Sciam
Clique e assine Sciam
Notícias

Nave Schiaparelli se prepara para pouso em Marte

Se for bem sucedida, a aterrissagem do dia 19 de Outubro seria história para os programas especiais da Europa

 

ESA/ATG medialab

Quase três semanas após o pouso da sonda Rosetta em um cometa, a Agência Espacial Europeia (ESA, na sigla em inglês) já se prepara para aterrissar outra espaçonave — dessa vez em Marte. Espera-se que a nave, chamada Schiaparelli, pousará no Planeta Vermelho no dia 19 de outubro.

Se comparado à pioneira missão Rosetta, um pouso em Marte é um objetivo mais convencional. Mas as apostas são altas para a ESA, uma vez que o placar para aterrissagens bem sucedidas em Marte está em 7 para Nasa, 0 para a Europa.

Operar na superfície do planeta também seria inédito para a agência espacial da Rússia, a Roscosmos, parceira na missão — e que planeja participar de outras futuras missões conjuntas entre Europa e Rússia, incluindo o pouso de um rover em Marte em 2020. A União Soviética chegou perto do sucesso em 1971 com a sonda Mars 3, que falhou apenas 20 segundos após aterrissar na superfície.

Dada a importância do pouso, a descida através da fina atmosfera de Marte representará “nossos próprios seis minutos de terror”, diz Francesca Ferri, cientista planetária da Universidade de Pádua, Itália, se referindo à fala utilizada para descrever o pouso do rover Curiosity, da Nasa, em 2012. “Cerca de 50% das aterrissagens em Marte não foram bem sucedidas, então não é fácil. Mas estou me sentindo bastante confiante,” afirmou Ferri, que lidera um experimento para estudar dados atmosféricos da descida da Schiaparelli.

A nave, desenhada pela ESA, é do tamanho de um carro Smart e representa uma parte da missão ExoMars, que foi lançada do Cazaquistão em março em um foguete russo. A outra metade é uma sonda — também projetada pela ESA — que analisará gases da atmosfera marciana a partir de dezembro de 2017.

Pouso empoeirado

A Schiaparelli se separou de sua nave mãe no dia 16 de outubro. Seu papel principal é demonstrar tecnologia de pouso, ainda que possua uma pequena missão científica: estudar as tempestades de poeira do planeta vermelho pelo tempo que sua bateria durar, algo entre dois e quatro dias.  

A nave pousará justamente na época das tempestades de poeira — e cientistas da Nasa avisaram que Marte poderá presenciar uma rara tempestade que atingirá todo o planeta neste ano, o que tornaria as condições de pouso mais desafiadoras, além de dificultar a visibilidade. Até agora, cientistas da ESA afirmam que não há sinais de uma evento desse porte, embora isso possa mudar a qualquer momento. A Schiaparelli foi desenhada e testada para tempestades de poeira, mas uma demasiado intensa poderia causar problemas. Seria ideal ter “um tempo claro e ameno para a descida, com uma tempestade de poeira acontecendo um ou dois dias depois,”  diz Håkan Svedhem, cientista do projeto ExoMars 2016, da ESA.  Ele também afirmou que a nave deve pousar bem, independentemente do clima.

A ideia de pousar no meio de uma tempestade de poeira é estimulante para Francesca Esposito, a principal investigadora de um dos instrumentos da nave, chamado de DREAMS, que medirá características da poeira de Marte, além de registrar dados sobre a temperatura, velocidade do vento, umidade e pressão da superfície do planeta. “Uma tempestade de poeira, ou ao menos poeira eletrificada na atmosfera, seria ótimo para nós,” explica Esposito, que trabalha no Observatório Astronómico Capodimonte (OAC) do Instituto Nacional Italiano de Astrofísica (INAF), em Nápoles, Itália. Uma atmosfera com poeira também esquentaria a temperatura noturna de Marte, o que reduziria a necessidade da nave esquentar a si mesma, aumentando a duração da bateria, ela diz.  

Relâmpagos em Marte

Uma antena colocada no instrumento DREAMS medirá o campo elétrico de Marte pela primeira vez, e poderá detectar relâmpagos, se eles existirem por lá. A equipe espera descobrir se campos elétricos geram tempestades de poeira, se essas, em troca, aumentam os campos elétricos do planeta, e como as tempestades, eventualmente, param. Essas informações podem ajudar no entendimento básico da física da atmosfera do planeta, e pode ser útil para futuras missões tripuladas ou para construir habitats em Marte.

O alvo de pouso da Schiaparelli é uma planície suave conhecida como s Meridiani Planum. O rover Opportunity, da Nasa, está situado a 15 quilômetro fora da elipse de pouso de 100 x 15 quilômetros da Schiaparelli, e tentará obter imagens da descida da nave, diz  Mark Lemmon, cientista planetário da Texas A&M University, localizada na cidade de College Station, Texas. Ainda que o paraquedas do ExoMars apareça como não mais do que um cisco, as fotos poderiam ajudar a revelar como o vento influencia na trajetória, afirma Lemmon, acrescentando que tais imagens representariam a primeira vez que um pouso em Marte seria visto da superfície.

Qualquer um que espere fotos espetaculares da própria Schiaparelli poderá ficar desapontado — elas serão limitadas a 15 fotos em preto e branco da superfície marciana vista do ar, e ter a intenção de remontar a trajetória da nave. Nenhuma foto será tirada na superfície, porque a nave não tem uma câmera para este fim.

Por enquanto,  Svedhem apenas espera por uma primeira aterrissagem europeia bem sucedida. Nos primeiros três minutos após a entrada na fina atmosfera de Marte, a velocidade da Schiaparelli será reduzida apenas por arrastamento, antes que seu paraquedas seja acionado para desacelerar a nave mais rapidamente. A pouco mais de um quilômetro da superfície, depois de 5 minutos e 22 segundos, o paraquedas deverá se soltar e propulsores entrarão em ação. A 30-second burn deixará a nave a alguns metros do chão e ela passará a viajar a alguns metros por segundo antes de atingir a superfície, onde uma estrutura destrutível em formato de favo de mel deverá amortecer a queda. “Eu não posso relaxar até sabermos de fato que ela estará de pé no chão,” afirma Svedhem.

 

Elizabeth Gibney, revista Nature

Este artigo foi reproduzido com permissão e publicado originalmente na Nature no dia 17 de outubro de 2016.

 
Para assinar a revista Scientific American Brasil e ter acesso a mais conteúdo, visite: http://bit.ly/1N7apWq