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Nova técnica promete melhorar fertilização assistida

Tecnologia aprovada para utilização em fertilização in vitro ainda tem de provar sua eficiência

Dina Fine Maron
SHUTTERSTOCK
Nem todo encontro de um espermatozoide com um óvulo se torna una união bem sucedida.

Isso é particularmente verdadeiro nas placas de Petri utilizadas no processo altamente tecnológico de fertilização in vitro, ou FIV.

Nos dois ou três primeiros dias após a pretendida união, cientistas examinam cuidadosamente o incipiente processo de vida em busca de quaisquer sinais de que talvez tenha desandado.

Embriões bem formados e células que se dividem rapidamente recebem notas “altas” e podem ser selecionados para implantação no útero de uma mulher, ou congelados para uso futuro.

Mas embriões com uma química inadequada geralmente são postos de lado, excluídos. Em geral, porque são vagarosos ou se multiplicam em números de células ímpares, por exemplo, três e depois talvez sete, em vez de uma progressão saudável de dois, quatro, oito e assim por diante.

Estudos sugerem que essas anomalias talvez indiquem que esses embriões não teriam tanta probabilidade de acabar formando um blastocisto promissor; um aglomerado de mais de 100 células em rápida divisão.

No quinto dia, esse denso conjunto de células deveria formar uma massa celular interna bem definida que se transformará no bebê enquanto o círculo exterior de células originará a placenta.

Nesses primeiros dias, especialistas checam rotineiramente um candidato a embrião ao removê-lo de sua incubadora, depositá-lo sobre uma lâmina, e examiná-lo sob um microscópio.

Mas esse processo de “inspeção”, chamado análise morfológica, é altamente subjetivo e se baseia em opiniões de embriologistas individuais, quando o examinam ao microscópio.

Barry Behr, diretor do Laboratório de Fertilização In Vitro na Stanford University, acrescentou mais um teste, bastante aprimorado, ao processo e o FDA, o órgão do governo americano que regula alimentos e medicamentos, o aprovou no ano passado.

Behr criou o teste chamado Early Embryo Viability Assessment [Avaliação Inicial de Viabilidade do Embrião], ou Eeva.

Essa é a única tecnologia do gênero aprovada pelo FDA e é projetada para analisar embriões e ajudar especialistas em fertilidade a selecionar o candidato, ou candidatos, com maior probabilidade de evoluir para o estágio de blastocisto.

Behr espera que, algum dia, o teste possa ajudar especialistas e pacientes a escolher apenas um embrião para implantação.

A atual imprecisão dos resultados da análise é uma das razões por que muitas mulheres preferem o implante de vários embriões, um processo que também pode resultar no desenvolvimento de gêmeos ou trigêmeos, que em geral nascem com um peso arriscado, bem abaixo do normal, ou são prematuros.

Apesar de todo o interesse pelo teste de Behr, porém, ainda não há dados clínicos para responder a uma grande pergunta:

O Eeva leva a gestações mais bem-sucedidas ou a bebês nativivos?

“Acredito que essas sejam perguntas que cientistas têm de fazer”, opina Andrew La Barbera, diretor científico da Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva.

“Intuitivamente seria de se pensar que se o embrião está se dividindo a intervalos regulares ele seria saudável e deveríamos usá-lo, mas ainda não foram realizados quaisquer ensaios clínicos randômicos, controlados, que tenham demonstrado que [essa tecnologia] é preditiva”, salienta.

A avaliação Eeva tem duas fases.

Primeiro, uma câmera de lapso de tempo é fixada em uma incubadora para que possa tirar fotos “instantâneas” do embrião a cada cinco minutos durante as primeiras 48 horas de divisão celular.

Em seguida, esses dados são inseridos automaticamente em um algoritmo especializado que atribui a cada embrião nessa incubadora uma “nota”, ao julgar seu aspecto [bom ou não] em comparação com um embrião normal de referência.

O sistema Eeva não pretende substituir a avaliação morfológica tradicional, mas complementar a triagem dos principais candidatos realizada por especialistas com os métodos habituais.

Depois da análise logarítmica, o software Eeva analisará as imagens que fez do embrião e apresentará suas notas de avaliação “altas” ou “baixas” para quais embriões provavelmente evoluirão satisfatoriamente para o estágio de blastocisto.

Em situação ideal, o embrião seria transferido para o útero três dias após a inseminação do óvulo para minimizar o tempo que ele passa fora do corpo, embora algumas clínicas esperem até o quinto dia.

“Estou impressionado com o fato de o Eeva ser tão eficiente”, reconhece Arthur Wisot, um médico da equipe da clínica de fertilidade Reproductive Partners Medical Group, no sul da Califórnia.

“O que o diferencia de outros sistemas de lapso de tempo é seu software singular de análise desse tipo de imagens, que pode nos informar automaticamente, sem intervenção humana subjetiva, se um determinado embrião tem, ou não, uma alta probabilidade de atingir a fase de blastocisto”, explica.

Alguns especialistas avaliam que com essa tecnologia estão em melhor posição para fazer mais consistentes de embriões viáveis junto com os pacientes.

De fato, dados mostraram que, em algumas circunstâncias, a avaliação pode ajudar especialistas a identificar com êxito os embriões que têm as melhores chances de chegar ao estágio de blastocisto até o quinto dia.

Um estudo indicou que o Eeva melhorou em 53% as probabilidades de especialistas preverem com precisão qual embrião se desenvolveria em um blastocisto em comparação a quando eles só usavam a classificação morfológica tradicional.

O estudo mais recente comparou as experiências de embriologistas de cinco clínicas com 54 pacientes submetidas à FIV.

Em cada um desses centros os especialistas tinham previsto a formação de um blastocisto utilizando apenas a morfologia de 3 dias versus essa mesma morfologia seguida por resultados de testes Eeva.

Ainda assim, um blastocisto não gera garantidamente um bebê.

Mesmo depois de selecionar um excelente embrião, não há certeza em qualquer gravidez.

Desequilíbrios hormonais podem afetar o útero da mulher no momento da transferência embrionária ainda podem impedir que ele se fixe em sua parede.

O teste Eeva também não é aprovado para ajudar embriologistas a obter informações sobre anomalias cromossômicas no embrião; o que também pode mudar o transcurso de uma gestação.

O sistema de avaliação automatizada da tecnologia recebeu sua aprovação final do FDA em novembro passado.

Nenhuma organização independente está monitorando quantas clínicas já estão empregando o sistema Eeva, mas, de acordo a Auxogyn, a empresa que o comercializa, atualmente são 10 ao redor do país, inclusive a de seu criador em Stanford.

Outras clínicas, porém, continuam céticas em relação à tecnologia.

Para usar o Eeva, pelo menos alguns dos embriões teriam de parecer muito promissores, argumenta Norbert Gleicher, diretor médico e cientista-chefe no Centro para Reprodução Humana em Nova York.

Ele salienta que a tecnologia foi desenvolvida para ajudar a avaliar qual embrião é melhor, ou mais viável, especialmente quando há mais de um se dividindo do modo desejado; mas adverte que às vezes pacientes submetidas à FIV não terão embriões que atendam a esse padrão.

Essa é uma das razões por que nem todas as clínicas de fertilidade, inclusive dele, estão convencidas de que a tecnologia seja uma boa indicação para sua clientela, explica.

A clínica particular e o centro de pesquisa de Gleicher decidiram não comprar o Eeva ou qualquer tecnologia de imageamento de lapso de tempo por acreditarem que investir nesse custo não melhoraria os resultados de suas pacientes.

“Para obter o benefício da seleção e afirmar que ela está ajudando a identificar o melhor embrião tem de haver um ‘melhor’, e se todos eles forem apenas medianos o sistema não trará benefício”, argumenta ele.

Como companhias de seguro-saúde em geral não cobrem essa tecnologia, para a qual algumas clínicas cobram algo em torno de US$ 1.500, ela pode tornar o preço de um tratamento de fertilização in vitro ainda mais salgado para pacientes.

Na clínica de Gleicher, que atende um grande número de mulheres com mais de 40 anos que tiveram ciclos de FIV infrutíferos em outros lugares, a maioria das pacientes não tem embriões “bons”.

É muito mais comum que eles sejam considerados medianos ou inadequados, de maneira que não haveria nenhum benefício, além de aumentar os custos, justifica o médico e cientista.

O teste Eeva “lhe dá um potencial de alta ou baixa viabilidade agora, mas ele não é absoluto”, salienta seu criador Barry Behr.

O que ele pode fazer é ajudar a selecionar com quais embriões iniciar uma gravidez. Por enquanto, os médicos têm de decidir se isso é suficiente.

 

Publicado em Scientific American em 16 de abril de 2015.