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Nasa escolhe rocha como próximo destino de seus astronautas

A controvertida Missão de Redirecionamento de Asteroides enfrenta críticas de conselheiros da Nasa

NASA
Concepção artística mostra parte do plano da Missão de Redirecionamento de Asteroides, da Nasa. A ideia é retirar roboticamente uma rocha de um asteroide e transportá-la até a alta órbita lunar. Astronautas visitariam a rocha em 2025.
Por Lee Billings 

Na década de 2020, o programa de voos espaciais tripulados da Nasa se dedicará a enviar astronautas até a alta órbita lunar para estudar uma pequena rocha retirada roboticamente da superfície de um grande asteroide, anunciaram oficiais da agência no dia 26 de março. A iniciativa é um marco para a futura Missão de Redirecionamento de Asteroides (ARM, em inglês) da agência, que deve preparar o cenário para futuras missões que enviarão humanos a Marte e a outros destinos no espaço profundo.

A decisão da Nasa chega com meses de atraso, depois que duas equipes independentes investigaram a melhor forma de atingir os objetivos da ARM. A proposta original da missão, batizada de Opção A, sugeria uma abordagem do tipo “pegar e guardar”, em que um rebocador robótico espacial captura um asteroide inteiro de pequeno porte  e o envolve com uma camada protetora antes de guiá-lo até uma órbita lunar estável. Apesar dos custos, estimados em até US$100 milhões mas elevados que a Opção A, a Opção B venceu porque oferece maior flexibilidade operacional ao propor a coleta de material, segundo o administrador associado da Nasa, Robert Lightfoot.

Durante coletiva de imprensa, Lightfoot advertiu que as pesquisas telescópicas ainda precisavam localizar asteroides pequenos e lentos o bastante para a Opção A, e que quaisquer alvos adequados teriam sido muito difíceis de caracterizar a partir da Terra com os equipamentos atuais. De acordo com Lightfoot, isso significa que a Opção A propunha tentativa única, envolvendo muita incerteza comparada à maior previsibilidade e o maior número de alvos possíveis para a Opção B.

“Levando em conta o que sabemos sobre os asteroides em que estivemos, existem rochas em suas superfícies”, explica ele, o que significa que controladores da missão teriam muitas opções. “´Resumindo, teremos muitos alvos quando chegarmos lá,”. Lightfoot também adiciona que a Opção B permitirá que a ARM colete e transporte objetos com até quatro metros de diâmetro para a alta órbita lunar.

A Nasa já identificou três possíveis alvos para a fase de coleta de rochas da ARM: os asteroides Itokawa, Bennu e 2008 EV5. A sonda japonesa Hayabusa visitou Itokawa em 2005, e Bennu é o destino da missão coletora de amostras OSIRIS-REx, da Nasa, programada para chegar ao asteroide em 2019. O asteroide 2008 EV5 nunca foi visitado por uma sonda mas, atualmente, a Nasa o considera como seu principal candidato para a ARM. A seleção final de alvos não ocorrerá antes de 2019.

“O 2008 EV5 já foi exaustivamente observado” usando telescópios infravermelhos e de rádio na opinião de  Lindley Johnson, executivo do Programa de Observação de Objetos Próximos da Terra (NEO, em inglês). Cientistas usaram essas observações para identificar a órbita do asteroide, além de seu tamanho, forma, composição e taxa de rotação. O 2008 EV5 parece uma noz com 400 metros de diâmetro em rotação lenta, com proeminente saliência envolvendo sua região medial. Esse é um asteroide carbonáceo, o que significa que ele é feito de uma mistura de rocha, compostos orgânicos e minerais ricos em água que se acredita espelharem a composição da nebulosa primordial onde nosso sistema solar se condensou pela primeira vez. Cientistas adorariam por as mãos em mais elementos como esses, mas não precisam que a ARM faça isso, particularmente porque a OSIRIS-REx pretende recuperar amostras de Bennu, outro asteroide carbonáceo primitivo. 

De qualquer forma, ciência não é missão principal da ARM. Seu propósito declarado é testar e desenvolver novas tecnologias para voos espaciais, como o Sistema de Lançamento Espacial da Nasa para foguetes de carga pesada, a cápsula tripulada Órion, para viagens ao espaço profundo e também um avançado motor solar-elétrico de propulsão, adequado para longas viagens de cargueiras. A Nasa apresenta as missões como avanços que demonstram como uma sonda pode alterar a órbita de asteroides potencialmente perigosos para a Terra – essa é a parte de “Redirecionamento” no nome da ARM.

De acordo com Lightfoot, o plano atual requer o lançamento do rebocador robótico no final de 2020, além de uma viagem de dois anos até seu asteroide-alvo. O rebocador robótico poderia se manter fixado ao asteroide por até 400 dias, selecionando cuidadosamente qual rocha coletar. Uma vez que a rocha tivesse sido coletada, o rebocador usaria essa massa extra para agir como um “atrator gravitacional”, orbitando o asteroide de modo a alterar subitamente sua trajetória. A mudança orbital seria mínima, observa Lightfoot, mas mensurável com instrumentos no solo terrestre, e seria realizada para demonstrar a capacidade que a Nasa tem de produzir mudanças orbitais mais robustas em futuros objetos que ameacem a Terra. Então, com a rocha em suas garras, o rebocador robótico voltaria até os arredores da Lua, para aguardar a chegada de dois astronautas em uma cápsula Órion até o final de 2025. Os astronautas se aclopariam ao rebocador robótico e conduziriam caminhadas espaciais para investigar a rocha antes de retornar à Terra, passando quase um mês inteiro no espaço.  

Por mais empolgante que essa missão possa parecer, ela está muito longe das propostas iniciais usadas para justificar a ARM, e muitos cientistas e legisladores veem sua forma atual com um entusiasmo moderado, senão puro desdém.

A gênese da ARM data de 2010, quando o Presidente Obama cancelou planos de retornar à Lua e se comprometeu, em vez disso, a enviar astronautas a um asteroide até 2025. Essa abordagem, acreditaram alguns especialistas, poderia rapidamente levar humanos até Marte através de visitas de curto prazo às luas marcianas, Phobos e Deimos, que são semelhantes a asteroides. O problema era que o orçamento da Nasa não incluía recursos suficientes para construir novos foguetes de carga pesada e cápsulas tripuladas de espaço profundo dentro do prazo. Não seria possível enviar astronautas a um asteroide em sua órbita nativa até 2025.

Mas havia um furo deixado pelas vagas palavras de Obama – e se a Nasa pudesse enviar um asteroide para os astronautas? Assim, nasceu a ARM. Agora, na forma mais recente da missão, até mesmo esse objetivo mais modesto foi reduzido. Em vez de enviar um pequeno asteroide inteiro até a alta órbita lunar para se encontrar com astronautas, uma rocha da superfície de um asteroide terá que ser suficiente.

Para críticos, essa constante mudança de objetivos é mau sinal para o futuro da missão e indica que a ARM seja um artifício criado principalmente para cumprir prazos políticos arbitrários em vez de auxiliar a Nasa a desenvolver missões para Marte. Alguns dos participantes da reunião do conselho consultivo da Nasa em janeiro expressaram seu ceticismo em relação à ARM como a alternativa mais adequada para permitir à agência desenvolver as capacidades necessárias, como o avançado motor solar-elétrico. “Se você vai gastar US$1,25 bilhão, além do custo do veículo de lançamento, para fazer alguma coisa”, declara Steve Squyres, cientista planetário da Cornell University e diretor do conselho, “e conseguir fazer as coisas mais importantes sem ir até a rocha, não vá até a rocha”.

De acordo com Mark Sykes, diretor do Instituto de Ciências Planetárias e crítico ferrenho da ARM, coletar uma rocha de um asteroide pode ser a opção mais pragmática e com o menor risco, mas para que serve?

“Não está muito claro como essa missão é necessária para avançar o objetivo declarado de enviar humanos para Marte”, aponta Sykes. “Ou para seus arredores”.

 

Publicado por Scientific American em 26 de março de 2015