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Nova terapia usa vírus da poliomielite para tratar de câncer cerebral agressivo

Primeiros resultados mostram benefícios, mas especialistas ainda discutem eficácia.

Wikimedia Commons

Uma forma inativa do vírus causador da poliomielite usada para tratar tumores cerebrais recorrentes mostrou o que os pesquisadores chamaram de sobrevida animadora, segundo os dados de um ensaio clínico de fase um publicados na terça-feira (3).

Os autores relataram que 21% dos pacientes ainda estavam vivos três anos após a recorrência do glioblastoma, uma forma agressiva e rapidamente letal de câncer no cérebro que é extremamente resistente a tratamentos - até mesmo a nova safra de imunoterapias provou ser ineficaz. A partir desse cenário sombrio, os primeiros resultados sugerem que a terapia experimental com o poliovírus, criada no Instituto do Câncer de Duke, é uma promessa.

As ressalvas na estrutura do estudo e fraquezas nos novos dados incitam dúvidas, no entanto, se a terapia - apresentada duas vezes no programa de notícias da CBS “60 Minutes” - vai se provar eficaz. Teremos uma resposta definitiva somente após testes clínicos.

"Esta é uma doença devastadora, onde o prognóstico e o resultado para os pacientes é muito triste. Então, para nós, é muito encorajador que esse novo tratamento tenha  sobreviventes de longo prazo", disse Annick Desjardins, diretora de pesquisa clínica do Centro de Tumor Cerebral da Universidade de Duke envolvida no estudo de terapia com o poliovírus.

Andrew Lassman, chefe de neuro-oncologia do Centro Médico Presbiteriano da Universidade de Columbia em Nova Iorque, está mais cético em relação ao estudo, após analisar os resultados a pedido da revista STAT. Lassman não estava envolvido no estudo.

"Encorajo qualquer pesquisa nesta área a procurar por melhores resoluções, especialmente porque os tratamentos existentes para o glioblastoma são muito ineficazes para os pacientes", disse ele. "Esta terapia [poliovírus] pode se tornar grande, mas os dados ainda não são suficientes para concluir que esta é a melhor abordagem a ser adotada."

Os dados da Fase 1 foram apresentados na 22ª Conferência Internacional sobre Pesquisa e Terapia do Tumor Cerebral na Noruega e publicados simultaneamente na revista New England Journal of Medicine.

No estudo, 61 pacientes com glioblastoma recorrente foram tratados com uma vacina de poliovírus modificada para, preferencialmente, atingir uma proteína encontrada em células tumorais cerebrais e desencadear uma resposta imune. Os cirurgiões implantam um cateter no crânio dos pacientes, de modo que o vírus modificado - também conhecido pelo nome científico PVSRIPO - pôde ser infundido diretamente em seus cérebros para alcançar o tumor.

A princípio, os médicos da Duke planejavam aumentar gradualmente a dose durante o estudo, mas, em doses mais altas, os pacientes começaram a apresentar um edema cerebral que resultou em convulsões e distúrbios cognitivos. Os pesquisadores então recuaram para uma dose mais baixa e segura da terapia, que acabou sendo usada pela maioria dos pacientes do estudo.

Considerando todos os 61 pacientes tratados, a sobrevida global média foi de 12,5 meses. O estudo carecia de um grupo de controle, então, para efeito de comparação, Duke vasculhou seus registros médicos de pacientes anteriores para compilar um grupo de 104 pacientes com o mesmo tipo de glioblastoma recorrente. A sobrevida média global nesse grupo controle foi de 11,3 meses.

A diferença de sobrevida média de pouco mais de um mês favoreceu a terapia com vírus da pólio sobre o histórico dos pacientes controle, mas não foi estatisticamente significativa.

Os pesquisadores também realizaram uma análise para determinar a porcentagem de pacientes vivos em determinados momentos.

Em um ano, 54 % dos pacientes em tratamento com o  poliovírus estavam vivos, em comparação aos 45 % dos pacientes do controle histórico. Aos 18 meses, 23 % dos pacientes de cada tipo de estudo estavam vivos.

Após 18 meses, os pesquisadores da Duke afirmam que um pequeno grupo de pacientes que se tratavam com poliovírus começou a mostrar sinais de sobrevivência prolongada. Em dois anos de acompanhamento, 21 % dos pacientes com poliovírus permaneceram vivos em comparação com 14 % dos pacientes controle.

Em três anos, a lacuna de sobrevivência aumentou ainda mais, com 21% dos pacientes do tratamento com poliovírus ainda vivos, em comparação aos apenas 4% dos pacientes controle.

"Assim como acontece em muitas imunoterapias, parece que alguns pacientes não responderam ao tratamento por alguma razão. Mas se respondem, geralmente se tornam sobreviventes de longo prazo", disse Desjardins, que tem a patente na terapia de poliovírus e possui opções de ações na Istari Oncology, empresa que busca comercializar o tratamento.

Neste momento, os pesquisadores ainda são incapazes de identificar antecipadamente quais pacientes responderão e se tornarão parte deste grupo de sobreviventes de “longa prazo”. Esse grupo de sobreviventes de longa prazo também é muito pequeno, o que levanta questões sobre a confiabilidade das descobertas. Em dois anos, apenas oito dos 61 pacientes do tratamento com vírus da poliomielite ainda estavam vivos e foram contabilizados. (Alguns pacientes foram censurados, o que significa que seu status no estudo não é conhecido).

"Quando você olha para os detalhes da análise de sobrevivência dos pacientes em tratamento com o poliovírus, uma sobrevida média de um mês em comparação com o controle proveniente do histórico de Duke não parece tão grande", disse Lassman. “Eles chamam muita atenção para os casos de sobrevida a longo prazo, mas a maioria dos estudos de câncer tem uma longa data semelhante. Não está claro se esses sobreviventes de longo prazo foram beneficiados especificamente com esse tratamento ”.

O próximo estudo clínico da terapia com poliovírus provavelmente não resolverá essa importante questão sobre a sobrevivência. Neste estudo de Fase 2, que começou recentemente, pacientes com glioblastoma recorrente serão divididos em dois grupos. Um grupo receberá a terapia com poliovírus e quimioterapia; o outro grupo receberá apenas o poliovírus.

Isso significa que o estudo, quando concluído, determinará se a adição de quimioterapia à terapia com o vírus da pólio é melhor do que a terapia apenas com poliovírus, mas não responderá à pergunta sobre se a terapia com o poliovírus é eficaz por si só.

Dani Bolognesi, CEO da Istari Oncology, empresa privada de biotecnologia que licenciou os direitos da terapia com o poliovírus da Duke, disse que o estudo da Fase 2 foi elaborado pela Duke com base nos resultados positivos de um paciente anterior que respondeu bem à abordagem combinada do tratamento.

Bolognesi, um dos autores do estudo da Fase 1, disse que a empresa está trabalhando com a Food and Drug Administration (agência federal dos EUA) para planejar estudos adicionais que possam comparar a terapia com o poliovírus à um tratamento padrão. No entanto, a empresa está preocupada com a possibilidade de os pacientes com glioblastoma se recusarem a participar desse estudo, porque os tratamentos padrão que seriam usados como controle são ineficazes.

Adam Feuerstein

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