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Mudanças climáticas exigem novas estratégias agrícolas

Estiagens mais frequentes e mudanças pluviométricas forçam adaptação de agricultores na Tanzânia

One Acre Fund
Lavradores se adaptam: Pequenos agricultores praticam métodos ensinados pela ONG One Acre Fund.
Por Dina Fine Maron

IRINGA, TANZÂNIA — Agricultores locais só precisam olhar para suas lavouras ressecadas durante os períodos de estiagens cada vez mais intensos para saber que as mudanças climáticas são reais.

A chuva é menos frequente que há 10 anos por causa da “destruição do meio ambiente”, declara Sopian Kinyoge, um agricultor de 27 anos. Sua irmã mais velha confirma que as chuvas agora são mais passageiras devido à “derrubada de árvores” e Alfred Mofuga, de 63 anos, diz simplesmente: “Não posso prever os caminhos de Deus”.Embora esteja investindo no aumento da produção de alimentos como meio para combater a pobreza e elevar o padrão de vida no país, o governo da Tanzânia enfrenta muitos desafios. Entre eles, a resistência de agricultores para mudar seus velhos hábitos enraizados e a constante dificuldade de se adaptar a um clima que não só está mudando, mas é cada vez menos previsível.

O programa oficial para alcançar a meta de se tornar uma economia de renda média até 2025 depende da expansão da produção agrícola, especialmente no corredor relativamente fértil no sul do país, onde tecnologias e métodos aprimorados devem melhorar exponencialmente a produtividade das culturas. Outras nações foram impulsionadas para a faixa de países de renda média graças ao “efeito multiplicador” do desenvolvimento agrícola que lhes permite atacar simultaneamente a fome e a pobreza, explica Tom Hobgood, diretor do programa “Feed the Future”, de US$ 77 milhões, da Agência para o Desenvolvimento Internacional dos Estados Unidos (USAID) na Tanzânia.

Por essa razão, a USAID e o governo da Tanzânia estão apostando na agricultura para garantir o futuro da nação. A atividade já é responsável por cerca de 30% do PIB e emprega aproximadamente 75% da população do país. Trabalhar em prol de um aumento da resiliência às mudanças climáticas e uma nutrição melhor será essencial para reduzir a pobreza e assegurar o futuro desse país africano.

A Tanzânia convidou um seleto grupo de organizações não-governamentais (ONGs) para apoiar sua agricultura ao longo de toda a cadeia de abastecimento. Empresas que prometem sementes, fertilizantes e produções melhores também estão entrando nesse grupo.

Além disso, o governo está estimulando a expansão de grandes propriedades rurais que, segundo as autoridades, poderiam empregar tecnologias para ajudar os pequenos agricultores por meio de acordos locais. (O incentivo ao crescimento de fazendas, no entanto, também pode gerar tensões com os donos de propriedades menores.)

“No passado acreditávamos que o governo podia fazer tudo por todos”, admite o ministro da Agricultura, Segurança Alimentar e Cooperativas da Tanzânia, Christopher Chiza. Agora sabemos que só podemos criar um ambiente propício para o emprego, acrescenta.

Apesar da boa vontade, o governo está percebendo que mesmo com ajuda externa a tarefa é monumental. A intensificação de projetos bem-sucedidos e a coleta de evidências para provar que isso de fato vale à pena são processos lentos.

Além disso, falhas básicas de infraestrutura podem impedir o progresso. A chuva muitas vezes torna as estradas intransitáveis e instalações inadequadas de armazenamento deixam as safras vulneráveis ao apodrecimento e ao ataque de insetos ou fungos.

O trabalho da empresa Cheetah Development exemplifica as promessas e os obstáculos dos novos esforços na Tanzânia. Seu projeto de secadores solares (Solar Dryer Project), que está em seu primeiro ano de funcionamento, com um financiamento de US$ 300 mil da USAID, pretende reduzir a quantidade de alimentos perdidos todos os anos após a colheita. A empresa vende diversas estruturas especializadas para secar alimentos, como tomates e cebolas, que apodreceriam se não fossem consumidos frescos. Depois de secos, a Cheetah compra os produtos e os vende em outros lugares, como Zanzibar, o arquipélago semiautônomo ao largo da Tanzânia.

O problema é que, embora a empresa esteja tentando resolver um problema sério — as perdas pós-safra —, o empreendimento dos secadores solares corre o risco de exacerbar outro, a má nutrição, porque a secagem pode reduzir o valor nutricional dos alimentos. Esse é um preço razoável a ser pago quando a escolha é ter alimentos secos ou não ter alimentos.

Como os lavradores participantes do programa conseguem um preço mais alto por seus produtos desidratados, alguns deles admitem estar tentando secar a maior parte ou a totalidade de suas colheitas, acrescentando que também alimentam seus filhos com os produtos secos.

Embora não tenham sido realizados estudos que comparem o teor nutricional dos produtos processados nas estruturas solares versus produtos frescos, a equipe da Cheetah confirma que ocorre uma perda. “Estou ciente da diminuição do teor nutritivo, mas os secadores foram desenvolvidos para auxiliar no armazenamento”, argumenta Tara Menon, diretora do projeto. “A ideia é consumir produtos frescos e desidratados simultaneamente”.

Quando perguntados, porém, os lavradores pareciam não estar cientes de qualquer diferença nutricional entre os dois; uma situação que ressalta o desafio de implementar mudanças e transmitir mensagens às vezes complexas. Entre os agricultores desinformados está Sylvester Mugumba, que atua como um franqueado (franchisee) do Solar Dryer Project ao ajudar a facilitar suas vendas na comunidade em troca de uma comissão. “A nutrição é a mesma”, declarou ele. “Os produtos são os mesmos, eles só são armazenados de forma diferente”.

Outro projeto financiado pela USAID nas terras altas do sul da Tanzânia envolve ensinar (e estimular) os agricultores a diversificarem suas hortas e culturas, principalmente porque a variedade de alimentos pode melhorar a nutrição. Isso está fazendo com que eles incorporem uma seleção maior de vegetais ricos em vitaminas em suas dietas, que muitas vezes consistem quase exclusivamente de ugali (um prato à base de milho) e feijão.

Ainda assim, a visita à casa de uma participante do projeto revelou que seu banheiro foi instalado diretamente ao lado da horta, correndo o risco de contaminar as plantas cultivadas. Ela explicou que quando a horta foi plantada, o vaso sanitário estava mais longe, mas a “casinha” foi transferida para mais perto da casa porque os membros de sua família tinham medo de serem picados por cobras quando iam até lá à noite. Acrescentou que, para tentar evitar qualquer doença, a família sempre cozinha os produtos antes de consumi-los. A questão da saúde não é um problema decorrente do programa em si, mas ele ressalta o contínuo esforço de adaptação exigido dos pequenos agricultores à medida que o país caminha para seus objetivos.

É evidente que o governo enfrenta desafios enormes nessa busca de atingir suas metas agrícolas. Essa é a razão pela qual muitas empresas estão tentando se aproveitar de pequenos nichos do grande quebra-cabeças para concretizar seus próprios objetivos. Elas tentam fazer o melhor que podem com recursos limitados e entendem que a mudança de comportamento pode ser difícil. A questão agora é se isso será suficiente, especialmente quando a imprevisibilidade do tempo, decorrente das mudanças climáticas, ameaça ficar cada vez maior.

Uma das empresas que procura facilitar a transição para um futuro agrícola mais flexível e resistente ao clima é a One Acre Fund, uma ONG ativa na África há dois anos. A organização trabalha em vários locais da África subsaariana tentando duplicar a produtividade de pequenas fazendas no prazo de um ano através de pacotes de microcrédito que cobrem os custos de sementes, fertilizantes e do seguro de todos os produtos dos conveniados.

Para melhorar a resistência a secas, a ONG se empenha em convencer os lavradores a comprarem sementes de milho que amadurecem de dois a três meses mais rápido que as sementes padrão, além de investirem em sorgo, milheto e girassol em vez de se concentrar quase exclusivamente no milho que consome grande quantidade de água. Mas muitos produtores continuam relutantes a fazer as mudanças.

Sementes que levam mais tempo para amadurecer desenvolvem espigas maiores, o que as torna mais atraentes que as variedades precoces e mais resistentes a estiagens. Conseguir que os agricultores diversifiquem suas culturas além do milho tradicional representa um desafio. Não são apenas os 3 mil lavradores do distrito rural de Iriniga inscritos na One Acre Fund esse ano que mostram relutância. Agricultores de todo o país “continuam cultivando milho que exige uma grande quantidade de chuva”, diz o ministro Christopher Chiza.

Há 10 anos, as precipitações em Iringa eram intermitentes de setembro a novembro. Depois disso vinha a prolongada estação de chuvas que se estendia de dezembro até abril. Agora as chuvas intermitentes praticamente cessaram, o que resultou em um período de estiagem de cerca de seis meses, explica David Hylden, diretor da One Acre Fund na Tanzânia. “A variabilidade climática será um problema para nosso programa e, mais importante, para os nossos agricultores”, afirma ele.

Dina Fine Maron relatou essa história da Tanzânia como “fellow” do International Reporting Project (IRP), que concede bolsas de reportagem a jornalistas americanos.

sciam14out2013