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Nasa abandona plutônio como fonte de energia

Cientistas planetários queriam o eficiente suprimento de energia para explorar o sistema solar externo

 

Nasa
LEGENDA: O Gerador Avançado Stirling de Radioisótopos teria usado um quarto do plutônio necessário para as fontes de energia existentes da Nasa.
 

Por Eugene Samuel Reich e Revista Nature

 

A Nasa cancelou os trabalhos com um problemático sistema de energia de radioisótopos que deveria ajudar a próxima geração de veículos espaciais a chegar a planetas, luas e cometas do Sistema Solar externo.

Em um blog atualizado em 15 de novembro, o diretor da divisão de ciências planetárias da Nasa, Jim Green, declarou que a agência está encerrando operações em dois Geradores Avançados Stirling de Radioisótoaspos (ASRG) que estavam sendo construídos pelo Departamento de Energia dos Estados Unidos (DOE).

“Nossa decisão se baseia unicamente em limitações orçamentárias”, contou Green à Nature. Em três anos, a mudança economizará US$170 milhões para a Nasa; o orçamento de ciências planetárias perdeu US$300 milhões no ano fiscal de 2013, caindo para US$1,2 bilhão. (Scientific American é parte do Nature Publishing Group).

Cientistas planetários declaram que os sistemas teriam permitindo missões pioneiras a partes do Sistema Solar onde a energia do Sol não é suficiente para sustentar veículos espaciais movidos à energia solar.

O cancelamento é uma frustração para Jessica Sunshine, cientista planetária da University of Maryland em College Park, que trabalhou na Comet Hopper, proposta de missão movida a ASRG para visitar um cometa. “Nós gastamos muito tempo e dinheiro nos ASRGs, e eles permitiriam uma nova ciência incrível”, lamenta ela. A Comet Hopper foi a segunda colocada em uma competição que a Nasa organizou em 2012, que premiou uma missão com um aterrissador para Marte que não dependia de ASRGs e  deve ser lançada em 2016.

Os ASRGs cancelados teriam gerado energia elétrica suficiente a partir da expansão de gás aquecido pelo decaimento radioativo do plutônio-238. De acordo com a Nasa, os dispositivos têm a mesma saída de energia que a atual geração de Gerador Radioativos Termelétricos Multi-Missão (MMRTG), mas usam quatro vezes menos plutônio-238, um recurso escasso. Um MMRTG com 4,8 quilogramas de plutônio atualmente abastece a sonda Curiosity em Marte. 

Os Estados Unidos têm menos de 40kg de plutônio-238 restante, mas o DOE reiniciou sua produção este ano. Green declara estar confiante de que o DOE produzirá plutônio-238 a uma taxa de 1,5kg por ano até 2019. De acordo com ele, o plutônio-238 armazenado, junto com o novo suprimento, será suficiente para enviar outra sonda até Marte em 2020, e para completar outras missões na década de 2020 – sem precisar da eficiência adicional dos ASRGs.

O programa ASRG era cheio de problemas. De acordo com um artigo publicado em julho de 2013 pela Nasa, apareceram problemas técnicos em uma revisão de 2012, e a equipe de administração teve que ser reestruturada. O Departamento de Energia preferiu não comentar. De acordo com Green, a Nasa acreditava que o DOE tinha superado os problemas e que entregaria os sistemas até 2016, um ano e meio antes do previsto.

Além de conservar plutônio, os ASRGs teriam sido ideais para missões a locais frios, porque funcionam a temperaturas mais baixas que os atuais sistemas energéticos da Nasa. “Se você estiver em um ambiente muito frio, esse calor adicional pode aquecer o ambiente que você está tentando medir”, aponta Ralph Lorenz, cientista planetário do Laboratório de Fìsica Aplicada da Johns Hopkins University em Laurel, no estado de Maryland, que trabalhou em uma proposta de missão para aterrisar uma balsa movida a ASRG em um mar de Titã, uma das luas de Saturno. O conceito de Titã foi outro segundo colocado na competição de 2012.

Green insiste que, em uma época de orçamentos reduzidos, a Nasa não deveria pagar para desenvolver uma tecnologia mais eficiente quando já tem um sistema energético – os MMRTGs – que já foi testado e aprovado. “Nós temos algumas decisões difíceis pela frente, mas não é nada muito grave”, conclui ele.

Este artigo foi reproduzido com permissão da revista Nature. O artigo foi publicado pela primeira vez em 18 de novembro de 2013.