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Novo mapeamento revela a topografia oceânica

Menos de 0,05% do leito marinho do planeta foi mapeado em detalhe  

Google Earth, D.T. Sandwell/Instituto de Oceanografia Scripps.
Novo mapa gráficos as profundezas dos oceanos da Terra (Atlântico, na figura) mostra detalhes sem precedentes, usando dados de satélite. As cores quentes correspondem a formações como montanhas e plataformas continentais; cores mais azuis representam as áreas mais profundas, como trincheiras.

 

 
Por Jon Copley e The Conversation UK

 

Este ensaio foi reproduzido com permissão de The Conversation, uma publicação on-line que cobre as mais recentes pesquisas

É comum escutarmos comentários como “95% dos oceanos são inexplorados” ou “sabemos mais sobre a superfície da Lua ou de Marte que sobre leitos oceânicos”. 

Mas isso realmente é verdade? E, o que queremos dizer com “explorado”?

Todo o leito oceânico planetário acaba de ser mapeado com uma resolução máxima de cerca de 5.000 metros. Isso significa que podemos ver a maioria dos grandes relevos a uma distância de 5 km nessas cartas.

Essa é a resolução de um novo mapa global do leito oceânico divulgado em 3 de outubro por David Sandwell do Scripps Institute of Oceanographyem San Diego e seus colegas.

Para criar o mapa, eles usaram alguns truques elegantes com satélites para estimar a paisagem do leito marinho e até revelaram alguns aspectos da crosta da Terra, oculta sob camadas sedimentares.

Ao contrário do mapeamento terrestre, não podemos fazer levantamentos topográficos do fundo do mar diretamente a partir de satélites que usam radar, porque a água marinha bloqueia essas ondas de rádio. Mas satélites podem usar radar para medir com muita precisão a altura da superfície do mar. E, se houver medições suficientes para subtrair os efeitos de ondas e marés, satélites até conseguem mensurar as ondulações da água superficial, resultantes da paisagem subjacente no leito oceânico.

Onde se ergue uma grande cordilheira ou uma montanha submarina, por exemplo, o pequeno aumento de gravidade local resultante de sua massa “puxa” a água do mar, formando uma ligeira elevação, ou onda, acima dela. Se, em vez disso, houver uma fossa oceânica (uma grande depressão no relevo marinho), a gravidade local mais fraca produz um movimento equivalente, ou seja, para baixo, na superfície do oceano.

“Ler” essas ondulação, ou marolas, superficiais é uma façanha surpreendente de precisão, que envolve lasers para monitorar a trajetória do satélite que está fazendo a medição e, inevitavelmente, muita matemática para processar os dados.

O novo mapa utilizou dados dos satélites CryoSat-2 e Jason-1 e revela aspectos topográficos nunca vistos em mapas baseados em dados de satélites mais antigos. O mapa global do leito marinho anterior, criado com as mesmas técnicas e publicado em 1997, tinha uma resolução de aproximadamente20 km.

Portanto, na realidade temos um mapa de 100% do leito oceânico com uma resolução de cerca de 5 km.

A essa distância podemos ver as principais características de sua paisagem oculta, como as cordilheiras, ou dorsais, meso-oceânicas e fossas oceânicas. Nesse sentido, portanto, o leito marinho certamente não é “95% inexplorado”. Mas, devido ao véu aquoso de nosso planeta, o novo mapa é, admitidamente, menos detalhado que os de Marte, da Lua, ou de Vênus.

A nave espacial Magellan da Nasa mapeou 98% da superfície de Vênus com uma resolução de cerca de 100 metros. A superfície de Marte também foi escaneada, em sua totalidade, com essa nitidez; e pouco mais de 60% do planeta vermelho já foram cartografados com uma precisão de cerca de 20 m. Paralelamente, selenógrafos, que já haviam mapeado toda a superfície da Lua a uma resolução de cerca de 100 metros, agora conseguiram uma definição de até sete metros.

Aqui na Terra, temos que usar sonares em vez de satélites para mapear o fundo do oceano em maior detalhe.

Modernos sistemas de sonares a bordo de navios conseguem escanear o leito marinho a uma resolução de cerca de 100 metros através de uma faixa estreita abaixo do navio. Esses mapas mais detalhados agora abarcam de 10% a 15% dos oceanos, uma área aproximadamente igual à da África [30.221.532 km2].

O nível de detalhe alcançado pelo mapeamento feito por esses sistemas náuticos ainda revela muitas surpresas.

A primeira fase de buscas do avião desaparecido da Malaysian Airlines voo MH370 no Oceano Índico [os esforços foram retomados em 6 de outubro], que envolveu mapeamentos de navios para planejar futuros levantamentos por veículos subaquáticos, descobriu montanhas submarinas e outros relevos que não apareciam em mapas derivados de satélites para essa área.

Mas, se quisermos detectar coisas de apenas alguns metros de tamanho no leito marinho, como os destroços de uma aeronave desaparecida ou as espiras [cones em forma de espiral] minerais de respiradouros vulcânicos submarinos que minha equipe investiga, precisamos levar nossos sistemas de sonares para muito mais perto do fundo do mar com veículos subaquáticos ou instrumentos rebocados.

Até agora, menos de 0,05% do leito oceânico foi mapeado por sonares a esse nível altíssimo de detalhe. Essa área equivale mais ou menos à da Tasmânia [90.758 km2]. Mas é claro que ver, de fato, o fundo do mar com câmeras ou com nossos próprios olhos significa chegar ainda mais perto, utilizando veículos operados remotamente ou submersíveis tripulados.

Portanto, o meme dos “95% inexplorados” realmente não corresponde a toda a história de nossa exploração oceânica.

Quando se trata de ter um mapa em grande escala, o leito marinho talvez não seja tão inexplorado quanto poderíamos supor: temos uma cobertura de 100% para uma resolução de5.000 metrose outra que abarca entre 10% e 15% com definição de cerca de 100 m. Essa última é semelhante à resolução dos atuais mapas planetários de Marte e Vênus.

No entanto, nossa exploração dos oceanos depende do que queremos saber. Se nossas perguntas forem: “Como é o relevo lá embaixo”, ou “O que se passa lá embaixo?”, então a área “explorada” é questionavelmente inferior até ao 0,05% mapeado até agora na mais alta resolução possível por sonar.

Filosoficamente, quando se trata de explorar qualquer lugar em nosso mundo dinâmico, a pergunta é: como e quando decidimos que ele “foi explorado”? Declaramos “missão cumprida” assim que vimos um local pela primeira vez?

As florestas locais pelas quais passeio com meu cão têm um aspecto muito diferente no inverno em comparação com o verão, com espécies diferentes florescendo em épocas distintas. Eu deveria considerá-las “exploradas” após minha primeira visita em apenas uma estação? A exploração de nosso mundo começa com o mapeamento, mas talvez ela realmente não tenha um fim.

Jon Copley recebe verbas do Natural Environment Research Council.

Este artigo foi originalmente publicado por The Conversation. Leia o artigo original [em inglês].

Sciam 9 de outubro de 2014