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Mudanças de pH podem causar transtornos psiquiátricos?

Aumento de acidez encontrado no cérebro de pacientes com esquizofrenia e bipolaridade levanta questionamentos sobre tratamentos

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Algumas vezes, nossos cérebros estão sob o efeito de ácido - literalmente. Uma das principais fontes desses surtos temporários é o dióxido de carbono, que é constantemente liberado à medida que o cérebro quebra açúcar para gerar energia, que, posteriormente, vira ácido. No entanto, a química em um cérebro humano saudável tender a ser relativamente neutra, pois vários processos, incluindo a respiração - que expele o dióxido de carbono - ajudam a manter o equilíbrio. Quaisquer picos efêmeros de acidez geralmente passam despercebidos.

Contudo, uma quantidade crescente de estudos sugere que, para algumas pessoas, até mesmo pequenas mudanças no equilíbrio do pH podem estar ligadas a certas condições psiquiátricas, incluindo transtornos de pânico. Novas descobertas anunciadas neste mês fornecem evidências adicionais de que tais ligações são reais - e sugerem que podem incluir esquizofrenia e transtorno bipolar.

Já houve sugestões anteriores disso: estudos pós morte feitos em dezenas de cérebros humanos revelaram menor pH (ou seja, níveis de acidez mais altos) em pacientes com esquizofrenia e transtorno bipolar. Múltiplos estudos nas últimas décadas descobriram que quando as pessoas com transtornos de pânico são expostas a um ar com concentração de dióxido de carbono mais alta do que o normal - o qual pode se combinar com a água no corpo para formar ácido carbônico - elas ficam mais propensas a experimentar ataques de pânico do que indivíduos saudáveis. Outras pesquisas revelaram que os cérebros de pessoas com transtornos de pânico produzem níveis elevados de lactato - uma fonte ácida de combustível constantemente produzida e consumida no cérebro com fome de energia.

No entanto, apesar dessas pistas iniciais, pesquisadores continuaram a tentar entender se o aumento da acidez observada em pacientes com esquizofrenia e bipolaridade estava realmente relacionada com o transtorno, ou era resultado de outros fatores, como o histórico da doença do uso de drogas antipsicóticas por parte do sujeito imediatamente antes da sua morte. Por exemplo, "se alguém está morrendo lentamente, haveria um período mais longo onde há uma chance maior de que ele tenha níveis baixos de oxigênio, e isso vai mudar seu metabolismo", explica William Regenold, psiquiatra e professor da Universidade de Maryland. Durante uma morte prolongada, ele explica, o corpo e o cérebro começam a depender mais fortemente de um mecanismo que não usa o oxigênio para produzir energia. Isso pode levar a níveis de lactato superiores ao normal, os quais posteriormente diminuem o pH.

Questões assim são o motivo que levou Tsuyoshi Miyakawa, neurocientista da Universidade de Saúde Fujita no Japão, e seus colegas a explorar dez conjuntos de dados de cérebros pertencentes a mais de 400 pacientes com esquizofrenia ou transtorno bipolar. Alguns estudos anteriores não se preocuparam em focar na acidez, pois os pesquisadores assumiram que o pH mais baixo era resultado de fatores alheios, diz Miyakawa. Na sua nova análise, entretanto, ele e sua equipe tentaram testar cada uma das principais teorias em torno da conexão transtorno-acidez. Primeiro, eles controlaram possíveis fatores de confusão, como histórico de uso de medicação antipsicótica e idade ao morrer. Como haviam suspeitado, os níveis de pH cerebral em indivíduos com esquizofrenia e transtorno bipolar eram significativamente menores do que naqueles saudáveis, usados como controle. A equipe também examinou cinco modelos de camundongos - roedores com mutações em genes associados a essas condições - e encontraram resultados semelhantes: os níveis de pH nos cérebros desses camundongos (os quais estavam livres de medicamentos antipsicóticos) eram consistentemente mais baixos e seus níveis de lactato mais altos do que os de animais saudáveis. Além disso, os pesquisadores fizeram a eutanásia de todos os camundongos da mesma maneira - o que sugere que as diferenças de pH não podem ser explicadas por quanto tempo levaram para morrer.

Estas descobertas, publicadas na revista científica Neuropsychopharmacology neste mês, fornecem coletivamente a evidência mais convincente até o momento de que a ligação entre a acidez cerebral e os transtornos psiquiátricos é real, segundo Miyakawa. Regenold, que não esteve envolvido no novo trabalho, concorda. "Quando você combina todos esses [conjuntos de dados] e encontra uma forte significância estatística, é quando se torna mais convincente que [o pH mais baixo] seria inerente aos transtornos", ele diz. "Para mim, o que é novo sobre este artigo é que estão selecionando um pH mais baixo e dizendo que isso é algo o qual - por si só - poderia ser parte da fisiopatologia desse transtorno, independentemente do que está causando isso."

Porém, John Wemmie, neurocientista da Universidade de Iowa, diz que embora as descobertas da equipe de Miyakawa sejam intrigantes, “os tecidos são de animais e humanos já mortos, então é difícil saber se isso está relacionado a mudanças de pH [num cérebro vivo].” Estudos de imageamento em vivos conduzidos em pessoas com transtorno bipolar, esquizofrenia e síndrome do pânico fornecem evidências muito mais diretas para a hipótese de que a acidez pode ser a base dessas várias condições psiquiátricas, ele diz. Utilizando espectroscopia de ressonância magnética, um método que pode detectar mudanças bioquímicas nos tecidos, cientistas encontraram, consistentemente, níveis elevados de lactato nos cérebros desses indivíduos.

Mesmo que se torne mais claro que a acidez cerebral possa ser uma característica fundamental da esquizofrenia e do transtorno bipolar, continua a ser uma questão em aberto determinar se isso é um efeito ou uma causa. De acordo com Miyakawa, uma possibilidade é que o aumento da acidez resulte de uma atividade neuronal mais alta do que o normal no cérebro de pessoas com esses transtornos. "Os neurônios são mais ativados, é necessária mais energia e ela é fornecida pelo lactato", explica. Outra teoria popular é que a maior acidez cerebral entre pessoas com esses transtornos psiquiátricos pode se dever a deficiências nas mitocôndrias, a casa de força das células, segundo Regenold. Richard Maddock, professor de psiquiatria da Universidade da Califórnia em Davis o qual não participou do novo estudo, também acredita que poderia ser o caso. No entanto, ele acrescenta que essas duas hipóteses não são "mutuamente exclusivas".

Daqui para frente, a grande questão será se o baixo pH do cérebro pode levar a mudanças cognitivas ou comportamentais associadas a esses transtornos, diz Miyakawa. Há palpites de que é esse o caso - um estudo publicado no ano passado na revista científica Translational Psychiatry, por exemplo, descobriu que os níveis elevados de lactato no cérebro de pacientes vivos com esquizofrenia estavam associados a uma função cognitiva mais fraca. Também há algumas evidências, provenientes de estudos com roedores, de que o acúmulo de ácido no cérebro pode influenciar o comportamento. "Sabemos que os receptores [os quais são ativados pelo ácido] têm efeitos proeminentes sobre o comportamento em animais", diz Wemmie. "Isso implica que pode haver mudanças no pH do cérebro acordado e funcional as quais as pessoas não avaliaram tão bem."

O trabalho da equipe de Wemmie revelou que diminuir o pH do cérebro modificando a inalação de dióxido de carbono pode provocar um comportamento associado ao medo em camundongos. Também mostrou que a atividades de canais iônicos detectores de ácido - receptores localizados nas sinapses, as conexões entre os neurônios - podem contribuir para a transmissão sináptica e a plasticidade em algumas áreas do cérebro, como a amígdala, envolvida no processamento de emoções. O quão relevantes são essas descobertas para pessoas com esquizofrenia ou transtorno bipolar ainda não está claro. Porém, responder a essas questões poderia mudar como as pessoas com alguns transtornos psiquiátricos são tratadas e diagnosticadas, de acordo com Wemmie. Agora, ele acrescenta, “esta é uma avenida potencialmente inexplorada pela terapêutica.”

Diana Kwon
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