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Intensa reação ao arrependimento incentiva jovens

Idosos sadios, ao contrário, controlam suas reações ao sentimento, indica estudo

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Imagens-Home:Mykhaylo Palinchak/shutterstock e Suzanne Tucker/shutterstock; interna:
Sou uma pessoa bem competitiva. Quando participo de uma corrida (e eu participo de várias), tento realmente  fazer o melhor, mesmo frequentemente arriscando uma lesão. Geralmente, porém, as condições da corrida (especialmente aglomerações ou falta d’água), o percurso, ou minha própria falta de treino, atrapalham e eu acabo chegando 30 segundos, ou até menos, mais tarde do que queria. Tão perto, mas ainda tão longe.

Esses “quases” me deixam muito chateada. Eu fico rabugenta durante dias, começo a treinar novamente muito mais cedo do que deveria, porque eu preciso me sair melhor na próxima vez. Estou determinada a não me humilhar novamente. Isso é bobo: a única pessoa que estou tentando vencer é a mim mesma, mas eu quero muito essa “vitória”. Gostaria de poder simplesmente deixar isso pra lá, só correr pelo prazer de correr e sempre fico chocada quando falo com alguns corredores mais velhos. Muitas pessoas continuam correndo tranquilamente com seus 70 anos, e algumas até participam de corridas. Mas eles fazem isso de uma maneira tão... casual. Eles não treinam mais com grande intensidade, não parecem se preocupar se seu desempenho na corrida não é tão bom. Correm, e é muito bom correr, e deixam pra lá, Com certeza não resmungam como eu, e muitos outros corredores com a minha idade, depois de corridas.

Por que as corridas não os chateiam mais? Achei que fosse apenas a longa exposição às corridas afinal de contas, se você ainda está correndo depois de cinco décadas ou mais, você realmente ama correr. Mas se você mantém seu amor pela corrida, por que a decepção com o desempenho desaparece? Por que eles parecem lamentar menos as “derrotas”? Alguns deles me disseram que também não vou me importar quando for mais velha. Mas no momento, é difícil sentir que algum dia conseguirei deixar pra lá. Será que eu realmente conseguiria acabar as corridas menos decepcionada, com menos arrependimento?

Bom, o artigo de Brassen e colaboradores diz que algumas pessoas podem de fato ter menos arrependimentos que outras conforme envelhecem.( Brassen et al. “Don’t Look Back in Anger! Responsiveness to Missed Chances in Successful and Nonsuccessful Aging” Science, 2012) 

O que significa ter menos arrependimento, decepção menos intensa? E o que isso significa para o envelhecimento? 

As pessoas em geral tendem a se tornar mais positivas conforme envelhecem exceto, é claro, para pessoas com depressão, relativamente frequênte nos mais velhos. A depressão geralmente significa um monte de arrependimentos e decepções. Por que algumas pessoas ficam deprimidas conforme envelhecem, e outras não?

Os autores do artigo levantam a hipótese de que pessoas mais velhas e mais felizes podem ser capazes de “deixar [os arrependimentos] pra lá” com mais facilidade, para de fato sentirem menos arrependimento. Esse senso reduzido de responsabilidade e arrependimento pode ser capaz de ajudá-los a ter vidas mais felizes conforme envelhecem.

Para testar essa ideia, os autores tiveram que inventar uma boa simulação para o “arrependimento”.

Montaram um sistema de oito caixas. Sete delas continuam ‘ouro’ (dinheiro que podia ser coletado), e uma caixa continha um demônio, aleatoriamente colocada na linha. As caixas tinham que ser abertas uma a uma, da esquerda para a direita. O participante podia parar de abrir caixas a qualquer momento e ir embora com o dinheiro. Se você encontrar um demônio, você perde todo o dinheiro e tem que recomeçar o jogo. Se você DE FATO decidir ir embora com o dinheiro, as outras caixas se abrem , revelando quanto dinheiro você PODERIA ter conseguido se continuasse jogando, um instigador muito bom de arrependimento.

Jovens (com idade média de 25 anos), pessoas mais velhas sem depressão e pessoas mais velhas que estavam deprimidas (a idade média para esses dois grupos era de 65 anos) participaram do jogo monitorados por uma máquina de ressonância magnética funcional (RMf). Enquanto os participantes jogavam, os autores observaram o comportamento de tomada de riscos.

Se a pessoa fosse embora com o dinheiro, e o demônio estivesse muito perto (na caixa seguinte, por exemplo), quanto se arriscaria na próxima vez? E se o demônio estivesse a três caixas de distância? Esse comportamento de tomada de riscos pode dizer quanto os participantes estão respondendo ao arrependimento, o arrependimento de não ter continuado em frente da última vez (se o demônio estivesse longe).

Descobriram que pessoas mais jovens, e pessoas mais velhas com depressão arricaram mais depois de saber que tinham perdido muito dinheiro (quando o demônio estava longe). Apresentavam uma resposta mais significativa para tentar recuperar chances perdidas por mais dinheiro.

Pessoas mais velhas sem depressão, por outro lado, praticamente não se arriscaram mais no decorrer do jogo. Elas não se arrependeram de parar e levar o dinheiro, independentemente de quanto dinheiro extra pudessem ter ganho.

Em seguida os autores correlacionaram a reação dos participantes quanto a arriscar mais ou  não no jogo de simulava arrependimento com a atividade cerebral no estriado ventral, registrada na RMf.

A RMf observa os níveis de sangue oxigenado que se dirige a diferentes áreas cerebrais durante uma tarefa. Presume-se que mais sangue oxigenado em uma área é um sinal de atividade mais intensa. Nesse caso, os cientistas estavam interessados no estriado ventral. Atividade nessa área geralmente é associada com recompensas mas também reage fortemente a coisas como um “quase” em uma aposta. É razoável supor que mudanças na atividade da região estão relacionadas a vitórias ou derrotas no jogo do arrependimento. Foi o que encontraram em pessoas jovens e em pessoas mais velhas com depressão.

As chances perdidas de ter conseguido montes de dinheiro se tivessem continuado a jogar em vez de ir embora com o dinheiro se correlacionaram com diminuição na atividade do estriado ventral. Observaram ainda menor atividade quando os participantes mais jovens e os participantes mais velhos com depressão perdiam o jogo (quando encontravam um demônio e perdiam todo o dinheiro).

Nos pacientes mais velhos sem depressão, no entanto, só registraram uma diminuição de atividade, APENAS quando atingiam um demônio e perdiam um desafio. A atividade não diminuia quando perdiam uma chance de conseguir mais dinheiro, mesmo se fosse muito dinheiro. 

Como esse efeito acontecia?

Os autores observaram uma área chamada de cingulado anterior, associada à tomada de decisões. Encontraram atividade elevada nessa área em pessoas mais velhas sem depressão durante suas chances perdidas, e levantaram a hipótese de que essa atividade elevada permitia que as pessoas mais velhas sem depressão regulassem suas reações à perda, então isso não as incomodava, e nem os incitava a assumir tantos riscos.

As pessoas mais velhas sem depressão se arrependem SIM do dinheiro perdido, é claro. Elas ficam bravas com a perda. Esse sentimento, porém, não parece regular seu comportamento na rodada seguinte.

Enquanto pessoas mais jovens e pessoas mais velhas com depressão tendem a assumir mais riscos na vez seguinte, pessoas mais velhas sem depressão ficam desapontadas pela perda, mas isso não muda a maneira como eles reagem à etapa seguinte do teste.

Quando questionados a respeito de seus arrependimentos na vida, pessoas mais velhas sem depressão TINHAM arrependimentos, tantos quanto as pessoas com depressão. Mas eles sentiam esses arrependimentos com menos intensidade emocional e com menor interferências em seus pensamentos. Eles parecem sentir menos o arrependimento.

Aparentemente, o envelhecimento saudável está de fato associado com o arrependimento reduzido, uma capacidade aumentada de deixar pra lá as experiências desagradáveis.

Os autores supõem que quando somos jovens, precisamos sentir esses arrependimentos de maneira aguda, para mudarmos nosso comportamento futuro e garantir um resultado mais positivo. Conforme você fica velho, e suas chances de comportamentos futuros diminuem, o cérebro pode se beneficar de mudanças, para que você sinta menos arrependimento em vez de tentar mudar comportamentos. Isso é benéfico? Essa é a “melhor” maneira de envelhecer? 

Cabe lembrar as ressalvas habituais a qualquer estudo com RMf. O que se vê aqui é o isolamento de uma área do cérebro, com subtração de uma área de controle (geralmente o cerebelo) para atividade de base, e então uma comparação com o grupo de controle (além de uma série de ajustes de dados). Essa NÃO É a única região do cérebro mostrando “ativação” – provavelmente havia muitas outras coisas acontecendo com a atividade motora, visual, tomada de decisões, etc. Os resultados desse artigo estão baseados no que os autores observaram nas regiões cerebrais nas quais queriam ver diferenças. Isso ocorre em todos os campos - observar campos nos quais, por hipótese, estão as respostas, mas definitivamente é bom manter em mente o vasto número de eventos concomitantes que não são mostrados.

Além disso, há questões que esse artigo não aborda e que provavelmente poderia ter feito.

É fato que os idosos mais felizes reagiram arriscando menos e ficaram aparentemente menos “desapontados” durante os testes, mas como elas se comparam a respostas ao sucesso? Será que essa “falta de arrependimento” também afeta resultados positivos? Será que elas ainda são TÃO positivas? Obtiveram os dados do estudo em termos de tomada de risco e respostas do estriado ventral, gostaria de ter visto isso. Eles de fato observaram a resposta de “ganho” positivo, mas eu não acho que eles a compararam entre os grupos. Mas talvez estejam guardando isso para outro artigo.  

Talvez os autores estejam certose de fato tenhamos menos arrependimentos como resultado de um envelhecimento saudável. Seria muito interessante descobrir se esse realmente é o caso e o que isso significa tanto para o envelhecimento saudável, quanto para aqueles que sofrem de depressão tardia. Enquanto uma tendência à competição e grandes arrependimentos podem ser bons no começo da vida, no futuro essas reações podem não ajudar tanto. E conforme você envelhece pode ser melhor, ou no mínimo, mais pacífico, aprender, deixar pra lá, e continuar em frente.

 

Brassen, S., Gamer, M., Peters, J., Gluth, S., & Buchel, C. (2012). Don’t Look Back in Anger! Responsiveness to Missed Chances in Successful and Nonsuccessful AgingScience, 336 (6081), 612-614 DOI: 10.1126/science.1217516

 

EDIT: Em conversas pelo twitter com @TofuforBrains, eles levantaram algumas preocupações interessantes que não deixei muito claras no post, sendo que a maior delas é essa: será que os autores realmente chegaram ao ARREPENDIMENTO? Essa é difícil de responder. O que é o arrependimento e como ele se compara à raiva ou à decepção? Será que uma reação à decepção diferente de uma reação ao arrependimento, ou será que esses dois termos simplesmente descrevem a mesma coisa? Essa é uma pergunta sobre a qual vale a pena pensar. Arriscar.
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