [NOTA: No inglês do texto é “Room for the River Project”. No holandês original, temos Planologische Kernbeslissing Ruimte voor de Rivier. Meu holandês é bem ruinzinho, mas a tradução aproximada é “Decisão Fundamental de Planejamento Espacial Espaço Para o Rio”]: décadas acreditando que enchentes devem ser detidas estão sendo abandonadas enquanto trabalhadores criam diques para dar espaço ao Rio Reno.

A abordagem reconhece que a famosa rede de diques e barragens do país ficará sob um estresse cada vez maior conforme o nível do mar sobe. Em vez de construir paredes protetoras cada vez maiores, os holandeses acreditam que podem ficar mais seguros se aceitarem certa quantidade de inundações controladas.

Kirshen, especialista em adaptação à mudança climática e recursos hídricos, acredita que os Estados Unidos deveriam adotar uma abordagem semelhante.

“Historicamente, construímos infraestruturas para fornecer algum nível de segurança”, observa ele. Uma barragem pode ser projetada para resistir a enchentes durante 100 ou 500 anos, por exemplo. Mas essa abordagem supõe que engenheiros saibam como estresses – enchentes e maremotos, por exemplo – irão variar durante a vida útil da barragem. Conforme a mudança climática altera ciclos naturais, argumenta Kirshen, essas suposições podem se provar falsas.

Eventos extremos

Em alguns casos, engenheiros terão poucas opções além de blindar estruturas contra raros eventos extremos – as ondas de 2,8 metros que o Furacão Sandy lançou contra Manhattan no último outono boreal, por exemplo. Mas usar uma inundação ou tempestade tão rara como padrão de projeto é caro, observa Kirshen, já que significa construir novas estruturas ou readaptar as existentes com elementos protetores suficientes para resistir a estresses que podem ocorrer apenas uma vez, ou nenhuma, durante a vida útil desses prédios.

Desenvolver projetos que possam falhar com segurança, por outro lado, é frequentemente mais barato e mais eficiente, acredita Kirshen. Uma comunidade pode optar por construir uma barragem projetada para conter uma inundação de até 100 anos, então desenvolver um plano de evacuação para a área ao redor da barragem no caso de uma inundação mais severa. Essa estratégia antecipa que a barragem pode não controlar inundações extremas, mas se soma a outras medidas de proteção para atingir níveis mais altos de segurança.

“Temos que parar de limitar os projetistas”, alerta Kirshen. “Projetos convencionais de engenharia civil podem ser mais criativos”.

Estratégias flexíveis de adaptação ficam claras em locais diferentes. Exemplos incluem paredões que podem ser construídos quando necessários; pontes pré-fabricadas para autoestradas que podem ser elevadas conforme as águas sobem abaixo delas; e sistemas flutuantes em usinas de tratamento de água, projetados para subir e descer conforme os níveis do reservatório mudam.

“Uma abordagem incremental tem menos impactos sociais e ambientais que construir grandes estruturas de uma vez – se você conseguir acompanhar as mudanças induzidas pelo clima”, observa Kirshen.

Uma cidade inundada

Kirshen foi coautor de um estudo da Associação Boston Harbor, motivado pelo Furacão Sandy e publicado no mês passado, que analisou potenciais inundações em Boston a partir dos atuais maremotos de 100 anos (1,5 metro acima da maré alta média) e das tempestades de 100 anos estimadas para 2050 (2,2 metros acima da maré alta média). No último cenário, concluiu o estudo, mais de 30% da cidade seria inundada.

Em resposta, o prefeito Thomas Menino encomendou avaliações de todos os prédios e linhas de metrô em zonas de inundação e anunciou que desenvolvedores precisariam abordar riscos da mudança climática quando solicitassem alvarás para construções.

A adaptação flexível é “uma abordagem valiosa e será apropriada em certas situações” conforme Boston avança, declara Carl Spector, diretor executivo da Comissão de Poluição do Ar da cidade, e membro do comitê conselheiro de adaptação à mudança climática. “Quando você começa a fazer adaptações, você tem que ir de um local a outro e personalizar sua análise e linhas do tempo para cada projeto. Mudar linhas de esgoto é um grande projeto, e o que você põe no solo continua no solo por muito tempo”.

Tomando medidas

Kirshen espera que os líderes da cidade de Nova York considerem medidas de adaptação flexível conforme a cidade se recupera do Sandy. Algumas outras regiões já começaram a tomar medidas. A Comissão de Conservação e Desenvolvimento da Baía de San Francisco exige avaliações do risco de elevação do nível do mar para novos projetos costeiros ao redor da Baía de San Francisco. E no sul da Flórida, onde níveis marítimos cada vez mais altos já estão estressando sistemas de água, quatro regiões (Broward, Miami-Dade, Palm Beach e Monroe) formaram uma parceira regional e pediram financiamento federal para adaptação. Mas os exemplos mais avançados de adaptação flexível estão na Europa.

Além da Holanda, a Inglaterra tem um sistema de grande escala de controle de inundações para o Tamisa, incluindo um sistema de barreiras com 10 portões para proteger Londres de tempestades. Mas planejadores estão pensando no futuro. Em novembro último, a Agência de Meio Ambiente do Reino Unido publicou seu Plano para o Estuário do Tamisa 2100, que antecipa uma elevação do nível do mar de pelo menos 90cm até 2100 e que pode ser adaptada para níveis mais altos. Ele projeta que muitas estruturas de controle de inundações serão erguidas ou aprimoradas entre 2035 e 2050, e que a nova Barreira do Tamisa pode ser construída entre 2050 e 2070.

De acordo com Spector, oficiais dos Estados Unidos estão prestando atenção a modelos de adaptação da Europa. “Estamos compartilhando muitas coisas”, declarou ele.

Engenheiros civis sempre inserem “flexibilidade de demanda” em sistemas – projetando, por exemplo, uma ponte em que pistas extras possam ser adicionadas conforme o fluxo de trânsito aumenta, observa Kirshen.

“Agora precisamos adicionar flexibilidade climática”.