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Novos resultados sobre rapidez de aquecimento da Terra

O aquecimento atual é o mais rápido dos últimos 11 mil anos mas velocidade foi aquém de expectativas

Kevin Gill/Flickr
A Terra está esquentando mais rápido que em qualquer momento dos últimos 11 mil anos, mas cientistas não entendem porquê a atmosfera esquentou menos que o esperado na última década. Imagem: Flickr/Kevin Gill
Por Alex Kirby e The Daily Climate

LONDRES – Várias autoridades da mudança climática deram boas-vindas reservadas a uma pesquisa sugerindo que a Terra pode esquentar mais lentamente do que cientistas esperavam.

Uma equipe internacional de pesquisadores liderados por Alexander Otto, do Instituto de Mudança Ambiental da University of Oxford, relatou suas conclusões no periódico Nature Geoscience.

Atualmente a Terra está esquentando mais rápido que em qualquer outro momento dos últimos 11 mil anos, mas cientistas não entedem claramente porque a atmosfera se aqueceu menos que o esperado na última década – e mais lentamente que na década de 90.

Os pesquisadores observaram como a década passada afetaria a sensibilidade de longo prazo da mudança climática se as concentrações atmosféricas de dióxido de carbono dobrassem, e sugerem que a Terra se aquecerá mais lentamente que o esperado neste século.

Mas mesmo que o aquecimento possa ser mais lento, dando aos políticos mais tempo para agir, os cientistas ainda acreditam que as temperaturas acabarão subindo para 4ºC acima de níveis pré-industriais – muito acima dos níveis de perigo.

Clive Hamilton é professor de ética pública da Charles Sturt University, na Austrália, e autor de Requiem for a Species: Why we resist the truth about climate change (“Réquiem para uma espécie: porque resistimos à verdade sobre a mudança climática”, literalmente). Publicado em 2010, o livro declara que a mudança climática terá consequências nocivas e de grande escala para a vida na Terra, e que já é tarde demais para prevení-las. 

“O estudo certamente deveria ser levado muito a sério, mas precisaremos observá-lo durante um ou dois anos e ver se ele resiste às evidências”, observa Hamilton. “Vamos esperar que eles estejam certos; essa é a primeira boa notícia que tivemos em muito tempo”. 

Ainda é adivinhação

Geoff Jenkins é o ex-diretor de previsão da mudança climática do Centro Headley para Previsão e Pesquisa Climática do Met Office. De acordo com ele: “Até realmente compreendermos porquê o aumento na temperatura global entrou em pausa na última década – e ainda não compreendemos – temos que adivinhar quais são as implicações para a sensibilidade climática e, portanto, para as projeções futuras”.

Se a pausa for uma “correção” de um aumento natural que ocorreu nas décadas anteriores, então a sensibilidade climática a emissões de carbono pode de fato ser mais baixa que a estimativa central do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, sugerindo que elevações futuras serão menores, adiciona ele. 

Mas se a pausa for um contrapeso natural para a elevação criada pela humanidade, então esse contrapeso desaparecerá em algum momento e colocará o mundo de volta no caminho da estimativa central, alertou ele. “Não vejo como podemos dizer o que vai acontecer até compreendermos as razões por trás disso”.

Muitos governos prometeram tentar limitar o aquecimento atmosférico a não mais de 2ºC acima de níveis pré-industriais, acreditando que esse limiar evitará mudanças climáticas perigosas.

Estimativas anteriores mostraram que para isso seria necessário que as emissões globais de gases estufa atingissem um pico em 2020 e depois caíssem, um prospecto que parece inatingível, já que as emissões continuam a aumentar rapidamente. 

Outro membro da equipe de pesquisa, Myles Allen da ECI Oxford, acredita que as descobertas oferecem certo otimismo. “Antes disso, muitos estavam bem deprimidos com o fato de que, não importa o que fizéssemos, ainda ultrapassaríamos os 2ºC”, conta ele. “Mas essa não é mais uma conclusão inevitável”.

Isso significa que as negociações climáticas atrasadas da ONU ainda poderiam produzir um acordo funcional. Se um tratado entrar em vigor em 2020 e levar a rápidas reduções de emissões, “resta uma boa chance de atingirmos a meta de 2ºC”, conclui Allen.

Dentro dos oceanos

Explicações para a atual pausa são os efeitos mascaradores da poluição sobre gases estufa, o fenômeno sazonal El Niño, e pequenas variações solares. Também parece que grande parte do calor está indo para os oceanos, e não para a atmosfera.

Otto e seus colegas estimaram quanto aquecimento, com emissões crescentes, o mundo provavelmente sofrerá quando os níveis de dióxido de carbono tiverem dobrado desde épocas pré-industriais. Sua estimativa mais provável é 1,3º, e não a elevação de até 1,6º sugerida por estudos anteriores.

“No curto prazo, talvez o aquecimento seja menor que o esperado”, declara Otto.

Por se tratar de um assunto tão polêmico, cientistas pedem cautela na avaliação da pesquisa. Um aumento de 4ºC em temperaturas médias globais poderia significar aumentos regionais muito maiores. É provável que os oceanos liberem grande parte do calor que estão absorvendo, o que retornará para a atmosfera.

Então o aquecimento poderia acelerar de maneira rápida e imprevisível. E dadas as tendências atuais, é provável que o uso de combustíveis fósseis continue aumentando durante várias décadas.

Há qualificações e condições na pesquisa, “ses” e “poréns”, que sugerem que podem haver desconhecidos inesperados no futuro. E sua conclusão central é que o mundo ainda está esquentando – mais lentamente, talvez, mas ainda muito rápido para ser confortável.

Este artigo foi publicado originalmente em The Daily Climate, a fonte de notícias sobre a mudança climática publicada por Environmental Health Sciences, uma empresa de mídia sem fins lucrativos.

sciam27maio2013