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Nasa pode cancelar missão Spitzer

Cortes orçamentários determinam restrições na manutenção de projetos

Por Clara Moskowitz

 

Com base na avaliação de revisores independentes, a Nasa teve que realizar um balanço de sua frota de telescópios espaciais e decidir quais salvar e quais abandonar. E

Entre os vencedores está o Telescópio Espacial Hubble, o Observatório Chandra de Raios-X, e o telescópio caçador de planetas, Kepler, que iniciará uma missão planejada para compensar a recente falha de duas de suas quatro polias estabilizadoras.

O Telescópio Espacial Spitzer, de infravermelho, no entanto, pode ser desativado devido à falta de financiamento. E uma proposta de converter dados coletados pelo NEOWISE (Explorador de Pesquisa Infravermelha em Campo Vasto para Objetos Próximos à Terra, em tradução literal) em um formato utilizável por astrofísicos também foi considerada muito caro.   

As decisões ocorrem após o congresso americano reduzir o orçamento da Nasa, e cerca de metade do orçamento de astrofísica da agência será destinada  ao Telescópio Espacial James Webb (JWST), que está sendo preparado para lançamento em 2018.

Em 2014, por exemplo, o financiamento total da divisão de astrofísica foi de aproximadamente US$1,3 bilhão, dos quais US$658 milhões foram para o JWST. O Spitzer recebeu US$16,5 milhões este ano, e solicitou ainda menos para 2015, mas a Nasa considerou até essa quantia muito elevada. “Para mim é muito triste que esse país não consiga encontrar mais alguns milhões para manter essas os projetos ativos e funcionando como deveriam”, desabafa o lider do painel de revisão, Ben R. Oppenheimer, astrônomo do Museu de História Natural Americano, na cidade de Nova York.

Recomendações do principal Painel de Revisão Sênior de Astrofísica, bem como de dois paineis independentes que revisaram as missões Hubble e Chandra, foram divulgadas no início de março, e a Nasa divulgou sua resposta em 16 de maio.

Um processo semelhante ocorre a cada dois anos. Além do Chandra, do Hubble e do Kepler, o Telescópio Espacial Fermi de Raios Gama, o Telescópio de Espectroscopia Nuclear (NuSTAR) e a Missão SWIFT de Explosões de Raios Gama receberam extensões pelo menos até 2016, quando cada um deles será convidado a se inscrever para mais uma renovação. (A Nasa, porém, descartou o pedido de aumento de financiamento para projetos especiais realizado pela missão Swift, e a missão NuSTAR recebeu ordens de reduzir seus custos operacionais em 2015.)

A Nasa também estendeu sua participação no Observatório de Raios-X com Espelhos Múltiplos (XMM-Newton), da Europa, e no telescópio japonês Suzaku, e continuou o financiamento para analisar dados do satélite Planck, da própria Nasa, que foi desativado no ano passado.

A agência recusou o pedido de extensão do Telescópio Espacial Spitzer, mas a equipe tem uma chance de reenviar sua proposta com um plano orçamentário reduzido. “Nós estamos preparando outro pedido, que deverá ser guiado pelo que vimos na revisão sênior”, declara George Helou, diretor adjunto do Centro Spitzer de Ciência no Instituto de Tecnologia da Califórnia. 

O Spitzer foi lançado em 2003 como um observatório multi-tarefa que deveria analisar os comprimentos de onda infravermelhos de baixa energia bloqueados pela atmosfera da Terra.

Muitos objetos, como estrelas tênues e discos de formação planetária, radiam melhor em luz infravermelha. O Spitzer concluiu sua primeira missão em 2009, quando esgotou o suprimento de hélio líquido que usava para resfriar seus instrumentos.

A perda do líquido de arrefecimento deixou dois dos três instrumentos do Spitzer inutilizáveis, mas duas das quatro bandas de comprimentos de onda em sua câmera principal continuaram a operar em outra missão do Spitzer. “No momento ele consegue obter muitas imagens em algumas bandas de onda com uma sensibilidade imensa, mas suas capacidades estão muito reduzidas em comparação ao que ele costumava fazer”, lamenta Oppenheimer. “O comitê acredita que em vez de reduzir o financiamento de missões menores, encerrando uma missão grande será possível salvar todo o resto”.

O Spitzer já estava operando com apenas um terço de seu orçamento original, aponta Helou, e vinha reduzindo custos todos os anos. Encontrar mais cortes para fazer sem sacrificar muitas capacidades do observatório será difícil, declara ele. “Mas eu sou otimista, e acho que encontraremos uma solução”. 

Até o JWST ser ativado, nenhum outro telescópio sequer se aproxima da sensibilidade do Spitzer no infravermelho. O relatório de Revisão Sênior apontou que o Spitzer teve o maior número de inscrições entre todas as missões da Nasa de 2013 a 2014, o que significa que ele receberá sete vezes mais pedidos de observação do que pode acomodar.

Ainda que o Spitzer possa ser o mais prejudicado pela última revisão, praticamente todas as missões enfrentarão algum tipo de redução orçamentária.

Elementos menores de muitas das missões estendidas também foram cortados, como a maioria dos programas de “observador visitante”, que fornecem dinheiro para que cientistas que não são parte das equipes primárias de telescópios enviem propostas de pesquisa. “Os programas de observador visitante são muito poderosos porque aparecem pessoas de todas as partes do mundo propondo ideias que talvez os membros da equipe não imaginassem”, aponta Oppenheimer. “Mas eles têm que ser pagos”.

Um plano para modificar a missão NEOWISE, que caça asteroides próximos  capazes de oferecer risco de colisão  com a Terra financiado pela Divisão de Ciências Planetárias da Nasa, também foi afetado.

Uma equipe de astrofísicos ofereceu uma proposta de três anos chamada de MaxWISE para converter os dados que a missão já está obtendo em um formato que outros pesquisadores também possam usar – como em estudos de pequenos planetas chamados de anões marrons. “Essa é uma proposta bem legal, e não custa muito”, elogia Oppenheimer, que recomendou a aprovação do projeto. “Infelizmente, ela não será aprovada”.

Pelo menos algumas missões receberam notícias agradáveis: o Kepler estava hibernando enquanto cientistas investigavam como o telescópio poderia continuar a operar sem duas de suas quatro polias de reação, que o ajudam a apontar para alvos precisos no céu.

Pesquisadores divisaram uma maneira de compensar a falha ao apontar para o eclíptico – o plano da órbita terrestre – onde a pressão da radiação solar pode ajudar a equilibrar o observatório. “Essa foi uma saída extremamente inteligente para manter o satélite apontado com precisão suficiente para produzir uma ciência impressionante”, elogia Oppenheimer.

O diretor adjunto de projetos do Kepler, Charlie Sobeck, cientista do Centro de Pesquisa Ames, da Nasa, divulgou uma declaração em 16 de maio comemorando a decisão de aprovar a nova missão, chamada de K2. “A aprovação nos dá dois anos de financiamento para que a missão K2 continue a descobrir exoplanetas, e introduz novas oportunidades de observação científica para observar aglomerados estelares notáveis, estrelas jovens e velhas, galáxias ativas e supernovas”.