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Nobel de Medicina para sistema cerebral de localização

Cientistas descreveram mecanismos que permitem que um animal  saiba onde está

 

Wikimedia Commons
 John O`KeefeMay-Britt Moser e Edvard I. Moser, ganhadores do Prêmio Nobel de Medicina de 2014
Por Gary Stix

Três pesquisadores foram homenageados em 6 de outubro com o Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina 2014 por suas descobertas de que o cérebro tem sistemas definidos que rastreiam a localização de um animal para que ele saiba onde está (e esteve) à medida que se desloca pelo mundo.

Em 1971, John O`Keefe, do University College London, descobriu as chamadas “células de lugar” (“place cells”, em inglês), um termo simples e mais descritivo que a expressão universal “GPS cerebral”.

As células de lugar, localizadas no hipocampo, uma parte crucial do centro de formação da memória, se ativavam quando um rato estava em um determinado local, mas não em outro.

Décadas depois, em 2005, o casal norueguês May-Britt e Edvard Moser, da Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia, em Trondheim, dois ex-pós-doutorandos de O’Keefe, ampliou o trabalho original ao relatar a existência de “células em rede”, ou “células de coordenadas” (“grid cells, em inglês) no córtex entorrinal próximo.

Essas células fornecem um conjunto de coordenadas que permitem a um rato “navegar” espacialmente através de seu ambiente em conjunto com outras células que reconhecem o posicionamento da cabeça e os limites de um dado espaço restrito, como uma sala. As células em rede e de lugar trabalham em conjunto para formar um sistema interno de navegação.

Aplicativos de última geração, melhores que o Waze (um dos maiores aplicativos de trânsito e navegação do mundo baseado em uma comunidade) ou qualquer outro sistema que possa ser baixado digitalmente, esses dois sistemas celulares provavelmente nos transmitem aquela sensação de reconhecimento imediato que sinaliza a mensagem “sim, é aqui que estou”; “essa é minha casa, ali é meu escritório, lá é a entrada para o metrô”.

O termo “provavelmente” [no parágrafo acima] se deve ao fato de que algumas dessas coisas ainda precisam avançar além de estudos focados em roedores para serem confirmadas em humanos, embora já tenham sido detectadas evidências de células em rede e de lugar no cérebro humano.

Casos de pacientes com Alzheimer que saem vagando noite afora, noticiados quase diariamente, resultam justamente da lenta morte de neurônios no córtex entorrinal e no hipocampo.

Enquanto esperamos por novos avanços sobre o assunto, confira a matéria “The Matrix in Your Head” (em inglês), um grande relato sobre essa pesquisa por James Knierim, professor de neurobiologia na University of Texas Medical School, que apareceu na revista Mind, da Scientific American, em 2007. Nesse artigo, Knierim escreveu de forma presciente: “Essa descoberta é uma das mais notáveis na história de registros unitários isolados de atividade cerebral. Ao ler o artigo científico que anunciava essa descoberta em meu escritório, percebi imediatamente que estava lendo um trabalho de importância históricaem neurociência. Ninguém jamais havia relatado uma propriedade de resposta neural tão geometricamente regular, tão cristalina, tão perfeita. Como é que isso poderia ser possível? Mas os dados eram convincentes”.

“Isso muda tudo”, murmurei.

Para as últimas notícias sobre o casal Moser, leia a história “Neuroscience: Brains of Norway” (Neurociência: Cérebros da Noruega", em tradução literal) [em inglês], por Alison Abade de Nature News, que felizmente estava pronta para publicação quando o anúncio do Prêmio Nobel foi feito.

Sobre o autor: Gary Stix, um editor sênior, comissiona, escreve e edita reportagens, notícias e blogs da Web para a SCIENTIFIC AMERICAN. Sua área de cobertura é neurociência. Frequentemente, ele também tem sido editor de edições ou seções/reportagens especiais sobre temas que vão de nanotecnologia a obesidade. Ele trabalhou por mais de 20 anos na SCIENTIFIC AMERICAN, após três anos como jornalista de ciências no IEEE Spectrum, a publicação carro-chefe do Instituto de Engenheiros Elétricos e Eletrônicos. Ele tem uma licenciatura em jornalismo pela New York University. Com sua esposa, Miriam Lacob, ele escreveu uma cartilha geral sobre tecnologia chamada “Who Gives a Gigabyte?”

As opiniões expressas são as do autor e não necessariamente as da Scientific American

Sciam 6 de outubro de 2014