Sciam
Clique e assine Sciam
Notícias

Nova espécie de anuro dos Neotrópicos carrega seu coração à flor da pele

Do grupo dos "sapos de vidro", anfíbio tem peito e ventre cobertos por tecido transparente

Ross Maynard
Na América do Sul e na América Central vive um grupo de chamados “sapos de vidro”, que surpreendem por apresentarem uma pele transparente cobrindo o ventre e revelando seus órgãos. Contudo, uma nova espécie recém-descoberta na região da Amazônia no Equador vai além: ela expõe todo seu coração, graças à pele transparente que se estende por todo o seu peito e sua barriga.

O novo anuro foi descrito por uma equipe de cientistas liderados por Juan M. Guayasamin, da Universidade de Quito, no Equador, em edição da revista de acesso livre ZooKeys.

Ele também pode ser distinguido pelos pontos verde-escuros relativamente grandes atrás da cabeça e da maior parte de seu corpo. Além disso, a espécie emite um som característico e longo.

O novo anuro é chamado Hyalinobatrachium yaku, cujo nome da espécie (yaku) é traduzido como “água” em quéchua, a língua local. Água e, mais especificamente, riachos lentos são cruciais para a reprodução de todo os sapos de vidro conhecidos.

O comportamento reprodutivo é também bastante incomum nessa espécie. Relata-se frequentemente que os machos chamam as fêmeas por baixo das folhas e cuidam da ninhada de ovos.

Tendo identificado indivíduos da nova espécie em três localidades, os pesquisadores observam algumas diferenças comportamentais entre as populações. Duas delas, encontradas na vegetação ribeirinha de uma floresta intacta em Kallana, têm emitido sons da parte inferior das folhas a poucos metros acima dos riachos lentos, relativamente estreitos e pouco profundos. Outro anuro da espécie foi observado em uma área coberta por florestas secundárias na vila equatoriana de Ahuano. Da mesma forma, o anfíbio foi encontrado na parte inferior de uma folha um metro acima de um riacho lento, estreito e pouco profundo.

No entanto, na terceira localidade - uma floresta secundária perturbada em San José de Payamino - os anfíbios estudados estavam empoleirados em folhas de pequenos arbustos, samambaias e gramíneas cerca de 30 a 150 cm acima do solo. Surpreendentemente, cada um deles estava a uma distância superior a 30 metros do riacho mais próximo.

Os pesquisadores observam que, dada a distância geográfica de aproximadamente 110 km entre as localidades onde a nova espécie foi encontrada, é provável que ela tenha uma distribuição mais ampla, incluindo áreas no vizinho Peru.

A incerteza quanto ao seu alcance distributivo vem de uma série de razões. Em primeiro lugar, o tamanho minúsculo da espécie - cerca de 2 cm - torna difícil detectá-la por debaixo das folhas. Então, mesmo que espécimes tenham sido previamente coletados, seria quase impossíveis de identificá-los a partir de coleções em museus, pois muitos dos traços característicos, como as marcas verde-escuras, estariam se perdendo após a preservação. É por isso que o estado de conservação da espécie foi listado como Deficiência de Dados, de acordo com os critérios da Lista Vermelha da IUCN.

No entanto, os cientistas apontaram as principais ameaças às espécies, incluindo a extração de petróleo na região e a poluição da água, o desenvolvimento rodoviário, a degradação do habitat e o isolamento relacionados.

“Presumidamente, os sapos de vidro requerem extensões de floresta para interagir com as populações próximas. As estradas agem potencialmente como barreiras para a dispersão de indivíduos transitórios”, explicam os autores.

Pensoft Publishers
Para assinar a revista Scientific American Brasil e ter acesso a mais conteúdo, visite: http://bit.ly/1N7apWq