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Lições da nave espacial russa desgovernada

Especialistas propõem novos mecanismos de segurança para próximas missões 

 

Nasa
Foto da nave russa de carga, Progress 55, deixando a Estação Espacial Internacional em julho de 2014. O cargueiro Progress 59 se desintegrou na atmosfera da Terra em 7 de maio de 2015, nove dias após sofrer uma série falha logo após o lançamento.
Por Leonard David e SPACE.com

Um veículo cargueiro russo sofreu uma morte flamejante na atmosfera terrestre, nove dias após ser lançada em uma missão fracassada até a Estação Espacial Internacional.

De acordo com oficiais da agência espacial Russa, conhecida como Roscosmos, o cargueiro espacial não-tripulado Progress 59 se desintegrou em chamas às 23h04, horário de Brasília, sobre a parte central Oceano Pacífico.

O observador candense de satélites, Ted Molczan, informou que o Comando Estratégico dos Estados Unidos (USSTRATCOM) determinou que a Progress 59 retornou à Terra às 23h20, horário de Brasília, na quinta-feira. [Ver fotos da sonda Progress 59 aqui]

Fora de controle

A Progress 59 foi lançada em 28 de abril em um foguete russo Soyuz. O veículo carregava mais de 2.300 quilogramas de carga, incluindo 1.395kg de carga seca, 494kg de propelente, 420kg de água e 50kg de gases comprimidos, de acordo com a empresa russa de voos espaciais OAO RSC Energia.

Logo após o lançamento, porém, a nave de carga passou por problemas técnicos e entrou em queda, talvez como resultado de um problema com o terceiro estágio do propulsor do foguete Soyuz.

Controladores de solo da Rússia não conseguiram comandar a Progress devido à sua taxa de giro. Após várias tentativas frustradas de recuperar o controle da Progress 59, a Roscosmos reconheceu que a nave de suprimentos estava perdida, e que ela cairia de volta à Terra no futuro próximo.

Resquícios do progresso

Apesar da iminente reentrada da Progress 59, a Rússia não solicitou o envolvimento do Comitê de Coordenação de Destroços Espaciais Inter-Agências (IADC, em inglês), declara Holger Krag, diretor do Escritório de Destroços Espaciais da Agência Espacial Europeia no Centro Europeu de Operações Espaciais em Darmstadt, Alemanha.

Os propósitos primários do IADC são a troca de informações sobre atividades de pesquisa com lixo espacial entre membros de agências espaciais para facilitar oportunidades de cooperação na pesquisa com destroços espaciais, revisar o progresso de atividades de cooperação em andamento e identificar opções de mitigação de destroços. A Roscosmos faz parte do IADC.

Krag contou à Space.com que antes da queda da Progress 59, algumas partes da nave provavelmente atravessariam a atmosfera terrestre e atingiriam a superfície do planeta. Mesmo assim, de acordo com ele, havia uma chance excepcionalmente pequena de que alguma pessoa fosse ferida pelos destroços da nave.

Jogo de Adivinhação

De acordo com o cientista espacial Duncan Steel, que vem mantendo os olhos na localização e queda da Progress 59 a partir da Nova Zelândia, tentar prever esses eventos de reentrada não é fácil.

“Eu acho que prever essas coisas é como aquela cena em que uma canoa está sendo carregada lentamente até a borda das Cataratas do Niágara”, explicou Steel à Space.com. “Todos sabem exatamente o que vai acontecer, mas ninguém sabe quando. Conforme a canoa se aproxima, ela acelera um pouco, mas você ainda não sabe quando atingirá a borda. Então, quando ela finalmente chega lá, tudo acaba muito rápido... e não é bonito”.

Steel declarou que simplesmente não há como fazer uma previsão exata de reentrada até a última parte da órbita do veículo.

“Mas isso exigiria, ou uma vasta rede de radares de solo, ou posições precisas sendo telemetradas pela nave espacial”, explica Steel. “O problema é que a atmosfera superior se expande e contrai diariamente em resposta à luz do sol e outros fenômenos, especialmente explosões solares de raios-X e ultravioleta”.

Lições aprendidas

O mergulho mortal da Progress 59 já está sendo visto como um momento de aprendizagem em alguns círculos.

Krag, por exemplo, da Agência Espacial Europeia, declara que todas as grandes naves espaciais podem em breve ser equipadas com pequenos espelhos chamados de retro-refletores, para auxiliar em previsões de reentrada caso algo dê errado com sua missão. Essa ideia faria uso de pulsos laser lançados da Terra até uma nave espacial em apuros, que seriam refletidos de volta para seu ponto de origem.

“Isso nos ajudaria a rastrear veículos espaciais – aqueles que não mais respondem ao controle de solo”, explica Krag. “Essa é uma opção interessante”, conclui ele, adicionando que retro-refletores forneceriam medidas precisas do movimento de queda de uma nave espacial.

Publicado por Scientific American em 8 de maio de 2015.