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Nova estratégia da Casa Branca prepara a Terra para possíveis quedas de asteroides

O Departamento de Políticas de Ciência e Tecnologia lançou um novo plano para proteger a Terra das perigosas rochas espaciais

Shutterstock
Meteorito que cruzou o céu de Cheliabinsk, na Rússia, em 2013

Não há dúvida de que grandes encrenqueiros pairam pelo cosmos. Sabemos que asteroides e cometas inesperados podem resultar em um dia ruim aqui na Terra, uma vez que nosso planeta já recebeu muitos invasores inconvenientes há muitos anos e ainda tem as crateras para provar. Também houve o barulhento alerta recente quando um meteorito explodiu no céu próximo a Cheliabinsk, Rússia, no início de 2013, causando danos em propriedades e ferimentos significativos. O fato é que nosso mundo está na mira de objetos próximos à Terra (NEOs, na sigla em inglês). Mas o que fazer quanto a esses demônios cósmicos é outra questão.

Nos dias finais da administração do presidente Barack Obama, o Departamento de Políticas de Ciência e Tecnologia da Casa Branca (OSTP) lançou  uma “Estratégia Nacional de Preparo para Objetos Próximos à Terra” (chamados de NEOs, em inglês) na semana passada. A estratégia estabelece os principais objetivos que o país precisará alcançar para se preparar para uma ameaça de NEOs, mostrando que alguns líderes estão levando o perigo mais a sério. Se o governo dos EUA está disposto a direcionar financiamentos significativos para esses esforços, no entanto, ainda é mistério. “Essa é uma questão que, por alguns anos, foi algo mais ou menos risível,” afirma William Ailor, membro da Corporação Aeroespacial. O relatório da Casa Branca mostra que existe um interesse de alto nível na ameaça de NEOs, e que mesmo que NEOs não estejam entre as maiores ameaças que enfrentamos, as consequências de um impacto poderiam ser terríveis. “É importante manter os olhos abertos,” Ailor afirma, e o novo relatório “nos faz colocar os pés no chão.”

Estratégia Skyfall


O relatório de 19 páginas, produto de uma facção de especialistas de várias agências chamado de grupo de trabalho DAMIEN (da sigla em inglês Detecção e Atenuação do Impacto de Objetos Próximos à Terra), foi publicado dia 3 de janeiro. De uma maneira geral, o grupo acredita que os EUA precisam de mais ferramentas para monitorar as rochas espaciais, e que uma maior cooperação internacional é necessária. Especificamente, o relatório delimita vários objetivos, incluindo aumentar a habilidade dos EUA e de outros países de detectarem os NEOs mais rapidamente, além de monitorarem seus movimentos e caracterizarem os objetos de maneira mais completa. Também aponta que mais pesquisas são necessárias para estudar como melhor desviar  uma rocha espacial que possa estar em rota de colisão com a Terra. Além disso, a estratégia pede por um modelo melhor e mais integrado das trajetórias dos NEOs para reduzir as incertezas de suas órbitas e possíveis efeitos de impactos.

Se, de fato, uma colisão de NEOs ocorrer, a estratégia também busca desenvolver procedimentos de emergência nacionais e internacionais coerentes para diferentes cenários de impacto, como impactos no oceano, numa região costeira ou uma enorme porção de terra. Precisamos estar preparados para responder e para nos recuperarmos de um evento assim de maneira ordenada e no tempo apropriado, afirma o relatório.

Por último, os objetivos estratégicos do documento destacam a necessidade de fazer com que todas as nações concordem que o risco de impacto de um NEO na Terra é um desafio global, que exige cooperação e coordenação planetária. Protocolos e limiares para ação são necessários não apenas nos EUA, mas internacionalmente.

Um novo passo a frente

O grupo de trabalho representa um importante avanço no comportamento relacionado à ameaça de NEOs, afirma Lindley Johnson, oficial de defesa planetária da Nasa do Diretório de Missões Científicas da Agência e co-presidente do projeto DAMIEN. O esforço foi “a primeira vez em que sentamos e realizamos uma abordagem ‘governamental’”, ele diz, “para fazer o que precisa ser feito para nos prepararmos para responder a descoberta de um possível impacto de asteroide apropriadamente.” Johnson diz que possuir uma estratégia aprovada “é um enorme primeiro passo,” mas detalhes de como cumprir esses objetivos virão mais tarde, através de um plano e ação a ser determinado. “Então os departamentos e agências relevantes precisarão dar os passos necessários para cumprir o plano de ação,” afirma ele.

Definir o plano de ação é o próximo passo para o DAMIEN, assim que o OSTP do presidente eleito, Donald Trump, se estabelecer. “Nós rascunhamos algumas coisas, mas ainda precisamos escrever. Isso levará mais um ano, se continuarmos nesse caminho.”

Por um lado, especialistas em NEOs sentem-se encorajados pelo documento do OSTP. Mas, como sempre, estratégias no papel precisam ser apoiadas, em algum momento, por investimentos. Ray Williamson, um membro facultativo da Universidade Espacial Internacional, em Estrasburgo, França, sauda o relatório da Casa Branca. Como ex-astrônomo e membro da Equipe de Ação 14 das Nações Unidas, que focou por anos nos perigos dos NEOs, ele acredita que o documento diz “todas as coisas certas e pede pelas abordagens corretas” para atenuar o perigo de um asteroide. Mas, como acontece com a maioria dos eventos de alto impacto e baixa probabilidade, “motivar as várias agências federais a seguirem os bons conselhos desse relatório será um enorme desafio,” ele acrescenta. O fato da estratégia da Casa Branca envolver cooperação com entidades estrangeiras torna o trabalho ainda mais apaixonante. “Agências federais, aqui e no exterior, geralmente sentem que mal possuem financiamento suficiente para cumprir suas missões primárias e podem hesitar em devotar recursos para tal esforço,” diz Williamson. “Fazer essa estratégia funcionar exigirá uma atenção significativa para fornecer o financiamento necessário para a implantação.”

Caso em questão: mais cedo neste mês, a Nasa aprovou que duas novas missões de naves espaciais, de uma lista de cinco, fossem adiante. Uma viagem para a comitiva de asteroides troianos de Júpiter e uma sonda para um asteroide de metal gigante conhecido como 16 Psyche ganharam de uma proposta para uma Câmera de NEOs (NEOCam). Esse telescópio ficaria na Terra e identificaria e observaria asteroides e cometas não catalogados que representassem ameaça para a Terra. Ainda que a NEOCam não tenha sido selecionada, a Nasa concedeu um financiamento maior para que estudos relacionados ao conceito da NEOCam continuem por mais um ano. Mas ainda não se sabe se essa missão sairá do papel. “Ainda não sei o que faremos pela NEOCam — mas estamos trabalhando nela” diz Johnson.

Trabalho internacional a frente

O esforço por cooperação internacional em relação à ameaça dos NEOs é essencial, afirma Detlef Koschny, chefe do segmento dos NEOs no programa Consciência Situacional do Espaço, da Agência Espacial Europeia (ESA). “Dentro da ESA, estamos trabalhando em passos parecidos para estarmos preparados,” diz Koschny. “Especificamente, continuaremos a dar total apoio à colaboração internacional, que já está bem encaminhada.”

O encontro de 2017 da Academia Internacional de Astronáutica sobre defesa planetária, que acontecerá em maio em Tóquio, realizará um “exercício de decisão” envolvendo um impacto de asteroide fictício na Terra. O ensaio ajudará avaliar as reações das lideranças, requisitos de informação, reações relacionadas à gestão de emergências — incluindo planejamento de rotas de evacuação — em resposta à situação hipotética. Ailor, da Corporação Aeroespacial, presidirá o encontro e já coordenou exercícios similares nos últimos anos com participantes da Nasa e dos departamentos de Defesa, Estado e Segurança Interna dos EUA (incluindo sua Agência Nacional de Gestão de Emergências, ou FEMA, na sigla em inglês), junto com a Casa Branca e outros. A última simulação ocorreu no dia 25 de outubro de 2016, em El Segundo, Calif. “Muito trabalho precisa ser feito em nível internacional,” ele afirma, “para que pessoas ao redor do mundo entendam que esse é um problema global.”

Leonard David

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